As Safadas (1982), de Carlos Reichenbach, Inácio Araújo e Antonio Meliande

Rainha do Fliper, Uma Aula de Sanfona e Belinha a Virgem: esses são os três curtas que compõem a antologia As Safadas. Respectivamente, são dirigidos por Carlos Reichenbach, Inácio Araújo (que assina aqui seu único trabalho como realizador) e Antonio Meliande. Reichenbach realizou o filme enquanto estava ocioso, pois seu Amor, palavra prostituta estava preso na censura, mas também uma oportunidade de ajudar seu amigo Inácio a estrear na direção.
A empreitada da antologia admite, praticamente a priori, alguma irregularidade, alguma dissonância. O formato heterogêneo faz com que seja impossível para o espectador não colocar os filmes em oposição e estabelecer alguma ordem de preferência – afinal, são três trabalhos diferentes, realizados por diretores diferentes e sem muita preocupação com o estabelecimento de qualquer conexão para além da presença das ‘safadas’, das lindas cores lavadas e do aspecto de crônica urbana. Começamos pelos dois últimos curtas, para depois falar de Reichenbach.
Uma Aula de Sanfona já começa promissor, com um impressionante plano geral que ecoa Janela Indiscreta. Depois, engata em um jogo sombrio que permite que Inácio Araújo se divirta encontrando diferentes maneiras de filmar as quatro personagens (duas colegas de apartamento, o namorado boçal de uma delas e um vizinho coitado e aparentemente inofensivo) enquanto as relações de poder entre eles mudam. Enquanto é possível imaginar as premissas dos outros dois curtas sendo estendidas até a longa-metragem, Uma Aula de Sanfona é, de partida, pensado como curta: aposta nas coreografias e reenquadramentos possíveis em uma produção de porte modesto, com poucos personagens e espaço confinado. Até o final chocante e ácido, que altera a percepção de tudo até ali ao revelar que o vizinho nada tem de coitado, tem algo de tradicional e funciona exclusivamente por conta da curta duração. O filme se torna, nos últimos segundos, um conto moral sombrio sobre como o véu do patético pode esconder muito de dissimulação e cinismo.
A temperatura de alguns jogos cênicos nem sempre é quente o suficiente, os primeiros encontros do vizinho com as moças nada têm de muito interessante, mas a crueldade chabrol-hitchcockiana é sempre palpável. O curta é prova de que Inácio – já roteirista, montador e crítico – sabia também como filmar direito, e é uma pena que não tenha dirigido outros projetos.
Após o final aterrador de Uma Aula de Sanfona, Antonio Meliande encerra As Safadas com Belinha a Virgem, um filme mais leve que adere completamente a uma pornochanchada convencional e com muito menos riqueza dramatúrgica. A estrutura consiste em uns três cenários nos quais Belinha se diverte seduzindo alguns homens para obter uma grana. Nenhum dos cenários é particularmente notável, nem fazem muito sentido. Se os filmes de Carlão e Inácio são diferentes, mas propõem uma conversa com algum imaginário brasileiro real, palpável, Meliande se entrega à fantasia. Não é de todo incoerente – como nos outros curtas, aqui todos os homens também têm algo de patético ou vil, mas Meliande faz questão de compensar isso com uma boa dose de misoginia. Nada é filmado ou coreografado de maneira interessante, a própria textura do mundo de Belinha a Virgem é bem menos interessante do que a dos curtas que o precedem. O filme já nasceu sem muito a dizer ou mostrar – em resumo, forma e conteúdo andando juntos. Assim, observamos que As Safadas vai penando ao longo de sua duração.
Rainha do Fliper, que abre a antologia, é o melhor dos três segmentos. Realizado no mesmo ano de Amor, palavra prostituta, tem em comum com o longa a atmosfera escura e a dramaturgia melancólica, marcadamente mais sóbria do que a trilogia de filmes praianos que vieram logo antes. Carlão está lidando novamente com a cidade de São Paulo, por onde rondam personagens excêntricos que frequentam os diversos rolês underground, amores tórridos e passageiros desaceleram momentaneamente o ritmo da cidade, e desilusões acontecem todos os dias. Por meia hora, convivemos com quatro personagens infelizes, cada um à sua maneira.
Carlão nos situa de cara no mundo do fliperama por meio de sons eletrônicos e letreiros luminosos. O primeiro espaço ao qual temos acesso é um salão de jogos triste, com paredes de azulejo brancas, algumas máquinas dispostas lado a lado e poucos jogadores. Um pequeno homem de terno transita pelas máquinas com as mãos para trás – reconhecemos que ele não faz parte do rolê, pois se veste e se comporta de maneira distinta dos outros jogadores. Completamente deslocado, sua aparência acaba sendo mais triste que o próprio ambiente, por puro contraste. Ele pergunta a um deles sobre uma Reginéia, que supostamente frequenta o local. A resposta que ele recebe: “A Rainha? Deve estar pintando por aí”. Curiosidade. Como é a Rainha? Qual é a relação dela com esse homem franzino e de olhar derrotado, nada nobre?
