A Condessa Sangrenta, de Ulrike Ottinger
(Die Blutgräfin, Áustria/Luxemburgo/Alemanha, 2026)

A Condessa Sangrenta se esvazia de todo sentido e narrativa, já anunciando tal proposta na boca de sua protagonista: essas personagens têm a previsibilidade como seu maior propósito. Possuindo o total controle do tempo, e jamais vivendo qualquer aventura de fato. Interessante, pois muitas das histórias de vampiros que conhecemos, inclusive tendo o Drácula sido escrito por um aristocrata, têm a ver com uma sina de danação. Os vampiros estão fadados a se meter numa saga romântica em que vão experimentar as agruras humanas, a morte. O comentário de A Condessa Sangrenta desafia esse mito: são aristocratas imortais, ora essa, eles só querem conforto e controle. Por que não fazer um filme de vampiros em que nada acontece, e eles só ficam para lá e para cá numa frivolidade gloriosa?

De fato, o filme testa os limites do quanto pode ser completamente vazio, mas repleto de pequenas aventuras por capricho, e tiradas que se pretendem muito agudas. A dramaturgia altamente bem humorada acontece em contraste com uma atmosfera inóspita. Não se ouvem sons que não os diálogos e sons da ação, os cenários são todos vazios e perdidos no tempo, os figurinos são dos anos 40, mas um personagem menciona o ano de 1974 falando do passado.

De fato, seria um filme apetitoso ao extremo, não fossem, no geral, suas ideias tão pouco inspiradas. Numa festa, vários rapazes saem das cortinas, gloriosamente impassíveis, e se sentam, para que moças vendadas apareçam com navalhas para barbeá-los, até que cortem seus pescoços e Isabelle Huppert diga: “Está servido!”. De fato, o filme funciona melhor se aceitarmos que ele se pretende vazio, e só pode respirar se aceitarmos que o deleite com a estupidez bobalhona com que esses excelentes atores estão se divertindo, é seu único atrativo. A trama em si são jogos e brincadeiras andando em círculos, o dado é que essa vampira superpoderosa sempre triunfa. A superficialidade sufocante, na qual Huppert se diverte às nossas custas, deve ser um atrativo do filme, mas, de fato, jamais deixa de pesar o quanto não tem nada acontecendo. Os acontecimentos em si são um monte de vai e volta de um personagem cruzando com o outro e dizendo a que veio, as personagens buscando e desvendando pistas numa gincana, um personagem às voltas com ser um vampiro frouxo e vegetariano, numa gag em espiral.

É interessante que o filme não esteja muito preocupado em se explicar ou nos convencer de nada, seus figurinos extravagantes e a sua amargura da mensagem,  por baixo da alegria dos vampiros em serem “intocados pela virtude”, falam por si só. Não há por que negar a escolha de ser como eles, alegre e idiota. Eles têm seus atrativos, que eles mesmos criaram e realizam a manutenção, e nós, aqui, continuamos babando na Diva Isabelle Huppert, rindo da nossa cara em um figurino magnífico. São gloriosamente vazios de alma, e o filme não se vê na obrigação de explicar se isso é ruim, e esbanja assim suas piadas sem graça. Os primeiros vinte minutos são atiçando nosso interesse por ver a icônica condessa de Bathory sendo referida a torto e a direito, e a cena final é uma grande bagunça que  perdeu faz tempo qualquer interesse. E, Huppert, sempre em sua divertida flutuação em relação a tudo, nota uma pitoresca comitiva na cabine ao lado e proporciona um momentinho. É uma proposta arriscada em um filme de atuações tão extravagantes que possa chegar a ser insípido, por ser completamente superficial e zero calorias. Uma ideia de vampiro tão alegre e carefree é quase um mundo paralelo que zomba do nosso, e nos permite participar da brincadeira, zombando deles. Um mundo paralelo onde é tudo mágico e as pessoas podem viver para sempre sem problemas, é também um mundo insípido e de uma performatividade forçada que cansa facilmente, justamente por não sabermos ou desejarmos saber para onde está indo. Todo o tempo perdido movimentando a gincana, desvendando pistas, ou lidando com as crises do vampiro-bullying, testa honestamente a nossa paciência.

Villar da Cruz