Nota do editor: o ensaio abaixo foi publicado na época do lançamento do filme Tropa de Elite, de José Padilha, tendo sido publicado no jornal O Globo no dia 30 de setembro de 2007, numa versão editada para caber no espaço impresso, e republicado logo após no blog Olhos Livres em sua versão completa, pelo próprio Carlão. É um ensaio rico que ajuda a compreender, a partir do fenômeno que foi a reação ao Tropa de Elite, como Reichenbach organiza seus pensamentos e relaciona-se com filmes, para além do óbvio bom ou mau, direita ou esquerda, progressista ou conservador. É um documento precioso sobre o seu legado.
APONTAMENTOS PARA UMA POLÊMICA ANUNCIADA
DE EISENSTEIN A RIEFENSTAHL — Fazer cinema é também fazer escolhas. Ao optar por um discurso, seja ele de direita ou de esquerda, sem distanciamento ou autocrítica, o cineasta esbarra, queira ele ou não, no proselitismo. E o proselitismo tende a ser a morte da arte. O que não impede que, mesmo comprometida, a obra venha a ter certa importância histórica.
Sergei Eisenstein, por exemplo, não deixou de revolucionar a linguagem cinematográfica por ter feito filmes de encomenda. A alemã Leni Riefenstahl pode ter sido uma persona abjeta, mas sabia filmar magnificamente bem. Se bem que o seu ápice foi ter se voltado, no fim da vida, a outro universo abissal: o fundo do mar.
DE SÓCRATES A BENJAMIM – Os filósofos, de Sócrates a Walter Benjamim, dizem que o pensamento humano não pode ser monolítico. Ele é construído de rupturas. Benjamin acredita que a ruptura é inevitável, mas que existe uma continuidade subterrânea na ruptura. Venho de uma geração que trocou as certezas absolutas pelas dúvidas transgressivas (“eu não sei o que eu quero, mas sei o que não quero”) e espera que a criação artística espelhe perplexidades, encantamentos e/ou sensações submersas. Do contrário, é expressão inócua.
A ESCOLHA DE PADILHA — Ao escolher o ponto de vista do policial assumiu um risco bastante capcioso que, somado aos compromissos comerciais do filme, resultou numa combinação perigosa. Isso, aparentemente, levou o filme para a direita, independentemente das suas intenções. Uma postura mais libertária teria, por exemplo, levado o aspirante Matias a atirar no Capitão Nascimento quando este fica esbravejando em seu ouvido, enchendo o saco e induzindo-o à barbárie.
Seria uma solução genial, anárquica, à altura de um Samuel Fuller. Mas um caminho como esse ia detonar o filme comercialmente, assim como, por exemplo, se o menino sob tortura não dissesse nada, levasse o cabo da vassoura, e, mesmo assim, calasse, deixando protagonistas e público perplexos. Mas essa minha observação é uma postura muito confortável para quem avalia uma obra acabada à distância.
Outros filmes brasileiros experimentaram observar e entender o viés do repressor. O ótimo Eu Matei Lúcio Flávio, de Antonio Calmon, também foi chamado erroneamente de fascista. Um filme de direita não é necessariamente reacionário ou fascista. O excepcional curta-metragem O Inspetor, de Arthur Omar, talvez seja o filme que melhor tenha retratado o imaginário transversal e o dilema ético do policial.
O BANDIDO-HERÓI: OUTRO LADO DA MOEDA — Em que pesem as críticas pertinentes, Tropa de Elite é uma obra interessante porque não tem medo de lidar com um tema cabeludo e estimular uma discussão necessária: até que ponto se justificam a coação e a tortura na repressão ao crime organizado. Em matéria de cinema brasileiro, isto é uma ruptura radical com a geração dos anos 60 que adotou a ótica do marginal como resposta ao ideário do poder vigente da época. A verdade é que os tempos do “seja bandido, seja herói” já não se justificam mais. Marginal virou uma expressão pejorativa, antítese de transgressão.
O filme ficou suscetível também a uma cobrança obsessiva e atual em cima das obras que retratam o momento histórico do país. Alguns dos que criticam Tropa de Elite são os mesmos que atacaram Batismo de sangue, de Helvécio Ratton, por enxergar com simpatia e tolerância a fragilidade os padres dominicanos que sucumbiram sob tortura. Ora, ambos os filmes me despertaram o interesse e trouxeram à baila assuntos traumáticos e urgentes.
POUND, ELIOT E OS NOSSOS FASCISMOS — A preocupação de quem assiste não deve ser com lado que, aparentemente, o filme se coloque, mas com o fato dele estar atrás ou à frente de seu tempo. É a mesma coisa que falar mal da obra de Ezra Pound pelas posturas fascistas dele em vida, ou de TS Eliot porque era monarquista.
Ambos são poetas extraordinários, cuja obra transcende as sombras de suas personalidades. A obra de arte talvez seja o único espaço livre onde podemos expor as nossas idiossincrasias, as nossas vilanias, os pequenos fascismos de cada dia. O câncer da criação artística é a autocensura. Embora a responsabilidade nunca deva ser negligenciada, criação e invenção pressupõem risco.
