Anjos do Arrabalde, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 1987)

Mulheres sob influência

Após o estupro de Aninha, que abre o filme, vemos a professora Carmo de visita à escola que lecionava. Carmo, entre as suas amigas professoras, é a mais amada pelas crianças. Ela é, dentre as amigas, alguém com privilégio o suficiente para não precisar mais trabalhar graças ao dinheiro do seu marido, o delegado/advogado Henrique. Carmo também tem uma filha, que leva junto na visita à escola. O carinho que as crianças e a diretora Holanda entregam a Carmo está intimamente ligado à leveza com que Carmo carrega sua vida. Quando conversa com Rosa, mulher fechada pelas porradas do mundo e das relações, a distância entre suas perspectivas se revela nas primeiras palavras de Rosa: “essa molecada não aprende nada, a gente se esforça à toa”, ao que Carmo responde: “mas com jeito…”. E a diretora, farta da “dificuldade” (uma dificuldade burocrática em primeiro lugar, é preciso dizer) em lidar com Rosa e seus traumas, lamenta com Carmo: “se ela pelo menos fosse como você”.

E o que é então ser mais como Carmo? O que é esse “com jeito”? É a capacidade de se submeter ao outro com tranquilidade e ainda com um sorriso no rosto? A facilidade com que se adaptou, até agora ao menos, às vontades alheias. Afinal, no jogo narrativo de Carlão, o que fica claro ao final do filme são duas coisas: da mulher se espera que seja objeto do desejo alheio, e também que tudo isso (o filme, a periferia, o gênero e a violência) é um grande processo educativo, ao contrário do que acredita Rosa na sua negação da eficácia do ensino. Quando a filha passeia com Carmo pela escola, parece que ela aprende bem rápido a lógica do mundo e do que é ser mulher nesse mundo, e diz, quando perguntada longe da mãe pela dentista – ainda há dentistas na escola pública? Só de lembrar, me sobe o gosto deprimido e azul de flúor – se quer ser professora: “Não”. Sem titubear.

Nessas duas sequências iniciais, o que se dá é um processo de choque. E uma elipse. Das crianças felizes ao ver Carmo e os adultos que estupram Aninha, que matam e espancam suas mulheres, o que aconteceu com o ser humano? Para ser bem direto, essas crianças aprenderam. As meninas e os meninos. A figura de Aninha, que passa a maior parte do filme, desde a primeira imagem, coberta de hematomas, é a maior imagem desse processo de aprendizagem. A imagem do que fazemos com a mulher.

E se toda essa violência e abuso são um processo de aprendizagem, Carlão coloca essas professoras na linha de frente da batalha pelo futuro dessas crianças e do mundo até. No cartaz, com as três professoras montadas como heroínas sobre o que é, imageticamente, uma sociedade em escombros. Os anjos (mulheres) do arrabalde pairam sobre a periferia e intervêm como podem em prol de uma energia criadora. O homem, por sua vez, esse demônio, faz também o que pode e atropela quem for para conseguir o que quer. Se há um espaço para questionar Dália na amamentação simbólica quando o irmão suga seus peitos, num gesto cristão – não só porque o martírio é uma arma do poder masculino, mas também porque simplesmente nutre o seu abusador/explorador -, o que dizer desses maridos que, após se alimentarem do TRABALHO alheio, de mães, professoras e amantes, seguem, bem alimentados, para destruir justamente o que essas mães/professoras/amantes deram o sangue para construir: a vida do próximo. O marido de Carmo, por exemplo, no seu trabalho de menino-da-lei brincando com seu pau, tem como função a manutenção de um estado de violência e abuso. Ele é basicamente encarregado de exterminar ou se aproveitar daqueles que ficaram para trás, que não foram incluídos no processo de pacificação que tentam incansavelmente as mulheres. Henrique acaba por efetivamente destruir o trabalho de Carmo. Nesse sentido, sua neurose em não permitir o retorno da esposa à tarefa de professora faz sentido como agente de seu gênero e afirma seu lugar como Homem em amplo sentido. Também como homem, sua última cena é um slow motion de toda sua raiva impotente, indignada, contra a liberdade de sua mulher. Completamente ridículo.

