
A Providência e a Guitarra, de João Nicolau
(Portugal, 2026)

Começamos A Providência e a Guitarra com um plano geral fixo de um dos protagonistas, Léon (Pedro Inês), no século 19, declamando o texto de uma peça para a sua esposa Elvira (Clara Riedenstein), a outra protagonista do longa-metragem e autora dos espetáculos que eles fazem. Léon é filmado coberto pelo chiaroscuro, cercado por um visual barroco, e existe uma certa rigidez formal em como as dinâmicas que cercam o casal são filmadas. Só que, curiosamente, o tom do filme é de uma comédia de costumes, que vai cada vez mais revelando conter um tom absurdo que cria um ruído consciente com a sua ambientação e direção.
As peripécias desse casal de saltimbancos – que fazem peças, cantam, escrevem e atuam – são usadas para se falar com bom humor do tal “estado da arte”, das dificuldades dos artistas independentes e das questões financeiras que eles tem que correr atrás o tempo inteiro em negociações e jogadas num mundo em que o dinheiro conta mais do que tudo. A rigidez não está só na forma, mas também no rebuscamento da língua portuguesa que os seus personagens falam, contudo, o filme quebra essa pose em diversos momentos, como num momento em que o absurdo toma conta do filme e numa cena temos um zoom da barriga de uma mulher grávida mostrando o bebê que habita nela.
Numa entrevista que fiz com o cineasta, João Nicolau destacou o fato de que a grande maioria dos planos do filme são conjuntos e que em sua maioria, tem um personagem no quadro. Isso já havia me chamado atenção antes dele mencionar, principalmente em cenas em que temos um super close do rosto de Elvira ouvindo a dinâmica de um casal local da cidadezinha onde está. A câmera está fixada ao extremo no rosto da jovem ruiva, enquanto ouvimos a dinâmica do casal fora de quadro e o rosto da protagonista reagindo a ele. Ou nessa própria cena inicial que descrevi, onde temos um plano fixo de Léon, mas ele está se exibindo para Elvira, que começa falando com ele fora de quadro e depois a dinâmica se transforma num plano/contraplano entre eles dois.
A Providência e a Guitarra é um filme de transformação constante. Novas figuras são agregadas aos esquemas e cotidiano de Elvira e Léon, novas desventuras aparecem, o fantasioso começa a se introjetar dentro do filme e temos também algumas inserções de uma linha do tempo paralela no presente em que os personagens têm empregos contemporâneos e estão inseridos no tal “mercado artístico”. Esses momentos em que a narrativa vai para o presente são os piores do filme, porque, por mais que contenham alguns momentos engraçados, como a rivalidade de Léon com dois integrantes da sua banda que com o passar do tempo vão aparecer na linha do passado, eles sobram dentro do macro da narrativa e parecem estar no filme apenas para evidenciar didaticamente que o filme faz um paralelo entre o passado e o presente para falar das nossas relações materiais e existências com arte.
E eu digo existenciais, porque o filme tem um olhar de defender a sobrevivência do artista, seus princípios, as suas intenções de fazer arte e lutar por ela, mas também ocupa um lugar menos romantizado e idealizado do aspecto artístico. Porque, além de ver como é impossível fugir das questões materiais e práticas ligadas a arte, o filme também observa como questões como “talento” podem ser completamente fantasiosas. Ao mesmo tempo que ele investiga como a falta de aptidão se coloca contra certos artistas como Léon, o filme vê com beleza e graça como esses artistas como ele – sem uma aptidão que Elvira tem, por exemplo – que continuam tentando progredir e viver disso sem isso, têm seu valor também, mesmo que o filme, ao mesmo tempo, veja deboche no seu discurso pomposo e admiração na sua empolgação apaixonada pela integridade artística. Acho que nesses belos contrastes estão as maiores belezas do filme.
Diego Quaglia
