As Libertinas, de Carlos Reichenbach, Antonio Lima e João Callegaro
(Brasil, 1968)

Carlão não fazia questão de esconder: não gostava de seus primeiros projetos, de sua infância no cinema. Considerava completamente descartável Alice, seu segmento em As Libertinas, antologia composta também por filmes de Antonio Lima e João Callegaro. Embora seja um filme menor, há muito que interessa nas Libertinas. Os três episódios foram filmados na mesma colônia de férias em Itanhaém, e a locação compartilhada abre caminho para que cada cineasta brinque com os mesmos elementos à sua própria maneira, mas mantendo uma estética mais ou menos homogênea. Em contraste com a maioria dos filmes de antologia, as diferenças entre cada segmento são menos gritantes em As Libertinas – o que faz com que a experiência seja menos irregular. A limitação espacial, em casamento com alguma falta de apuro e de experiência dos realizadores, casual e ironicamente, trabalha em favor das Libertinas. O título de cada episódio é um nome de mulher: Alice, Ana e Angélica – assonância que reforça a aliança dos três segmentos.
Sexo-filme antes da era das pornochanchadas, a pequena esquete metalinguística que precede As Libertinas merece uma menção: o filme começa com um homem saindo de um bueiro e dando em cima de uma mulher que chupa um sorvete na calçada. Ao ser recusado, ele repara no cartaz que anuncia As Libertinas, no cinema local. Ele convida a moça para a sessão: “Vamos assistir às Libertinas? Vamos, As Libertinas, é bom”. Apesar da primeira recusa, ela aceita de súbito e os dois entram no cinema. A canastrice autoconsciente aqui é divertida, e há muito humor tanto em Alice quanto em Ana, mas também há muito do que mais tarde interessaria Carlão em termos dramatúrgicos – em especial, o filme lembra mais todos os outros da primeira fase da filmografia de Carlão (que vai até Extremos do Prazer) do que o Corrida em Busca do Amor, lançado posteriormente. Há menos espaço para a experimentação anárquica, mas já existe um interesse por um tabuleiro de relações articuladas e rearticuladas pelo prazer, pelo gênero e pela classe.
Angélica, o episódio dirigido por Antônio Lima, peca por sua caretice na retratação de uma mulher paranoica que passa a delirar com as possíveis traições do marido, mas é salvo por algumas imagens mais surreais e pelo interesse mais imediato em filmar aqueles corpos angustiados em meio ao paraíso cínico que é o cenário praiano. Ana, o segmento de Callegaro, é um divertido conto sobre um casal que vai aos poucos cooptando uma jovem para perto deles. O marido, um médico da metrópole, se aproxima um pouco demais – e é nesse limiar do que é ou não socialmente aceitável que o jogo erótico pequeno-burguês fica mais interessante para todos. Nesse sentido, o filme de Callegaro prenuncia mais diretamente as pornochanchadas das décadas seguintes, em maior consonância com a esquete que abre As Libertinas. Acontece que Ana tem outros planos: pretende chantagear o casal com a ajuda de seu marido, que tira fotos comprometedoras de Ana com o médico, que transam ao ar livre, em meio aos rochedos de Itanhaém. Há algumas imagens interessantes, como a lente da câmera se transformando em um símbolo fálico durante o flagra, mas o filme é mais dependente das reviravoltas na trama, no desenlace bem-humorado.
Chegamos finalmente em Alice, episódio de Carlão e foco principal deste texto. Aqui, o desenvolvimento narrativo é deixado em segundo plano – desde o início, o prazer da cena impera. A prova maior disso é o desfecho, no qual nada exatamente se resolve, apesar das muitas portas abertas, dos diversos personagens apresentados e das muitas situações nas quais eles se inserem, que vão de casos banais e discussões conjugais até assassinato e a necessidade urgente de fuga. Se os dois outros segmentos são pensados como filmes reduzidos já de partida, com menos personagens e tramas redondas, Alice poderia muito bem ser estendido até a longa-metragem, tamanha é sua ambição em unir tantos elementos em apenas quarenta minutos. Ainda que não haja total coesão entre todos esses elementos (como Carlão faria logo mais em seu segundo longa-metragem, Lilian M. – Relatório Confidencial), vemos em Alice todo um universo que não cabe no próprio filme, que insiste em se exibir com uma beleza crua, que muitas vezes consegue superar a falta de um acabamento mais detalhado e de uma dramaturgia mais rica.
