A Odisséia, de Christopher Nolan
(The Odyssey, EUA/Inglaterra, 2026)
A Odisséia: o mestre da pior dramaturgia

O “cinema de autor” hoje pode ser um mar de redundância e de distinção esnobe, mas vulgar. Vemos como Hollywood aspira a alguma dignidade ao criar seus autores de proveta com etiqueta de art (Christopher Nolan, por exemplo) para afirmar que existe cinema arrojado na sua linha de montagem.
Francis Vogner dos Reis na segunda edição de “O autor no cinema” de Jean-Claude Bernardet
Muito interessa àqueles afeitos à intelectualidade o estudo dos gregos. Parte disso se deve a alguns motivos óbvios: foi Platão, com seus diálogos e seus registros sobre Sócrates, que tiveram o maior impacto inicial para formar aquilo que se convencionou como filosofia dentro do mundo ocidental. Os médicos, quando se formam, fazem seu juramento a Asclépio, filho de Apolo, e quando falamos sobre aqueles que contam histórias em nossos ouvidos, a história sussurra os nomes de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes com suas tragédias do sofrimento dos nobres aristocratas, dos homens elevados. Se você é afeito aos problemas do populacho, talvez prefira Aristófanes e os problemas dos homens comuns, pouco afeitos e muito menos bem quistos pelos deuses ou pela sociedade grega da Idade do Bronze.
Esses pensadores, no entanto, são todos orientados por um mesmo alinhamento cultural, linguístico e religioso. O próprio teatro grego é um exemplo quase que ilustrativo disso: reunidos na pólis, os atores vestem suas máscaras para incorporar seus papéis, na posse das máscaras os homens comuns tornam-se heróis e deuses, os sujeitos que movem as engrenagens da tragédia e incorporam essas personas em palco e propagam sua história. E assim se transmite a lei, a moral e a religião. O teatro, que para os gregos era uma importante ferramenta cívica para a educação de uma classe aristocrática, mostra que para os gregos o transcendental e as formas de retratá-lo não vêm de uma abstração, mas sim de uma iconografia concreta: os deuses habitavam no mundo, o transcendental e o divino eram em algum nível palpáveis, apesar de inalcançáveis.
Os deuses, apesar de superiores aos homens, ainda assim eram exatamente como se pintavam: humanos, demasiadamente humanos para ser mais exato. Essa humanidade em demasia pintava os contos de infidelidade de Zeus para com Hera, o conflito entre as três deusas pela maçã e o título de a mais bela que fez heróis como Diomedes serem favorecidos e desfavorecidos pelos deuses durante os dez anos do cerco de Tróia narrados pelas palavras de Homero. Os heróis gregos, aqueles mortais que eram tão demasiadamente humanos quanto os deuses, são aqueles que desafiaram as divindades: são as ofensas de Agamenon contra Artemis, são os golpes de fúria de Diomedes contra Ares e Afrodite e, no que mais interessa a este texto, é Odisseu declarando sua vitória e seu nome contra os ciclopes e marcando seu destino como inimigo mortal de Poseidon.
É em Homero onde esse mortal demasiadamente humano desafia os deuses e se nega a se dobrar à sua vontade. Ele não queima o corpo e ascende como Héracles, ele não sofre um castigo trágico como o audaz e esperto Sísifo e sua tarefa impossível de rolar eternamente a pedra até o topo da montanha. Ele é Odisseu e contra tudo e contra todos ele volta para casa, enfrenta a fúria dos deuses e volta para o lado de Penélope. Esse é o Odisseu dos gregos, o Odisseu que volta para sua casa e reina soberano. Esse não é o Odisseu de Christopher Nolan.
Odisseu e Ulisses

Se, em Homero, a maioria dos gregos admirava a astúcia, os ardis e os feitos de Ulisses, em Virgílio ele não é mais um exemplo compatível com a honra troiana/latina. Isso se reflete nos adjetivos e nos epítetos utilizados para descrevê-lo: ímpio, malicioso, mísero, hedonista, cruel, enganador, terrível, artista do crime.
Alysson Ramos Artuso no artigo Ulisses no inferno da Divina Comédia – Uma comparação do herói em Dante, Homero e Virgílio
O nome Odisseu deriva do verbo grego odyssomai, traduz-se o verbo como: odiar, ser odiado, provocar ira, sentir ressentimento.
Odisseu é assim batizado pelo avô: Autólico, um neto de Hermes. Esse relacionamento de Odysseus (o odiado) com Hermes (o deus dos ladrões) coloca Odisseu não como um guerreiro honrado e um senhor tão somente exemplar, muito pelo contrário.
Odisseu é um homem malicioso que provoca a fúria e o sofrimento com seus truques e mentiras. Ao mesmo tempo, é essa mesma astúcia, a mesma malícia que o torna elevado perante aos outros mortais.
Essa astúcia lhe rende a desavença dos romanos, e justamente por isso que, quando retratado pelos bons sentimentos cristãos de Dante Alighieri, ele se encontra no oitavo círculo do inferno, o círculo da fraude e dos maus conselheiros.
Os versos de Dante entretanto são pronunciados por Autólico, que nomeia seu neto lhe passando a mêtis (astúcia) de seu divino parente e a ira direcionada a ele próprio. Saudando o neto ele diz:
Como venho aqui odiado por muitos homens e mulheres sobre a terra, que o menino seja chamado Odisseu.
Odisséia Livro XIX
Essas, no entanto, não seriam as únicas leituras possíveis de seu nome, com muitos dos autores das mais diversas artes se colocando para traduzir seu nome e para lhe dar um rosto.
Jean-Luc Godard, por exemplo, debate Odisseu e Ulisses na sala de exibição das cenas gravadas por Fritz Lang enquanto Bridget Bardot foge com seu pretendente.
As diferentes visões sobre a fidelidade de Penélope, de Lang e do produtor, se chocam com suas visões contrastantes sobre o cinema.
Ele chamou o filme de O Desprezo (Le Mépris).

