A Ilha dos Prazeres Proibidos, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 1979)

Eis que dou a vocês todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com se­mentes. Elas servirão de alimento para vocês.

E dou todos os vegetais como alimento a tudo o que tem em si fôlego de vida: a todos os gran­des animais da terra­, a todas as aves do céu e a todas as criaturas que ­se movem rente ao chão.

Gênesis 01:29-30

Neide Ribeiro é Ana Medeiros e Ana Medeiros é o fruto proibido e é ela que nos introduz a Ilha dos Prazeres: o fênix libertário, o gênesis pós-nietchziano, nesse erótico e eletrizante filme de Carlão Reichenbach que, em meio a uma trama de assassinato jogada em um clima político de moral bipolar, arranha a visão de um éden libertário e tropicalista. 

É justamente ela, Ana, que nos apresenta primeiro ao continente: a redação do jornal, e aos reacionários que procuram encomendar os assassinatos dos subversivos, bandoleiros, depravados e nudistas profissionais que residem dentro da ilha e aos mitos que permeiam o imaginário popular da tal Ilha dos Prazeres: um lugar perigoso onde aqueles que pisam na ilha acabam por se entregar a depravação de seus prazeres mundanos e nunca mais voltam ao continente. De alguma forma, o medo pela suposta ‘depravação’ da ilha por momentos se assemelha a uma espécie de medo de ser feliz, um ciúmes possessivo do continente em possuir tudo aquilo que se encontra mais adentro do litoral.

Ana é enviada para encontrar o ex-jornalista Sérgio Lacerda (Roberto Miranda), um homem que servirá como guia dela na sua viagem até a ilha, local responsável por fazê-lo abandonar a vida como jornalista e se isolar para as bordas do continente, no litoral, onde vive com Lua (Teca Klauss), sua companheira, que tem o papel simbólico de primeira morte dentro do filme.

A visão continental sobre a ilha, muito parecida com a visão de Homero sobre a sua própria Ilha dos Prazeres, a Ilha de Ogígia, se mostra por diversas vezes dentro do continente como uma espécie de ressentimento aos perigos do gozo que parece habitar esse local, esse paraíso litorâneo onde vivem os homens e mulheres, os depravados, subversivos e nudistas profissionais de espírito bandoleiro (de Alma Corsária), que procuram fugir do reacionário continente. Um deles, chamado Nilo Baleeiro (Fernando Benini), é a figura que dá cara à subversão refugiada na ilha. Um sujeito meio maluco, poeta, que se prende a recitar poesia debaixo do sol da praia, vivendo livremente sem teto apenas uma pequena barraca, e mesmo ao lado das belas Brigitte (Fátima Porto) e Monique (Zilda Mayo) acaba por preferir justamente a terrível Ana, o nosso fruto proibido.

É no meio do ato de conhecer a ilha que acabamos por ver parte de sua magia. O comportamento bipolar de Ana, por vezes se permite dar voz aos prazeres: ela cede duas vezes durante o filme as tentações da ilha ao se deitar tanto com Sérgio quanto com Nilo, mas ao mesmo tempo acaba por se arrepender amargamente ao fazê-lo, sendo consumida por uma espécie de raiva, uma cólera errática que a faz atacar ambos os homens, como uma espécie de medo sobre a própria ideia de viver os prazeres da ilha. Esse conflito é instalado nesse vai e vem entre o gozo e o reacionarismo, junto ao dilema concreto de Ana em se entregar aos seus prazeres da ilha ou cumprir sua missão.

Enquanto vemos Ana Medeiros ser rejeitada por Sérgio, mesmo ela procurando seduzi-lo com sua beleza nas belas praias da ilha, o único a olhá-la é Nilo, que é tirado de lá pelas duas mulheres e o amigo, para enfim entrar na cabana. Ele, como figura, aliado a Luc Moullet (Olindo Dias) é quem testa os limites das regras que conhecemos sobre a ilha. Se Ana não pode entrar na ilha com sua arma, Nilo tem uma faca, dinamite e um revólver trazidos pelo cineasta contrabandista. Fernando Benini é Nilo Baleeiro e Nilo Baleeiro é Adão e no princípio na Ilha tínhamos ménage à trois ao invés de Adão e Eva.

Se Nilo é o libertário máximo em comunhão com a ilha e seus costumes e as duas mulheres, Brigitte e Monique, são o ménage à trois primordial, William Solanas é o tímido contato com o paraíso, o receoso homem que se divide entre o desejo por outras mulheres e o ciúmes que tem da esposa, Lucia (Meiry Vieira). É com a figura de Sérgio, por quem a esposa é apaixonada, que o romancista vê a possibilidade de se livrar dessa sua contradição moral. A cena em que é pego com as duas mulheres de Nilo serve como uma espécie de despertar para Ana sobre o que é a ilha afinal: não um lugar para os homens de corações puros da depravação, mas sim para os depravados de coração. 

A música andina e os planos abertos que capturam essa ilha mística, essa mistura entre cidade turística do litoral paulista e o jardim do éden tropicalista (um recorte entre Iguape, Peruíbe e Itanhaém) é palco das mais belas paisagens, seja dos planos onde o barqueiro atravessa o canal para levar Sérgio a praia, ou aos belos horizontes onde vemos os corpos a contra luz. O horizonte e a exploração da sensualidade da ilha extrapola para além das cenas de sexo, dos corpos nus, do strip tease em frente a câmera. Existe também um erotismo sobre a ilha, esse recorte de três diferentes praias, três diferentes litorais e um mesmo paraíso dos prazeres.

A cena de montagem paralela entre as cenas de sexo entre Lucia e William contrapostas as de Sérgio e Ana mostra bem o contraste entre a disposição moral presente em cada um dos casos. O casal Solanas volta a casa conciliado, enquanto Ana ataca Sérgio e pega seu carro para enfim cumprir o pecado inicial desse Gênesis da Boca do Lixo, ou seja, a morte do menáge primordial. O filme termina com o litoral, com Lucia, William e Sérgio juntos, em um beijo triplo. Se no começo havia um menáge primordial, mesmo após os crimes contra o gozo ocorrerem na ilha, o casal Solanas transforma o tabu em totem, o ciúmes no gozo: torna-se mais uma vez ménage à trois.

D. A. Soares