Amor, Palavra Prostituta, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 1982)

AMOR, PALAVRA PROSTITUTA, em letras garrafais, expressionistas, tomando quase em sua totalidade um pôster sóbrio, como que rotulando um caixote de madeira, uma encomenda frágil, que se deve abrir com cuidado: o aviso-alerta quanto ao teor incomum do filme, que pode causar escândalo. O escândalo pode ser a exacerbação de um absurdo, uma ruptura inesperada, violenta, que revela a verdadeira natureza da vida. Não existe, portanto, escândalo sem ilusão, e Carlão é um dos grandes ilusionistas do cinema. Amor, palavra prostituta, o título dificilmente esconderia, é um melodrama daqueles de meter o pé na jaca. O amor, o trabalho, um trabalho sujo e vil, mas necessário, o amor perdido no mundo das guerras e dos comércios, dos mercadores e da linguagem. Amor como fruto da linguagem, mas também como presença material na economia. A existência do amor, na boca, no papel, no fazer, no métier, no se relacionar com uma necessidade, um processo, um texto, um discurso, uma linha de produção, a vida. A intenção do filme não é chocar, o pôster escandaloso revela um trabalho construído, estruturado, ele não tenta se inserir sensacionalisticamente num mundo da publicidade, pelo contrário, ele procura revelar a realidade sentimental para um mundo onde o absurdo se tornou banal e, ao mesmo tempo, a moral burguesa, especialmente na forma de uma ditadura violenta e hipócrita, deseja que a banalidade moralista seja a matéria da vida.
A ditadura, na memória, é uma grande varredura para debaixo do tapete de tudo que não agrada à visão de mundo de seu casal de tios conservadores, não à toa, na memória de muitos de seus viúvos, era um tempo em que o Brasil funcionava, a vida tinha sua paz, sua plenitude pequeno-burguesa se via nas ruas, nas crianças brincando livres, nos vagabundos e maconheiros com medo da polícia. O real está algo como suprimido por essa grande narrativa, que se torna mais real conforme, na memória, existe agora como um desejo projetado no futuro. Teremos de volta o Brasil da ditadura, um Brasil família, um Brasil digno que nunca existiu. A arte, nisso tudo, é o contrário dessa memória falsa, envernizada: muito embora possam acreditar que a arte é justamente a mentira, a ilusão, a arte é, isso sim, quem opera, quem capta, como uma antena, essas relações, esses nós, esses sulcos, esses caminhos, esses labirintos, que ligam o real – o mundo como ele é -, a realidade – o que é a minha verdade, que eu identifico no real -, e o sentimento – a experiência subjetiva, que no fim das contas é mais real do que o real.
Carlão está muito interessado nessa textura da realidade que revela muito mais do que o simples real: nas casas que ele filma, as meninas, os pilantras, as donas de casa, as toalhas de mesa, as esponjas de banho, os chuveiros, ou seja, a nossa vida, com sua textura sensível, proustiana, que evoca todo o esplendor da vida e nos envolve numa existência que é muito mais que pedra-chão, mas é nada mais que a experiência pedra-chão. É só por meio dessa familiaridade extrema que ele revela o que você também já sabia, mas separa da sua visão de mundo. Talvez a senhora respeitabilíssima esposa do general X ou tio militarista Y, talvez a irmã do taxista, tenha auxiliado, no mais puro segredo, o aborto de alguma pobre menina pura e bela que, queira Deus que jamais se descubra, foi “maculada pela vida”. Esse “maculada pela vida” também sempre existiu, nessa forma “aqui e alhures” que tal família tradicional usa para sustentar sua visão de mundo: “Sim, eu sei que existe o mal, o sexo depravado, livre, a pederastia, a viadagem, o aborto, o crime, a violência, a extorsão, a exploração… é algo que está lá fora”. O grande escândalo, para essas pessoas, é vê-lo por dentro, vê-lo como indistinto da sua própria vida. Nos filmes de Carlão, aqui e alhures, formam a mesma complexa rede, a qual é a minha vida, a sua, a da sua mãe, a da minha tia.
