A Queda do Céu, de Gabriela Carneiro da Cunha e Eryk Rocha
(Brasil, 2024)

A língua é fatal. Nos depoimentos prestados pelos Yanomami, vemos pontualmente a aparição de algumas palavras inexistentes em sua língua nativa, dentre elas o termo que se destaca é indígena. A escolha de coletar os depoimentos e preservá-los no idioma dos Yanomami retratados, ao invés de dublar por cima com uma narração que atropela o depoimento, é de longe uma das melhores escolhas dentro do filme. Todo o trabalho sonoro, composto pelos barulhos dos insetos, dos pássaros, do vento, da água, da conversa pelo rádio e a flexão da língua nos cantos e coros que seguem o ritual torna a faixa de áudio do filme não só diversa, mas de certa forma, quase que cosmológica.

O ponto central do filme se estabelece e gira em torno de retratar a cosmologia dos Yanomami, e de fato torna-se bem-sucedido quando opta por filmar os arredores: as árvores, as montanhas, o céu estrelado, as nuvens, e adota a mesma variedade de assuntos na imagem que existe dentro do trabalho sonoro. Esse contato da cosmologia com a natureza é retratado com imagens que carregam uma certa monumentalidade que representa, com a intercalação dos planos dos Yanomami em sua vida religiosa e cotidiana com as imagens do cosmos, mostrando o agenciamento dos ritos no controle da manutenção do cosmos, na procura de evitar a queda dos céus na terra.

De certa forma, Gabriela Carneiro da Cunha e Eryk Rocha alcança uma forma satisfatória de nos mostrar essa relação existente dentro da cosmologia Yanomami de sociedade x cosmos, nos mostrando também os problemas enfrentados por essa mesma sociedade na manutenção de sua própria existência frente ao garimpo ilegal e ao ataque de invasores as demarcações das terras indígenas. O apelo à existência, a continuação da dança frente aos problemas de uma realidade material, tornam-se parte dessa mesma poética que gira em torno da cosmologia. Trata-se não de uma fé que promove uma inação aos problemas materiais, mas sim uma ação frente à cosmologia e à forma como a eminente queda do céu se manifesta hoje, em uma realidade onde os grupos Yanomami vivem e dividem no mesmo espaço que o estado federativo brasileiro e os seus garimpeiros e os cabeças do agronegócio que procuram se apropriar das demarcações de terra e expulsar os Yanomami.

Dessa forma, estabelecemos que a poética do filme, pautada dentro da cosmologia Yanomami, guia uma reflexão ao processo da queda do céu e a importância da permanência dos Yanomami, de suas crenças e seus ritos dentro dessa mesma cosmologia. Gabriela Carneiro da Cunha e Eryk Rocha trazem um filme político, poético e cosmológico em seu A Queda do Céu.

D. A. Soares