
Amor Possível, de Lee Chang-dong
(가능한 사랑 / Possible Love, Coreia do Sul/EUA, 2026)

A criança se perde nos movimentos do taekwondo e vai ficando parada cabisbaixa enquanto todas as outras seguem adiante em uníssono. Saboreamos por um momento o drama do menino, e logo vemos a documentarista sedenta e sua câmera indo avidamente atrás daquela imagem feito dois capangas imbecis da Cruella. Essas emoções e papéis super-encenados, e ao mesmo tempo, sempre essa caída de tom, sempre a boa afinação. Como quando o menino joga o saco, flutua por um momento, e logo volta para uma imagem mais seca em que o saco cai sem cerimônia, volta ao ritmo da normalidade. A capacidade de sempre conseguir dar um bom tom não sustenta ou justifica tais excessos.
Ao longo do filme, fui percebendo que seria possível curtir a experiência se aceitasse os excessos como um jogo proposto pelo filme. São constantes, há um esforço de amarrar o filme por meio deles, sendo os excessos a natureza da pincelada que dá liga nessas três horas. Tudo, para todo lado: duas moças que passam estão enquadradas pela janela do carro no momento preciso para reagirem ao pai gritando para a mãe entrar.
A esperteza vai para todos os lados, e é frequentemente capaz de entregar um sabor esquisito de constrangimento tão sem sentido que chega a ser instigante. O momento em que urinam juntos, carrega uma crueldade comovente. O choque do sistema de valores ali presentes, o que vale aquilo para o primeiro homem que mija fora do vaso, o que vale tudo para o segundo. O lugar que cada um deles tem e pode ter ali. O inverso de mapas estruturais como o parasita, o real: O lugar que um tem, e que o outro tem, de fato, embaralhados por sua carga de realidade. Pode-se dizer, caso queira interpretar: o casal pobre pode continuar tendo plenos poderes ali, e paga com sua alma. Quando todos são reduzidos à dimensão humana, todos têm o mesmo valor, baixo, a mesma baixeza, são igualmente pequenos em meio à falta de sentido. Mas, no fim do dia, um volta para a mansão com roupas resplandecentes e uma obra, outro volta para a casa perguntando se a venda da empresa significa que podem manter seus empregos.
É claro que a relíquia roubada pelo menino, por exemplo, tem que aparecer para marcar esse significado. Em momentos, abstraindo, sugerem-se ali um filme amargo e vazio, em que nada acontece senão a violência subjacente em tudo aquilo, e no entanto, esse filme é indissociável de todos os excessos dramatúrgicos que acabam por distrair dessa força. Não há como exatamente dissociá-los. No começo desse filme, um momento desse excesso é saboroso e profundo: a trabalhadora tira uma foto da bolsa com o google glass e vê o preço, no que poderia ser uma cena de Tapas & Beijos. Nessa gag simples, está exposta uma questão interessante do filme: essa correspondência entre o que é um valor simbólico e o que é real. Simbólico, o moralismo, a burguesa estar preocupada em ser moral na relação com seus filmados, com a forçação de barra de quem está insegura demais para parecer sincera. Simbólico ela querer ou não tomar a imagem deles, justo eles, que também querem aparecer e querem se aproximar dela. Não seria difícil para ela conseguir a imagem que quisesse.
Os ricos não possuem interesse nos pobres, só querem extrair deles boas imagens, e sabem o que caracteriza boas imagens, buscam emoções, significado. Sem emoção, sem significado, que não seus demasiados óbvios olhos de cifrões. Os pobres, esses sim, querem saber mais dos ricos, quem eles são, o quão ricos eles são, o que exatamente se passa com eles. Os pobres estão também interessados em sua alma ou seu vazio, sua superfície, seus detalhes. Nem esse interesse a cineasta rica conhece, ela passa todo seu tempo pensando no significado das coisas, olha para o pobre só pra enxergar para além do pobre. É uma bagunça simbólica que vai se assentando nisso que é o real, e o real não é tão somente rico aqui pobre ali luta de classes. O real é eles mijando na banheira. O real é móvel, liso, escorregadio, em trânsito.
A coisa dá esse baile no real, esse nó, que poderia ir para qualquer lado, na cena do jogo esquisito de corpos na praia. Toda a trilha da praia é um verdadeiro balé do melhor e pior do filme. Foi aí, no entanto, que prestei atenção numa coisa: ela tira o biquíni e fica nua, ficando visíveis no quadro seus seios e bunda, tudo de forma respeitável e digna. Nessa hora, eu penso: quer ver que o cara não vai aparecer pelado… Pois é este tipo de filme, e digo mais: o cara meio que aparece pelado, entre relances, cortes, recortes e distâncias. É este tipo de filme. É todo filmado como tal, e por mais que eu teça tanto aqui suas qualidades e desdobre suas leituras, e perdoe ou aceite por um maneirismo desse novelão sul-coreano, o filme em si, de onde parte sua produção, e tudo de sua pobreza, presente em todas as cenas por melhores que sejam, parece partir desse lugar, que seu lugar está mais lá do lado da ideologia que do lado do cinema.
A história ora se perde bastante numa água com açúcar, que é uma boa aposta do filme para fechar sua visão, mas o que de mais marcou, jogado ali no meio, foi a violência irracional dessa melancolia, desse lamento-revolta, dessa cobiça, desse desespero, dessa tristeza. É possível ficar claro ali, nesse mar de discussões e elucubrações sobre o que significa ou não a ética, ou não, dos ricos ou artistas, ou não, por baixo de tudo isso, os pobres estão encarando alguma coisa muito tenebrosa: existe um abismo essencial entre a vida deles e um outro mundo, ao qual eles nunca terão acesso, onde nunca pertencerão, que nunca deixará de repeli-los, isso na rara ocasião que eles consigam sequer chegar perto.
Toda essa irresponsabilidade afobada com que a diretora capta as imagens é uma violência, até contra as intenções da própria. Seria muito fácil para ela organizar uma filmagem com tempo e espaço, e conseguir o que quiser de sua personagem tão empolgada para participar. Ela é amaldiçoada, senão pelo fato de que sua violência é real e nada disfarçada, ela é a responsável pelo abismo entre eles, ela vive um drama interno além do que ela verbaliza, se jura que seu problema é querer convencer a entrevistada a confiar nela. Não é que ela tenha medo de não conseguir se aproximar o suficiente da entrevistada: é que ela mesma precisa orquestrar delicadamente o quanto consegue extrair da entrevistada sem deixá-la se aproximar muito. Porque ela não quer um casal pobre e “fascinante” em sua vida.
Tenebroso que é o miolo do filme, dessa realidade entalada na garganta dos pobres, o filme nos lembra que o que existe, no fim das contas, é o que respira no fim do dia. A dimensão dupla segue pulsando, como pulsou até agora um certo espetáculo da amargura do ridículo. O tom do que “respira na luz do dia” não consegue evitar, no entanto, sempre ir para um lado facilmente vendável para uma sensibilidade que buscasse um pouco por demais esse tom amanteigado. Esse tom que usam para vender manteiga para as pessoas, como a moça do filme. No fim das contas, é uma manteiga Netflix.
Villar da Cruz