É talvez estranho à certa sensibilidade imaginar que Carlos Reichenbach possa ser um dos cineastas, senão o cineasta mais subversivo do Brasil. Há, talvez, em nossas expectativas como brasileiros, tantas obras que nos mimaram, como a de Glauber Rocha ou Chico Buarque, a preencher nossos corações com refrões que, de certa forma, são fáceis, podem posar como slogans. No caso de Chico, é realmente impressionante que um dos artistas de rádio e televisão mais populares de todos os tempos tenha contaminado o imaginário popular com gritos de guerra, e no caso de Glauber, talvez o teor panfletário dos filmes perdure em nosso imaginário de forma mais simples do que realmente são no meio da explosão de estruturalismo materialista envernizado com espiritualidade barroca que são seus filmes, mas ainda hoje, nós que crescemos gritando “Apesar de você” talvez não queiramos nos seduzir com menos do que um grupo de sertanejos metendo chumbo nos córneos de gringos nazistas. Talvez, em certo sentido, fazer um filme para o qual a juventude uspiana, viúva de Glauber e amante de Chico, possa torcer o nariz, vá ser algo subversivo também. E eis que, na geleia geral brasileira, o filho da puta mais reacionário é quem vai bater no peito para dizer que seu filho estudou na USP, como se o menino tivesse ganho um prêmio Nobel. Carlão conseguiu talvez aquela velha façanha de Rossellini: os marxistas viravam a cara para seus filmes por serem burgueses, os burgueses viravam a cara por serem demasiado neorrealistas ou até, se formos apelar para a psicanálise, por expor desconfortavelmente seu próprio patético . Carlão não estava interessado em produzir um discurso frontal que organize facilmente todo o seu universo político, pelo contrário, seus filmes costumam ser complexos labirintos de tensões, conflitos e diálogos entre forças às vezes tão opostas que chegavam a ser indigestas para o marxista clássico tentar organizar em uma refeição balanceada. Alma Corsária é um belo e esquisito exemplo disso, em termos de “discurso do filme”. Alma corsária não produz uma direção fácil de pensamento em que se possa processar tudo que está sendo mostrado, pelo contrário, é Carlão dizendo “essa é a minha vida, ela não cabe num discurso. Essa é minha História”. Cinza é toda a teoria, dizia o poeta, mas verde é a cor da árvore da vida
Esse é o diferencial de Carlão, um homem tão vivido e com tão vasto repertório: seu coração organiza as narrativas de forma incompreensível para certo anseio por filmes cerebrais. Como no ideal dos gregos, em que a arte nada mais é do que a imitação da vida, Carlão ser cinéfilo não faz dele um reorganizador de estruturas prontas, pelo contrário, faz dele um apaixonado tanto pela “forma” quanto pela “essência”, de modo que seja incapaz de separá-las. Quando ele nos introjeta a vida real, com seus labirintos, num filme assim tão memorável, tão intenso, com suas músicas ultra românticas, seus virtuosismos de câmera, luz, seus corpos expressivos, performáticos, ele está sendo o real malandro do cinema político: ele está colonizando nossas mentes, nossos corações, tornando indissociável nossa experiência material como brasileiros e a experiência de vida de Carlão, revolucionário, intelectual, xamã dos botequins. Amor, palavra prostituta, mistura textura de sonho, teor de memória, e todo um realismo bastante marcante do nosso imaginário. Com isso, ele invade o pensamento pequeno-burguês em plena ditadura, com algo que poderia ser qualquer coisa, mas possui permanência, profundidade, para abalar seu mundo de alguma forma. É, sim, um filme escandaloso, sabendo inclusive que o escândalo é ao mesmo tempo o fetiche e o pudor da Linha Dura.
Trata-se do filme mais proibido de Carlão, fruto de um conflito basicamente erótico com os censores. Reza a lenda que Carlão teria, por exemplo, filmado uma cena ridiculamente longa de sexo, com nudez do homem de costas, sabendo que só assim talvez parte dela sobrevivesse ao picote da censura. De fato, os censores permitiram contanto que a cena fosse mais curta. Eis um exemplo de uma compreensão espiritual que naquela época era presente até na cabeça dos generais, e hoje parece perdida: o tempo é a verdadeira fonte da magia. Os mentecaptos do departamento de censura tentaram identificar onde aquela cena deixava de ser uma sinfonia novelesca da paixão e começava a ser só uma bunda metendo ali incansavelmente, se recusando a parar. Através da duração, o sexo poderia invadir o imaginário e nos lembrar que é sexo, não é só corpos ardentes na comunhão do amor, é metelança de adultos perdidos nesse mundo sem sentido. Trazer o sexo de volta para a vida real, com uma esperteza que possa fazer os desavisados ainda acharem que estão vendo o mesmo fluxo de platitudes cinematográficas, e fazer o mesmo com os dramas humanos, com a participação política, com as ideias revolucionárias, com o conceito de rebeldia ou subversão, sempre foi a magia de Carlão, talvez presente de forma mais deliciosamente confusa em Império do Desejo, em que talvez o tio Figueiredo não vá saber dizer exatamente se aquelas feministas são umas megeras ou se ele mesmo queria estar sendo dominado por elas. Estaria Carlão escandalizando ou seduzindo?
