Ato Noturno, de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
(Brasil, 2025)

Jogo de corpos fechados

As primeiras cenas de Ato Noturno elaboram uma coreografia à la cinema clássico, ou Tela Quente, de hiperexpressividade da trilha sonora e dos corpos, combinada com um jogo de tensionamentos e relaxamentos da ação que parece não chegar muito além dessa brincadeira cênica que talvez tenha fé demais em si mesma. É um clima intenso de suspense pesando em todas as cenas iniciais, que parece se encerrar nos dramas pessoais dos personagens, parece algo que a estética do filme está forçando sem que saibamos direito onde vai dar, se estamos de fato vendo um filme de suspense ou apenas personagens muito carregados dramaturgicamente, muito intensos quanto às próprias vidas.

Conforme a trama vai se desenrolando em balaios e labirintos, esse sentimento não deixa de ser relevante. Nossa incerteza como público faz parte da própria dramaturgia do filme: não sabermos se algo violento está prestes a acontecer ou se o clima pesado se deve simplesmente à carga dramática que esses personagens colocam na própria vida, à importância que dão a tudo, de forma às vezes meio egoísta, meio enviesada, a ponto de não sabermos o que está em jogo em termos de sentimento, tal a plasticidade com que tudo se desenrola.

Não podemos confiar em nada: um dos personagens admite que toda a postura dele, toda a sua personalidade, é uma construção forjada para impressionar todos a seu redor, para se encaixar num mundo que não era o seu, enquanto o outro se coloca como mais autêntico, verdadeiro, dono de si e sensível, o que também acaba sendo bastante conveniente a ele como ator. Este que se mostra como mais sensível e verdadeiro questiona o que é pintado como mais artificial: o que você vai fazer quando toda essa máscara cair por terra? No entanto, ambos são igualmente performáticos e inquebráveis, a diferença é que, enquanto o político liberal precisa se encaixar em normas castradoras de seriedade, ao ator é constantemente cobrado ser mais ele mesmo – com a nota de rodapé de que gostaríamos de alguém naturalmente menos livre e solto.

Não se sabe, portanto, quanto de cinismo há nessas paixões, quanto de erotismo há nesse tesão, quanto de verdade há nesses jogos, quanto de enganação ou autoenganação opera ali. Há momentos de maior conexão entre o casal de protagonistas, que são, às vezes, baseados numa energia demasiado masculina, ou seja, não é aquela risada fofinha dos primeiros encontros de filme adolescente, são risadas violentas de homens transbordando de testosterona e adrenalina. Ou seja, o que é falso e o que é sincero às vezes está difuso, às vezes parece estar menos em jogo do que deveria.

Dessa mesma forma, a construção das personagens em si parece meio indecisa quanto ao que é. Penso em filmes, especialmente da Hollywood clássica, de diretores como Alfred Hitchcock, em que, para o olhar desavisado, trata-se de uma história de amor, mas se você assistir uma segunda vez com atenção, verá que nunca houve amor ali, somente cinismo, poder, posse, tesão, desespero, cinismo, medo, cobiça, angústia existencial e jogos. Embora a construção desses filmes às vezes seja muito ardilosa, podemos ver quantas vezes quisermos, e jamais encontraremos amor verdadeiro ou romantismo ingênuo ali. O filme nunca tentou nos enganar, apenas pode ter nos iludido. É uma linha muito tênue para se caminhar. Um mérito gigantesco de Ato Noturno é abrir um lugar nessa tradição, que revela-se que as personagens estão muito mais interessadas em sucesso, poder e a defesa egoísta de seus afetos do que em ideais bonitos e sinceros que às vezes possam defender, inclusive a própria arte.

Não acredito na história de amor o suficiente para achar que é um drama do coração para aqueles personagens, o filme me interessa muito mais como uma história de obsessão, cinismo, jogos e tesão. Que os personagens coloquem tudo a perder por esse tesão explosivo e essa fúria violenta contra as concessões que têm que fazer perante o mundo hipócrita, isso sim ensaia ali um grande filme. No entanto, às vezes o filme parece querer sugerir uma história de amor, como quem quer me enganar, me despistar, visando dar mais potência à revelação de que nada deixa jamais de ser falso, violento e egoísta.

Isso também parece denunciar um filme que confia demais no gênero, acredita demais no gênero, e perde um pouco de sua verdade interior. Podemos lembrar de um filme como Bande à part, de Godard, em que cenas avulsas podem ser vistas como fofas e estetizadas, mas é todo sobre jogos sexuais, solidões cortantes, beirando a misantropia, negações completas do romance e da ingenuidade, egoísmo árido e violento do início ao fim. Alguns dos elementos que mais me afastam de Ato Noturno sugerem um filme, justamente, que às vezes parece mais estar fazendo um filme pela via do gênero e dos elementos de que lança mão, inclusive, por exemplo, os elementos presentes em filmes queer, as paixões, o cruising, etc, do que em aprofundar a especificidade dessa realidade interessante que encontra.

Talvez a própria insuficiência do filme incomode mais, nem a direção de atores está sempre alcançando o que o próprio filme se propõe, mesmo em seu momento mais maneirista, pastiche, abertamente descolado. Mesmo a ingenuidade que o próprio filme parece querer compartilhar com seus personagens, em querer negar a própria hipocrisia ou cinismo, chega a ser algo bonito. Algo especificamente queer, de sempre querer dizer que conserva o coração no lugar certo, não importa o quanto se chafurde na sujeira da vida conforme ela vai te levando. E, à luz dessa aterradora proposta final, é possível olhar para o filme inteiro e ver um espetáculo vampiresco nas performances sempre infladas de grandiosidade ou de suspeita.

É talvez uma visão do presente, do futuro, bastante amarga ou resignada. Nunca se opera uma desconstrução das máscaras apresentadas, pelo contrário, essa energia apenas segue alucinada rumo ao precipício, até o fim. Nem sempre a cafonice funciona para além de ser meramente cafona. Não sei, também, quanto do vazio que fica é mérito dessa proposta ou revela o filme como sintoma desse mesmo vazio. Para o bem ou para o mal, o filme revela o contemporâneo como um jogo de corpos fechados. O abismo entre os personagens, suas solidões essenciais, seu egoísmo primário, jamais sequer trinca. Quanto disso é apenas a vida e quanto disso é o horror, o próprio filme parece não querer apostar muito em afirmar. Ato Noturno, como seus personagens, apenas vive o que está aí para viver.

Villar da Cruz