Imediatamente, uma entourage entra no local, liderada por um homem de aparência agressiva e uma sorridente Zilda Mayo – evidentemente a Rainha. O homem desafia um jogador para uma partida com a mulher e todos se engalfinham ao redor de uma das máquinas. Reichenbach é um cineasta muito conciso: as roupas e o comportamento do homem com a moça remetem claramente a um cafetão. Fica claro para nós que é através das apostas no fliperama que o homem de aparência agressiva faz dinheiro, agindo como uma espécie de agente da Rainha. Nem três minutos se passaram e já temos uma boa ideia de quem são aqueles personagens, do temperamento deles e da relação que mantêm entre si, e ainda que nenhum conflito tenha sido desenhado, já podemos prevê-lo com alguma clareza. É uma aula de direção de cinema narrativo.
Alguns segundos depois, aquele homem deslocado interrompe o jogo chamando a Rainha pelo nome, Reginéia. Assim, ele a despe, retira sua nobreza. Ela demora a reconhecê-lo – é Tenório, ou Tezinho, seu antigo namoradinho. Imediatamente, ela o acolhe com um abraço nostálgico, que Tenório retribui sem jeito. Giba, o cafetão, fica irritado e demonstra seu ciúme. Está armado e resumido o conflito entre Giba e Tenório (a conquista de Reginéia) e entre Tenório e Reginéia (a incompatibilidade dos dois versus a nostalgia de um amor do passado).
A seguir, vamos à casa de Giba e Reginéia, acompanhados de Tenório e de mais uma jovem do rolê do fliperama, figura opaca e sensual, claramente sem rumo, que dorme na casa de Giba e Reginéia como uma hóspede permanente. Enquanto Reginéia interroga Tenório sobre pessoas e lugares do passado, Giba se morde de ciúmes e rejeita os avanços sexuais da jovem perdida – nesse momento, a única possibilidade de prazer para ele é possuir Reginéia, impedi-la de se reconectar com Tenório. Ele insiste agressivamente em transar com Reginéia, que eventualmente cede para se ver livre de seu agente. Enquanto os dois sobem, a jovem perdida tenta seduzir Tenório, que também recusa seu sexo, incapaz de sentir qualquer prazer – seu único desejo também é Reginéia. A cena termina com Tenório saindo da casa, e a câmera se detém por um momento no rosto da jovem, cujos olhos distantes e opacos revelam claramente uma solidão profunda, que precisa de sexo para se distrair. Essa é a cena mais triste do filme, a que mais aguça o sofrimento particular de cada um dos personagens, cada um infeliz e incapaz de realizar seus desejos. É também a cena mais atmosférica, a representação perfeita da sensação de um fim de noite amargo em São Paulo, quase uma ilustração paulista de Visions of Johanna, a canção de Dylan. Conhecemos profundamente esse sentimento, esses dramas, esses olhares, e Carlão é um dos cineastas que melhor articula tudo isso.
A história continua se desenrolando e Tenório continua buscando se aproximar de Reginéia. De carro, eles passeiam pelos lugares que costumavam frequentar, mas, evidentemente, nenhum existe mais. Tudo foi demolido ou transformado em outra coisa. Carlão sempre filma bem a cidade, e aqui escolhe locais particularmente melancólicos, cinzas ou ainda paisagens dominadas por maquinário de construção. Há algum espaço para o humor cinéfilo, quando Reginéia relembra de seus antigos professores Fritz e Mizoguchi, mas, no geral, andar por São Paulo com Carlão nunca foi tão deprimente. Eventualmente, Reginéia tenta uma reaproximação com a mãe. Não vemos nada, estamos com Tenório e Giba, restritos a observar apenas a fachada do prédio popular no qual a mãe mora. Reginéia volta para o carro contrariada – a mãe fechou a porta na cara dela. Apesar da tentativa, não houve reaproximação. Aqui, o movimento subjetivo dos personagens é o mesmo movimento da cidade – tudo mudou, não há mais volta, the dream is over.
Para Reginéia, o reencontro com Tenório tem algum impacto. Apesar da impossibilidade do retorno ao passado, a experiência é o catalisador para um profundo descontentamento com o presente. Após o passeio, ela recusa os avanços sexuais de Giba e o chama de cafetão. Ao reencontrar Tenório, porém, a possibilidade de alguma mudança ou de um final romântico se desmancha de vez. Os dois vão até a pensão na qual ele vive sozinho, sem posse alguma, separado da mulher e dos filhos. Tudo indica que a relação entre os dois não foi muito boa, pois Tenório, nosso homem deslocado, termina o filme em segundo plano, reclamando pateticamente de sua própria performance sexual, se afundando em lamúrias e autopiedade.
Assim, com a decepção consolidada, a rainha do fliper deixa de lado seu inconformismo, volta para os braços de Giba e termina no salão de jogos. Nada mudou, o filme deu a volta e terminamos no mesmo lugar onde começamos. Os personagens continuam atrelados a suas circunstâncias, sem nenhuma possibilidade real de mudá-las. O encontro de Tenório e Reginéia foi, quando muito, um lembrete das tristezas do presente, um reencontro fadado a ser breve, muito por conta da autocomiseração de Tenório, que não consegue fugir do patético.
Trinta breves minutos e Carlão nos atravessa com sua habilidade de deixar indissociável a cidade e o espírito humano, de nos fazer encontrar personagens que já conhecemos, mas raramente vemos de fato representados em filmes, de construir um melodrama impecável e doloroso. Visto sem muita atenção, As Safadas pode parecer um trabalho menor, mas tem muito a mostrar.
Lucas Bueno