Sim, é esse o verdadeiro caminho, num lugar e num tempo em que o único “escândalo” possível dessa classe média é um “Oh” de susto mal atuado de uma senhora hipócrita que é mais safada que eu e você. Escândalo? Retornemos às palavras de Ângela Ro Ro e Caetano Veloso: o grande escândalo sou eu aqui só. Sim, Carlão filma um mundo cínico, em que a banalidade do horror, da trapaça, da indiferença, dançam num balé de almas amaldiçoadas, a visão do inferno, e o verdadeiro milagre é a união, o afeto, a intimidade. Das cenas mais assombrosamente belas já feitas é a em que o corpo maltratado da mulher é cuidado delicadamente no chuveiro, com uma bucha macia. Essa união que deixa para fora o mundo cruel e indiferente, o cinismo dos cretinos, o palavrório dos idiotas, essa solenidade de um homem que ainda consegue levar o amor a sério, quando a hora é séria, é grave, é solene.
Amor, palavra prostituta é, isso sim, fruto de um grande escândalo de seu autor. O que para ele é motivo de escândalo é justamente a banalidade com que vivemos uma mentira violenta, genocida. Sim, vocês estão, em nome de um bebê ideal, abstrato, de pura ideia de espírito, em nome da ideia de um bebê, vocês estão matando mulheres adultas. Pois as mulheres adultas já não são inocentes, as que deram a buceta, as que saem com homens, as que veem o amor, a realidade como normais, os marginais, os bandidos, não são inocentes, não, para vocês, nada é tão puro quanto a pureza perdida no passado. E, em nome de resgatar o passado, vocês estão dispostos a destruir o futuro. Em nome de uma ilusão, vocês estão dispostos a apagar a realidade, esconder o mundo real, proibir todo o esplendor da vida em nome de um paraíso embolorado que vocês fantasiaram para fugir da realidade. O grande escândalo é o mundinho pleno e belo que vocês querem preservar quando fingem se escandalizar com esse filme, fugindo do que nele ecoa aquilo que para vocês macula a realidade, mas é de fato tudo que a realidade será. É belo em Carlão que o barroco atinja seu pleno potencial, o sagrado e o popular se unem numa coisa só, em que não há mais inferno que as mazelas dos homens, não há mais paraíso que um momento de comunhão, de crença, de presença, de união. Contra o cinismo que quer produzir cidades de papel, países em cercadinhos, Carlão sugere uma crença incansável na aventura humana, acreditar e amar a todo e qualquer ser humano, seguir adiante dos escombros e construir o país possível, não como aplicação de uma planta-baixa desenhada por um teórico social, Carlão não é um teórico social. Talvez, frente a tanta desilusão, amargura e fracasso presentes em seus filmes abertamente políticos da maturidade, como Alma Corsária ou Dois Córregos, talvez perguntemos: “Ué, se caiu tudo por terra, se o sonho revolucionário se perdeu no horizonte, se os homens revolucionários são tristes e patéticos, envelheceram, morreram, se tem tanta palhaçada, tanta farsa, tanta estupidez, tanto destino macabro, presente em toda a trajetória militante desse homem, o que será então que o professor Carlão tem a sugerir que nós façamos, que o futuro seja?”. A resposta, Carlão sabiamente não tem. Ele contou sua história e passou o bastão, a nós cabe seguir adiante e construir a nossa própria estrada. Conhecer, querer saber, aceitar o real, encarar a vida, amar o viver, seguir adiante, entender o sentido, estender o conhecido, são as verdadeiras lições que um velho marxista tem a nos dar. Nesse sentido, talvez ainda mais político seja justamente o melodrama de Amor, palavra prostituta: nele, os agentes estão todos dados, as forças em jogo, o poder, a economia, a política, a vida íntima, a família, e o que fica, de mais potente, é o que é eterno na vida real.
Villar da Cruz
