Audácia!, de Carlos Reichenbach e Antônio Lima
(Brasil, 1970)

Cinema é ação

São Paulo, 1970. Na região mais perigosa da cidade – de dia, a Boca é frequentável, de noite, não –, fazia-se cinema. Lá, jovens, artistas e canalhas  juntavam-se à prostituição, ao lixo e à Luz. O prólogo de Audácia!, dirigido por Carlos Reichenbach e Antônio Lima, é um rápido retrato desse ecossistema cinema-cidade em que, hoje, as ruas da região já não dão pistas de que um dia ocorreu. Aqui se faz cinema em São Paulo, aqui se formam as equipes, aqui se produz, anuncia a voz empostada. Regida sob a lei do mercado, a Boca encontrava um curioso equilíbrio entre produção e vanguarda. Não quero fazer um filme de autor, quero fazer um filme de coordenador. Precisamos fazer filmes péssimos, filmes baratos que custem menos, diz a locução, num plano geral em que estão reunidos rostos conhecidos, dentre eles os de Rogério Sganzerla e de Ozualdo Candeias. Nesta sequência, Reichenbach também aparece algumas vezes no quadro. Sua presença não é constante, imagino que isso se deva ao fato de que, além de personagem, era também o fotógrafo do filme. Embora enquadrado como parte do grupo naquele momento, Carlão — que entrou na Escola Superior de Cinema São Luís querendo ser roteirista — fotografava e ainda buscava entender o diretor que seria e o lugar que ocuparia naquela geração. Essa procura, visível neste prólogo documental, torna-se evidente no primeiro episódio do filme, A Badaladíssima dos Trópicos x Os Picaretas do Sexo, que dirige sozinho.

O teor documental do prólogo vaza no começo do segmento, que abre com uma entrevista com José Mojica Marins. Nela, Paula Nelson, a protagonista que ainda não foi apresentada, pergunta: ‘Mojica, como devo fazer para ser autêntica no cinema brasileiro?’ Ele, então, lhe passa a receita: ‘não esnobar quando não estamos na altura de esnobar, não mostrar falsa intelectualidade quando não temos cultura para isso’. Em determinado momento, a entrevista é mutada e a câmera, numa panorâmica, se afasta do entrevistado e mira a cidade. Entra, então, a voz de Reichenbach, anunciando o depoimento de Sganzerla a respeito de Mojica: ‘Mojica descobriu um caminho e ele está desenvolvendo esse caminho radicalmente sem nenhuma influência subserviente ao cinema moderno. (…) Estamos neste momento entre a chanchada e o cinema brasileiro do futuro, que é uma interrogação. Eu tentaria responder esta interrogação acreditando que o novo cinema brasileiro, o cinema que me interessa, que eu quero fazer, será um cinema popular, visionário, um cinema anti-intelectual’. A fita que se segue não responde, mas é essa interrogação.

O depoimento é interrompido e, agora, vemos uma mesa com duas mulheres e um homem. Paula Nelson anuncia coisas muito parecidas às que ouvimos no prólogo: ‘O negócio é fazer filme péssimo!’ Ela se prepara para dirigir o seu primeiro filme e o discute com a atriz principal e seu assistente puxa-saco, Banana Macaco. Quando ele a compara com Agnès Varda, ela retruca: ‘Agnès Varda vovózinha! Eu sou eu mesma, Paula Nelson, mineira, virgem e progressista!’. Ao longo do filme, vemos Paula usar uma variada gama de adjetivos para definir o que seu filme será: atonal, político, poético, mal comportado. O filme, porém, parece sofrer de uma paralisia causada pelo tanto de coisas que pretende ser. Ninguém compra muito bem a ideia. O dono da locação, prometida num primeiro momento, tira o corpo fora, o fotógrafo é trocado três vezes e até o título sofre mudança. Carlão relata que ele e Jairo Ferreira, assistente e still do curta, escreviam e reescreviam o roteiro de A Badaladíssima dos Trópicos a cada dia, conforme as condições de filmagem. Método muito diferente do “roteiro de ferro” com o qual trabalharia em anos seguintes da sua carreira.

Embora a abordagem bronca ao filme espelhe a confusão de Paula Nelson, ela não é necessariamente o alter ego do diretor. Parece-me que Reichenbach se aproxima muito mais da figura da amiga, Helena, com quem Paula discute em determinado momento do filme, quando a sua produção já está na berlinda. ‘Samuel Fuller que tem razão, Paula, cinema é ação. Você lembra daquele filme que eu queria fazer, todo influenciado pelo Samuel Fuller?’, pergunta a amiga após dar razão para o pessoal da Boca que recusou o copião do filme de Paula. Helena acredita num cinema mais rigoroso, com menos pourra-loquice, com menos intelectuais e mais ação. Paula a rechaça. Curioso que, apesar de no prólogo quase nenhuma mulher estar no grupo dos cineastas flagrados, aqui, há duas que não só aspiram ser uma, mas discutem e discordam sobre cinema. Acho que, como tantas vezes ocorreu nos filmes da Boca, a mulher é em Audácia! mais um símbolo do que qualquer outra coisa.

Se em A Badaladíssima dos Trópicos elas são diretoras e remontam os anseios de uma geração, em Amor 69, como de praxe, elas são atrizes e espelham o desejo. O segundo episódio, de direção solo de Antônio Lima, apresenta G. G. Dreher, um diretor que, impossibilitado de gravar num casarão antigo por conta do barulho que a produção do seu filme faz, leva-a ao interior. Mais especificamente, as filmagens se dão num descampado horroroso que o cineasta – paulista – crê ser um desbunde. Lá, as garotas que rodeiam a produção dão uma canseira nele. A dona da fazenda não topa atuar no filme, as coadjuvantes insistem em estrelato e a protagonista atrasa as filmagens em quatro horas.

Na tentativa de convencer a fazendeira a participar do filme, G. G. faz um apanhado dos principais cineastas brasileiros que trabalhavam naquele momento. Nessa breve sequência, o tom documental do prólogo é retomado e duas vozes – sendo uma delas a de Reichenbach – descrevem as principais características dos diretores cujo retrato ocupa a tela. Pasolini fará amanhã o que Mojica faz há anos, anunciam. Mais uma vez, como Paula Nelson no primeiro episódio, o cineasta de Antônio Lima está embebido num delirante caldo cultural. O que não faltam são referências, adjetivos, abordagens a defender e inventar. ‘Parece que agora o nosso cinema vai’, diz G. G. após a recapitulação. A fazendeira, porém, retruca: ‘há anos que dizem isso’.

Na figura de dois cineastas confusos e até um tanto medíocres, os dois diretores de Audácia! sondam o terreno para o cinema que querem e podem fazer. Anos depois, Reichenbach diria que seus primeiros filmes são ‘muito ruins‘, que, diferente de Paula Nelson, os filmou por filmar. As referências, como fica claro no segmento documental, ele tinha de sobra. Os adjetivos e a abordagem, porém, tentaram encontrá-los no caminho. Não creio que tenha achado por completo. Paula Nelson, morta ao final do episódio, deixa seu testamento em filme. Já de Helena, a amiga fã de Samuel Fuller, não se tem notícias do filme que fez. O recado está dado: precisamos fazer filmes péssimos.

Clara Barra