COPPOLA: O FASCÍNIO PELO PODER E PELO NAPALM — Claro que a apologia da tortura e da truculência não me parece o ponto de vista de Padilha, mas a subserviência à bilheteria tornou o filme ambíguo, abrindo a guarda para as pedras. Não consigo enxergá-lo como fascista nem reacionário, porque não me senti manipulado por ele.
Fascistas são filmes como Violência Gratuita, do austríaco Michael Hanneke, e Clube da Luta, porque transformam o espectador em cúmplice e fazem o elogio declarado da violência. De direita (e não fascistas) são algumas obras essenciais do cinema contemporâneo, como Apocalypse Now, de Coppola, Taxi Driver, de Scorsese e Hardcore, de Paul Schrader. Em Apocalypse Now, o personagem mais fascinante é o Coronel Kurtz, um homem enlouquecido, que mandou os parâmetros éticos às favas. E como são retratadas as figuras dos nativos naquele domínio? É tão nítido aquilo… E, ao mesmo tempo, há um fascínio muito grande pelo caos, pelo napalm, pelas cores espetaculares da guerra suja. Para mim é um filme de direita, mas não reacionário nem fascista. É de direita como o melhor da criação artística norte americana.
CINEMA E MACARTISMO: UMA QUESTÃO DE ESCOLHA — Mais incômodo ainda é quando se trata de elogiar os cineastas talentosos que continuaram trabalhando no período do Macartismo. Elia Kazan, por exemplo.
A complacência com a violência, a justificação da tortura e a relativização da delação são os três temas mais delicados do cinema moderno. Em algum momento a delação se justifica? Para mim, nunca. Como sair impune ao final do magnífico filme de Brian de Palma, Pecados da Guerra, talvez o melhor filme já feito sobre o assunto.
O que não nos impede de observar que o abismo macartista tenha estimulado a descoberta de obras interessantíssimas de algumas de suas vítimas. O exílio de Joseph Losey, por exemplo, fez aflorar uma obra única e deslumbrante.
Cy Endfield, ao contrário dos que evocaram o direito de se calar sob a guarda da primeira emenda da constituição americana, afirmou em alto e bom tom que era comunista mesmo e que o senador era um demagogo corrupto e nefasto. Foi banido do país e construiu uma obra ímpar filmando na África, com o dinheiro dos ingleses, e expondo com clareza sua postura anti-imperialista.
OS BRANCOS PREDADORES E OS BABUÍNOS JUSTICEIROS — Cy Endfield foi um dos melhores e menos conhecidos diretores de cinema banidos pelo macartismo. Zúlú é um libelo contra a dominação e Perdidos no Kalahari, termina com o protagonista, um predador branco, trucidado por macacos babuínos. É genial. Um filme árido, de idéias políticas claras, sem discursos fáceis e jamais proselitista. Grande cinema
O WESTERN E O ELOGIO DO ÍNDIO — Don Siegel é um diretor extraordinário. Mas foi ele quem criou aquele personagem de extrema direita, o inspetor Callahan, de Dirty Harry, vivido por Clint Eastwood, que pegava os bandidos e dizia “você é a doença e eu sou a cura. Há uma diferença”. Durante quanto tempo o cinema americano fez tripudiou em cima dos índios, fazendo a elegia do General Custer, que era um homem extremamente cruel e truculento, até que Delmer Daves, pela primeira vez, enxergasse a possibilidade do entendimento entre brancos e índios.
O CINEMA E A EXPLORAÇÃO COMERCIAL DA INFÂNCIA — Sinto-me atraído por visões diferentes do mundo e mesmo por posturas políticas diferentes das minhas. Porque sou fascinado pelos pensadores libertários não espero ver unicamente filmes que compartilhem do mesmo interesse. No entanto, há coisas que me incomodam no cinema atual. O cinismo imobilista, por exemplo. Mas o que mais me choca, e isso é um problema pessoal, é a glamourização da violência infantil. Vi muito pouca gente se rebelar com o uso indiscriminado da imagem de uma criança com arma na mão.
Essa imagem, queira-se ou não, em algum momento vai estar disponível na televisão, no computador, fetichizando a violência. Isso unido à preocupação comercial torna-se uma bomba de disseminação do ódio, dissociada de qualquer propósito crítico.
ROSSELINI E O PECADO DE SER CATÓLICO — Eu gosto muito de Rosselini e tenho um amigo cineasta que diz ‘ele é muito bom, mas o problema é que é católico’. Eu digo sempre ao meu amigo: pô, mas ele é bom porque é católico! Paul Schrader é um autor único porque é calvinista. Meus dois poetas de cabeceira, Murilo Mendes e Jorge de Lima são católicos; eu não sou.
No fundo, no fundo, o espectador com um pouco mais de informação está sempre exigindo o facilitário da conivência ou, no máximo, de posturas nítidas com as quais discorda.
EM DEFESA DA AVENTURA DA CRIAÇÃO
Eu insisto, a riqueza da obra de arte reside nas suas contradições, nos altos e baixos, no mergulho no escuro. O resto é bijuteria.
CARLOS REICHENBACH