O episódio começa com Felipe, que aguarda sua amante na colônia de férias. Ouvimos a conversa de outro homem que está na mesma situação – o hotel, então, é um lugar de fuga potencial da vida cotidiana, representa a possibilidade da entrega aos deleites imorais em meio ao ócio erótico da paisagem praiana. Alice, a amante, chega na colônia toda livre, em um carro que passeia pela areia. Nem tudo é liberdade, porém – logo fica claro para Alice que ela não pode desfrutar livremente de Felipe, que parece mais interessado em canalizar sua energia mantendo as aparências, se escondendo dos olhares alheios e ficando neurótico com a futura chegada de sua esposa na colônia. A desilusão de Alice, embora articulada de maneira simples aqui, encontra ecos no decorrer da filmografia do realizador. Se a interação de Alice e Felipe seria o suficiente para a construção do segmento ao modo dos outros dois episódios que o seguem, Carlão não para por aí. A chegada da esposa de Felipe na colônia começa prosaica e previsível, os dois parecem um casal relativamente estável e não necessariamente frio: vemos alguns momentos de trocas genuínas de carícias entre os dois. Acontece que Augusta, a esposa de Felipe, também encontra um amante durante sua estadia na colônia.
Se há um tanto de rascunho na execução de Alice, seja na simplicidade dos personagens, nas dinâmicas mais clássicas da câmera, há também momentos de uma liberdade instintiva que Carlão jamais abriria mão. O mais bonito deles está justamente no limiar entre o banal e o grandioso: Augusta vai para a cidade e encontra seu amante. Os dois sobem juntos uma montanha em direção a uma igreja, da qual é possível observar toda a cidade, e onde é possível observar um interesse do realizador por momentos rossellinianos. Depois, o casal vai para a praia e compartilha um beijo intenso – tudo isso é acompanhado por uma bela trilha orquestral, repetitiva e poderosa: é um momento tão forte que de fato chega a lembrar alguns dos momentos musicais nos filmes mais maduros de Carlão. Não sabemos nada do casal, o encontro dos dois é quase cômico quando lembramos da paranoia de Felipe em ser descoberto traindo a esposa, mas Carlão acredita com toda a sinceridade na beleza desses momentos banais, na força imediata da imagem do casal subindo o caminho íngreme até a igreja – nada mais importa senão o tempo presente, ampliado ao infinito com a música. Suspira-se quando Carlão usa a trilha sonora dessa maneira, é um momento de atenção total, o melhor de Alice. Não quero dizer aqui que a cena é dotada da mesma profundidade nem que nos leva ao êxtase como a cena na qual toca Claire de Lune em Alma Corsária, mas sim que se trata de um procedimento maduro que revela algo de essencial sobre o olhar de Carlão perante o mundo, algo possível de se comprovar quando vemos seus próximos filmes, mais sublimes. Uma cena banal torna-se casualmente quase arrebatadora, passamos alguns minutos crendo plenamente na beleza de um encontro tão prosaico.
O filme não para por aí, pois ainda é recheado de subtramas tão intensas que, devido à média-metragem do filme, chegam a parecer confusas. Em Alice, há espaço para um fotógrafo sacana em busca de modelos eróticas e infiéis na Colônia de Férias e até para um ataque de ciúmes que termina em um assassinato nos rochedos da praia, cuja cumplicidade do amante de Augusta cria a necessidade de uma fuga a cavalo, uma homenagem ao western em plena praia, tudo isso com uma dose de ironia e a consciência de que há muito de infantil no tecido da vida adulta pequeno-burguesa. E é por isso que vejo valor e me divirto com As Libertinas.
Lucas Bueno
