Avatar – Fogo e Cinzas, de James Cameron
(Avatar: Fire and Ash, EUA, 2025)

O que fez Avatar – O Caminho da Água funcionar foi, acima de tudo, a escolha por uma contemplação mais detida e sincera das texturas digitais vertiginosas em detrimento do desenvolvimento narrativo, que no caso do primeiro filme pode ser descrito, de maneira honesta, tanto como convencional e simples quanto pobre e vazio, a depender da paixão. O filho do meio da saga de Cameron é um filme espontâneo de fato, que vai muito mais na contramão dos arrasa-quarteirões insuportáveis que têm parasitado os multiplex ao redor do mundo do que seus fiéis detratores conseguem admitir. Se a falta de peso e de sujeira nas imagens é consequência inevitável e inerente ao aparato tecnológico desenvolvido por Cameron para consolidar seu projeto de cinema neuroticamente clean, que pouco interessa a quem crê que a matéria-prima do cinema é o mundo real, com luzes reais incidindo sobre rostos reais, é também igualmente verdade que o realizador nunca deixou de dramatizar, ritmar e modular a escala de sequências de ação impressionantes. Superados também muitos dos problemas temáticos do antecessor, o segundo capítulo dobra a aposta no drama familiar, que tem algo de singelo e charmoso – é evidente que Cameron não pensa no núcleo afetivo de seus filmes como algo secundário à volúpia das paisagens digitais, nem como obrigação de roteiro, mas antes como espinha dorsal. 

Há um nó esquisito nos Avatar, uma incongruência fundamental entre as melhores qualidades dos filmes: simplicidade narrativa (nostálgica), a sinceridade afetiva (refrescante), a crença no projeto plástico, nas texturas digitais (por vezes irresistíveis); e a megalomania que cerca toda a franquia, marcada na cultura pop do século XXI como sinônimo de alguma “inovação” que não deu em lugar nenhum e que, de alguma maneira, parece reclamar o título de último blockbuster decente em um cenário de completa autofagia do monstro hollywoodiano que respira por aparelhos em termos criativos e estéticos. Se Avatar chegou em 2011 com a pretensão de mudar paradigmas, seja lá quais fossem, O Caminho da Água chegou em 2022 como um refresco nostálgico, contemplativo e honesto, em meio a um cenário mundial e cinematográfico mais desacreditado, mais cansado. Nos dois casos, porém, há algo de limitado. No primeiro, a jornada é surpreendentemente desinteressante no andar narrativo, e o que existe de textura no mundo de Pandora falta nos personagens, reduzidos ao clichê do clichê noventista. O segundo filme acerta em cheio, e Cameron segue seus melhores instintos ao permitir a já mencionada contemplação detida e paciente – ainda assim, nada ali é particularmente indelével.

Chegamos, enfim, a Avatar – Fogo e Cinzas, que parece vacilar e dar alguns passos para trás em relação a seu antecessor imediato, mais preocupado com o prazer da cena. Se O Caminho da Água contrasta minimamente com um certo cinema comercial contemporâneo no qual ele se insere, é por conta de sua recusa em ceder a uma ansiedade narrativa. Fogo e Cinzas vai na direção contrária ao deixar claro que há elementos sendo apresentados agora somente para reaparecerem no próximo filme da saga (não sabemos se isso acontecerá), muitas pontas soltas são deixadas propositalmente como ganchos narrativos, e muito do peso desaparece justamente por isso. Esses momentos comicamente autoconscientes são um lembrete de que, hoje em dia, é praticamente impossível manter intacto um véu de ingenuidade em arrasa-quarteirões americanos, nos quais a experiência estética é minada mais facilmente por todo o contexto real ao redor do filme. Em Fogo e Cinzas, o propósito primeiro de grande parte das cenas é a continuação da história, a progressão narrativa. Em segundo lugar, vem a maravilha visual, o espetáculo, seguido pelos ganchos que recolocam o filme em seu lugar como terceiro episódio de uma franquia maior. 

Se esses sinais de esgotamento (e de esvaziamento) são claros, Fogo e Cinzas dobra a aposta nas dinâmicas da família nuclear que persiste em sua luta contra as forças colonialistas que visam o genocídio completo daquele mundo, e faz isso muito bem. Agora defasada pela tragédia do final de Caminho da Água, a família está em pé de guerra durante todo o filme, não há um membro dela que não se sinta fora de lugar, dentro de uma família que já é um corpo estranho em Pandora. Spider, filho do coronel Quaritch, é o alvo principal: responsabilizado pela morte do irmão adotivo pelos próprios pais e tentando se juntar ao clone de seu pai biológico, ele acaba fortalecendo seus vínculos físicos e espirituais com o mundo de Pandora ao final do filme. É no esticar da corda, na rachadura das relações, na perda total de sentido do vínculo pelo vínculo que o amor se faz presente de fato, e aí está a trama mais interessante de Fogo e Cinzas. O outro filho do casal tem sua própria jornada telemaquiana, afastado do restante do pessoal em uma tentativa de fazer com que a voz da juventude seja ouvida pela geração mais velha dos povos de Pandora, teimosos em não adotar medidas drásticas e violentas contra o exército colonialista. Sigourney Weaver também tem uma jornada interessante, entendendo suas origens como clone e superando a distância que sentia do núcleo espiritual de Pandora, em paralelo com Spider. Os três filhos terminam o filme tendo passado por provações intensas e prontos para uma passagem de bastão que está sendo anunciada desde o Caminho da Água, e que deve acontecer em breve.

Além das tramas familiares, é interessante observar como algumas ideias que se esgotaram nos últimos filmes agora estão sendo rearticuladas. Notavelmente, o coronel Quaritch continua em vias de ser um dos personagens mais simpáticos da franquia, cada vez mais distante do vilão original. Agora, um clone com memórias implantadas e corpo Na’vi permanente, ele forma uma aliança improvável com um clã nativo e se distancia progressivamente da general de Edie Falco, outra presença memorável. É nessas rearticulações, que no fim das contas prezam mais pelo prazer da jornada do que pelos aspectos dramatúrgicos mais sérios, que a franquia ganha mais fôlego. O povo do fogo, porém, é mais um recurso narrativo de pouco interesse, que remete às ideias mais genéricas de Star Wars na era da Disney.

No final, Fogo e Cinzas é um bom filminho, nada além disso.

Lucas Bueno