Essa radicalidade dos gêneros e do que se espera de ambos não é maniqueísta, mas sempre é tratada como radical. Afinal, mesmo anjos simbólicos do arrabalde, essas mulheres precisam sobreviver. E o filme se permite, dentro do registro do melodrama, o que é mais impressionante simplesmente por força dessas imagens, uma complexidade para esses organismos. Elas são também sobreviventes. Se existe a imagem da graça concedida por Dália ao irmão que apenas se aproveita dela, na cena em que, mesmo em prantos, permite o abuso de Afonso, é preciso entender que esse gesto diz também sobre uma personagem, para além de mulher. Rosa, Carmo, Dália e Aninha são mulheres simbólicas na medida que sofrem essa imposição dos homens, mas que aprendem desse processo coisas completamente distintas. E cada uma, a seu modo, termina o filme numa posição de poder. Mesmo Rosa, que admite o suicídio como grito, o mesmo cai nos ouvidos baleados de um desses broncos menos abusivos, o Gaúcho. Além do poder que entrega ao seu gesto, filmando Rosa em amarelo e vermelho (dos pulsos cortados) num tango sobre a periferia. A mulher não existe, mas ela é real, e muito mais que os homens que acham que existem.

Ainda sobre gênero: o melodrama. Se gênero é pensado como esse espaço de códigos por onde se pode achar nuance criativa, dialética e libertadora, portanto, um desses códigos melodramáticos é o toque dos homens. O beijo dos homens. Esse é um filme que pede maior atenção nessas pequenas imposições sobre o corpo do outro. Ou então, como se movimentam com agressividade, ríspidos, secos, mecânicos. Quando esses abusadores agem sobre seus desejos e sobre os corpos das mulheres, eles sempre vem com esse gosto da violência. As mãos esfregam as coxas sem qualquer nuance, só código. Isso não vem de uma falta de capacidade, mas sim de interesse, de objetivo. Soares, o homem casado, quando está enganando e seduzindo Rosa, a toca na leveza do erótico. Está atento ao seu corpo e ao seu prazer. E como de praxe, Carlão sobe à altura do momento, enquadra por partes, faz o ritmo transar com a música e o movimento. E não é à toa que esse golpe de sedução se repete no sonho de Rosa, logo antes de cortar os pulsos. O mesmo pode ser dito sobre como a jornalista flerta com Dália ao final. Carlão tinha dom para o plano detalhe, para além da sua sagacidade narrativa e potência do quadro aberto.

Falando dos homens rapidamente, o contraponto de Aninha acaba sendo o irmão de Dália, Afonso. Mais que qualquer definição: dependente da irmã, da mulher. Ele é quase o espírito encarnado da masculinidade. E de um tipo de masculinidade, a dos pobres e miseráveis especificamente, dos excluídos pelo Capital. Sua sina é responder sempre do modo mais imediato aos seus impulsos, ser refém por completo de seu desejo, de sua agressividade. Alguém desprovido de toda a esperteza, potência e atenção das mulheres que tentam salvar o mundo, mas presas umbilicalmente cada uma à sua espécie de homem-bebê. E esse homem não vem sem sofrimento, afinal, o mundo dos homens é, por definição, um mundo de sofrimento. Ele está também sujeito ao desejo de outros homens, vulnerável a tal ponto de ser estuprado. O que os separa é que sua fraqueza é sua estupidez, e a de Aninha é sua existência.

E de toda essa saga escolar, Aninha é quem passa pelo maior aprendizado. No começo, surrada, mais frágil que os anjos que a resgatam, ela, ao final, elimina os piores homens da narrativa. E como a narrativa do mundo é a dos homens, sua saga é resumida em “gatinha apaga sedutor”. Ela como desejo, ele como inveja/aspiração. O melodrama para a periferia é só a realidade.

Verona