Ameaça no Ar, de Mel Gibson
(Flight Risk, EUA, 2025)

Antes de mergulhar de vez nas duas sequências (!) da Paixão de Cristo, Mel Gibson – um dos embaixadores reacionários da Hollywood ideal da era Trump, ao lado de Jon Voight e Stallone – aceitou dirigir um simplíssimo roteiro de suspense. Ameaça no Ar narra o sequestro de um avião cujos únicos passageiros a bordo são uma agente federal (Michelle Dockery) e seu prisioneiro (Topher Grace), um contador suspeito prestes a firmar um acordo de delação premiada com as autoridades. O voo decola sem demora, mas o piloto, interpretado por um Mark Wahlberg descontrolado, revela-se na realidade um assassino sádico, disposto a fazer com que os passageiros não cheguem a seu destino (a serviço dos antigos chefes de Topher Grace). Evidentemente, dentro do espaço confinado do avião, cabe a Michelle Dockery se livrar de Mark Wahlberg com os poucos recursos que tem em mãos e, enfim, pousar o avião em segurança.
Não se deve esperar de Ameaça no Ar mais do que, nos melhores momentos, um competente exercício de gênero, que se contenta em seguir, sem desvios, uma fórmula segura para divertir o espectador. É importante destacar, porém, que apesar de Mel Gibson saber filmar e ritmar, de maneira alguma Ameaça no Ar é uma exceção nesse quesito, há um certo desinteresse geral na direção que, ainda que às vezes disfarçado pelo redemoinho da trama, é palpável e inegável. A competência simples não é suficiente para a construção de um bom filme de gênero. O resultado da média aritmética entre as habilidades veteranas de Gibson para construir alguma tensão e a pobreza da dramaturgia do filme (que muitas vezes tangencia o ridículo) e a falta de imagens de fato ousadas não pode ser outra senão a mediocridade, uma espécie de não-lugar onde convivem a falta de inspiração e uma leveza autoconsciente. Ameaça no Ar promete divertir, mas também frustrar.
Como cinéfilos, apreciamos o valor dos projetos que são exercícios dos realizadores. Sentimos um deleite quando voltamos a atenção para pequenas anomalias que parecem destoar do conjunto mais homogeneamente forte da obra de um diretor, mas que, com uma detenção mais generosa do olhar, podem revelar algo de interessante e que elucida alguns aspectos menos abordados nas discussões já cristalizadas sobre os filmes canonizados. Ameaça no Ar, apesar de um corpo estranho (levando em conta o caráter expansivo e marcadamente violento dos filmes anteriores de Mel Gibson), parece menos um exercício do que uma assignment, uma tarefa de estúdio sem nada mais. Ao assisti-lo, temos a impressão de estarmos diante de puro negócio, no qual é difícil encontrar qualquer elemento que remeta ao resto da obra de Mel Gibson, para além da violência histriônica com fortes sobretons sexuais que compõe o personagem de Mark Wahlberg. É difícil encontrar algum interesse genuíno de Mel Gibson para além do simples andamento narrativo e da manutenção de algum nível de suspense – trata-se de um filme que poderia ter sido dirigido por qualquer diretor capaz de entregar o mínimo e que tenha algum domínio dos cacoetes mais tradicionais de Hollywood. A claustrofobia do espaço confinado pode ter sido um dos motivos que levaram Gibson a se interessar pelo projeto, mas até as belas pradarias escocesas de Coração Valente são filmadas de maneira mais opressora do que o pequeno avião de Ameaça no Ar, no qual reina uma certa descontração, uma falta de peso.
A sensação de urgência está presente, ainda que oscilante. A urgência da trama, porém, confunde-se com um certo utilitarismo dramatúrgico, como se a própria premissa da narrativa justificasse a falta de gestos marcantes, de imagens fortes ou de qualquer excentricidade ao estilo que nos acostumamos a ver na obra de Gibson. Falta caracterização – os personagens apenas reproduzem o que há de mais básico possível, sem qualquer peso real, servindo apenas ao andamento da narrativa, ao próprio roteiro. Michelle Dockery (indistinguivelmente britânica a ponto de distrair) é a principal vítima – reduzida apenas a “agente federal séria”, tudo o que ela faz e diz parece ter saído de um primeiro rascunho do roteiro. Novamente, a lógica funcional do business, que vai na contramão de qualquer densidade. O alívio cômico de Topher Grace é fraco pelo mesmo motivo – é demasiado óbvio e calculado. Mark Wahlberg é o corpo estranho que rende alguns dos melhores momentos do filme. O antagonista abusa das insinuações sexuais de gosto duvidoso, da representação sem amarras de um louco, da perturbação. Ora, se falta no resto do filme um quê de agressivo, de brutalidade, Mark Wahlberg consegue servir de alívio provisório – ainda que o fator cômico de sua excentricidade prevaleça em todo momento. Ameaça no Ar é um filme de curvas suaves e Mel Gibson parece plenamente consciente disso.
O recurso do fora-de-campo, tão essencial a filmes desse gênero, é utilizado com certo charme, mas só aguça o problema da caracterização praticamente inexistente: acontece que grande parte da trama se desenrola com Michelle Dockery ao celular, e jamais vemos seus interlocutores – um piloto que serve de guia e dois superiores hierárquicos da agente. Acontece que a missão secreta que levaria à delação de Topher Grace parece ter sido vazada por um dos aliados de Michelle Dockery, e ao longo do filme ela deverá descobrir o que aconteceu, enquanto tenta pilotar a aeronave. O recurso da voz em off acaba deixando tudo mais abstrato – se os personagens que vimos não parecem ser pensados com qualquer interesse para além de um andamento da trama, os personagens que não vimos são ainda mais funcionais.
Apesar de o manifesto estético do Mel Gibson da era Trump não ser esse (e sim as já mencionadas duas futuras sequências à Paixão de Cristo), Ameaça no Ar é um exemplo revelador de uma certa arte que está em construção justamente por conta de sua escala reduzida e de seus defeitos tão similares a outras mediocridades cinematográficas lançadas no streaming ao longo da última década. Talvez não haja manifesto acidental mais claro do que uma adesão ao movimento corrente das coisas, do qual faz parte uma dose crescente de redução das coisas ao utilitário e da priorização única e exclusiva do ‘entretenimento’ no pior sentido possível (o mesmo do algoritmo das redes sociais). É um filme para a Cultura no sentido godardiano da palavra, sem muito interesse para além da ‘diversão’ – e justamente por isso, que muitas vezes falha em divertir, pois falta atenção ao detalhe, ao gesto, que gira em torno do seu próprio eixo sem que esse eixo seja particularmente interessante. Bom, não é preciso recorrer aos velhos mestres para deixar o contraste marcado – o próprio Mel Gibson já encontrou, no passado, meios mais interessantes para entreter as massas. Conscientemente ou não, tudo isso faz parte de um projeto, e quem se interessa pelos rumos das coisas (e aqui, não distinguimos o cinema do resto do mundo), deve manter-se de olhos bem abertos, mesmo que para amenidades ocasionalmente divertidas, mas sinceramente despreocupadas como esse filme.
Lucas Bueno