O Odisseu de Christopher Nolan nos é primeiramente apresentado por seus súditos, e por meio destas cenas vemos uma demarcação de hierarquia: enquanto o jovem Telêmaco conversa com Eumeu sobre seu pai, as lembranças sobre o jovem rei Odisseu, vemos a figura de costas trocando poucas palavras com o sujeito. Ele é retratado com a devida distância, com planos mantendo a face de Matt Damon fora de tela. Essa primeira cena não só demarca a apresentação do herói para seu filho como também o representa aos olhos de Eumeu. Esse mesmo tipo de abordagem reaparece quando o filme decide nos apresentar o Agamenon de Benny Safdie: ele esconde seus olhos na sombra do elmo, sempre altivo e vestido em preto dirigindo poucas palavras a Odisseu que apenas o cumprimenta em sinal de respeito.
Esse Odisseu é um homem muito apegado à figura de Agamenon, que surge no filme como uma espécie de substituto para a figura de Aquiles. Quando os vivos aportam no Hades, é ele quem recebe Odisseu e é Orestes que faz às vezes do cruel Neoptólemo. Odisseu, no entanto, não consegue confortar o fantasma que nesta versão lhe oferece instruções de como chegar em segurança à ilha de Ítaca. Essa figura, gravada com o distanciamento de nunca revelar explicitamente a face do filho de Atreus, não possui momentos de humanidade, sendo uma figura que representa não apenas uma altivez quase que divina, como torna-se simbolicamente a própria guerra.
A sequência da guerra, quando Odisseu abre a porta do castelo e vemos um Agamenon andando com o corpo armadurado cidade adentro marca essa visão sobre o rei de Creta. Esse tipo de simbolismo aparece com outros personagens, em especial com outras figuras divinas: o pingente de Odisseu que traz a figura de Atena se assemelha a uma imagem da virgem Maria, enquanto Zendaya aparece embalada em um manto. O Paládio, nome dado à estátua da deusa, destruído, e o personagem de Eliott Page, o soldado Sinon, demonstram as proximidades da leitura de Nolan com Virgílio, afinal tanto a destruição do Paládio como a existência de Sinon são elementos retirados da própria Eneida.
Isso se reflete em Matt Damon, que parece atuar um Odisseu escrito para redimir o herói dentro desse paradigma de uma moral troiana/latina. Ao mesmo tempo em que os feitos de sua astúcia o elevam para os mortais, o Odisseu de Nolan é um homem demasiadamente mais contido, mais racional e, em algum sentido, demasiadamente menos humano. Suas aventuras são mostradas com os obstáculos sendo superados por sua habilidade de liderança enquanto ele narra a história para uma Calypso interpretada por Charlize Theron.
A forma como Nolan se decide por representar o sobrenatural e o divino é outra forma de se delimitar a visão sóbria que ele tece sobre os mitos: enquanto Penélope e Telêmaco lidam com as intrigas palacianas e tentam deixar os pretendentes na rédea curta, Odisseu vê ciclopes, gigantes, ninfas, monstros e sereias em suas viagens, mas nunca cruza diretamente o caminho dos deuses. A visão de Atena que lhe acomete durante seus conflitos morais se aproxima de uma projeção do rosto de uma sacerdotisa morta durante o saque da cidade, se assemelhando muito mais a uma espécie de personificação de um estresse pós-traumático que toma conta de ser uma consciência moral para Odisseu.
Esse desapego aos deuses elimina a ideia inicial sobre a Odisseia: o homem odiado por deuses os desafia para chegar em casa. Aqui os deuses o castigam, mas eles não são palpáveis. Os seres divinos e transcendentais são abstratos. Calypso talvez seja a única divindade que aparece de fato para Odisseu, por mais que sua origem divina seja aqui incerta ou não seja um assunto falado pelo próprio rei de Ítaca, da mesma forma com que Atena parece servir mais como uma figura que representa sua consciência moral, uma espécie de projeção moral do que conselheira divina de fato. Para o Odisseu de Nolan, a deusa da guerra larga o escudo e o báculo e veste seu véu em tons pastéis.
Se antes disse que o Odisseu de Nolan, interpretado por Matt Damon, se assemelhava ao Ulisses de Virgílio (dentro de seu código moral troiano/latino) devo retirar o paralelo. Nolan não é latino, ele é inglês e por consequência sua moral é imperialista/protestante. Odisseu não pode terminar sua história em casa, na pacata, porém pobre e rochosa ilha de Ítaca. Ele e Penélope navegam em direção ao Oeste. No roteiro para prestar homenagem aos mortos, na voz de Matt Damon, para ver uma nova e brilhante era, deixando para trás a decadente Idade do Bronze.
D. A. Soares
