Babygirl, The Shrouds, O Diabo

I.
Impressiona em The Shrouds (2024), de David Cronenberg, a leveza com que se articula a perversão, esses momentos de encontro entre as fantasias e maquinações eróticas trazem sempre alguns dos momentos mais ternos do filme. Essa candura, essa beleza com que essas safadezas ou crueldades são trocadas, o fato delas não pesarem no filme, deixa espaço para que absorvemos melhor o que há de verdadeiramente indigesto ali, que justamente o que os protagonistas fazem às claras, a relação de seu trabalho e suas obsessões com as ideologias do nosso tempo e o mundo para além de seus umbigos. Essa aridez tecnológica, límpida, clara demais para que se veja qualquer coisa bem, realçada pelo uso até desconfortável que Cronenberg faz do digital e da paisagem sonora alienada do mundo e da vida, conforme faz jus principalmente aos espaços ocupados por essas pessoas e como elas se ocupam.

II.
Lá pelo final de Babygirl (2025), vemos uma imagem numa tela digital, ambiente futurista, com um pronunciamento de uma mulher falando em linguagem perfeitamente robótica, sorridente, triunfante. A imagem poderia pertencer a um filme de Cronenberg ou Jonathan Glazer, poderia ser premonitória de um regime fascista intergalático ou uma linha de montagem para lavagem cerebral. Mas não é o caso, ela é apresentada como uma imagem boa e triunfante, essa mulher que fala é a mulher negra que até agora era negligenciada e assumirá a frente na agência. O tom meio pesado se deve no máximo ao conflito que houve entre essa personagem e a de Nicole Kidman, ou seja, o drama é dos funcionários brancos confrontados com sua culpa dessa forma chantagista, virando o jogo contra eles. Essa coisa sufocante do meio empresarial é o único drama sério que ocupa a personagem conforme ela é confrontada com sua frustração sexual e os caminhos da liberdade.

III.
Se estamos falando de perversão como esse terreno do confrontamento entre fantasias, da invasão da fantasia do outro, da manipulação do real por via do desejo, Babygirl fala sobre uma vontade de perversão, uma vontade de brincar, mas que fica nesse terreno da brincadeira, dos jogos controlados de regras estabelecidas, a trama gira muito em torno de tatear, descobrir e firmar essas regras. A perversão, ou melhor, a safadeza da protagonista, a devassidão  – aquilo que pode prejudicar a protagonista, ou seja, esse grande pecado criar um envolvimento íntimo com um adulto de seu convívio, apenas um conflito íntimo de um personagem com um mundo, uma lei -, conforme a moral em jogo chamaria, fica nesse lugar dos jogos e desvio de contratos. Em The Shrouds, esses contratos não existem, ou esses personagens não têm muito respeito por aquilo que não pode feri-los. Ok, eles possuem poder, enquanto Nicole Kidman apenas o empresta de sua posição numa empresa. Porém, se Babygirl é sobre o jogo empresarial visto da perspectiva de quem tem algo a perder – o trabalhador liberal ‘alto padrão’ -, ele acontece como quem acredita nesse jogo, ou no empoderamento que ele pode oferecer, não questiona a importância de sobreviver nessa selva, apenas admite que ela é o mundo. Essa selva, em última instância, é justamente as fantasias do violentamente alienado personagem de The Shrouds. No jogo de quem não está brincando de acreditar na ideologia liberal, as perversões vêm e vão, conforme o tesão e nossas narrativas as revisitam. Babygirl pode ser um coming of age da perversão, mas aqueles seres, em sua essência, jamais estão em conflito verdadeiramente. Em uma cena apenas, ela verbalmente se impõe como alguém adulta enquanto ele é moleque, e em outra cena ela vai atrás dele no trabalho sem também qualquer conflito além de um olhar intenso e doloroso. Sobra espaço pro marido ficar melindroso por ter sido traído e ela acolhê-lo intensamente tentando ganhá-lo de volta, acolhendo sua inversão de valores. O filme, no fim das contas, pra ser um coming of age da perversão, não consegue sequer chegar do outro lado de nenhum dos ensaios de perversão como conflito que ele encontra. Ao fim do filme, a criança apenas aprendeu a brincar, nenhum adolescente virou adulto. The Shrouds tem uma trama, Babygirl tem um quase primeiro ato de um drama. Todo mundo quer brincar de fazer um filme, muita gente quer entender o que eu precisaria entender para fazer uma trama como a de The Shrouds. Babygirl é mais um filme sobre não ter o que dizer. Nesse caso, ele diz o que ele sabe mesmo, não tendo ido tão longe quanto Cronenberg em sua reflexão: ‘eu tenho culpa branca, eu não sei o que fazer, eu aceitei meus desejos que eu considerava sujos, eu dominei minha vida sexual, eu encontrei a identidade que vai me colocar com mais potência de volta no mundo empresarial, eu fui confrontada com minha culpa, a empresa viveu um novo capítulo, mas a que preço’?

IV.
Para não dizer que Babygirl trata de uma perversão sem vítimas, a única vítima de sua perversão é justamente aquilo com que nem nós, nem Cronenberg nem os soft-sociopatas do filme se importam: o jogo em si, as aparências liberais, a crença no establishment, a abstração da família. Quando Miranda Priestly sussurra para suas pérolas, com aquele sorrisinho safado, após ter falado que sim, é uma megera e até destruiu a própria vida pessoal, ‘Eu amo o meu trabalho’, aí estamos no rastro de onde está a perversão real, e não temos como falar sobre relação pessoal-político apenas falando sobre dores e problemas pessoais, devemos seguir o rastro de onde está o mundo real, onde o horror é real. Nenhum filme sobre o mundo empresarial é muito honesto se não conseguir chegar mais ou menos no terreno em que Cronenberg chega, e falo isso porque muito do que de mais interessante podemos presenciar em seus filmes não é o que ele sabe por ser um grande intelectual, mas sim o que ele sabe por estar vivendo aquele mundo (Hollywood, etc). Para seguir ilustrando, poderíamos falar, por exemplo, em Mulholland Drive ou Twin Peaks.

V.
Não se trata de afirmar que Babygirl seria melhor com outro final, ou apontar o que eu gostaria que fosse diferente ou o que falta, embora tenha apontado as pontas que o filme ganharia em desenvolver. Isso sim: se fosse realizado com outra cabeça, seria outro filme. Que, para não dizer que, ao comparar duas obras, estou pegando Babygirl e medindo pela régua do que ele não é, estou apenas demonstrando o quanto cada filme é tanto limitado quanto potencializado pelo lugar de onde ele vem, então nenhum desses dois filmes poderia ser diferente do que é, caso olharmos para o que cada um revela sobre quem está por trás deles, quem os fantasiou, imaginou, idealizou e produziu. Que eles se pareçam em alguns aspectos fala sobre eles abordarem coisas próximas e serem produzidos ao mesmo tempo, no mesmo país. Sempre: Godard dizia, um filme é o resultado estético de seu processo de produção, aí está a autoria, e deve estar a crítica.

Villar da Cruz