Biografía de Jorge Luis Borges, de Mariano Llinás
(Argentina, 2026)

Qualquer um pode fazer uma biografia de Borges, se não for encarar o fato de que a própria obra do autor coloca em cheque qualquer ambição de contar uma história após Borges. Se você chegasse ao hall do cinema no intervalo da Biografia de Jorge Luis Borges, talvez encontrasse parte do público reclamando do filme que não vai a lugar nenhum, gasta tempo demais em detalhes supérfluos,  quase paralelos ao interesse historiográfico, e de biografia não tem nada.

São reclamações que eu também senti. O exame de documentos se perde no próprio processo, as palavras vão se encavalando ao ponto de que eu, que tentei evitar depender tanto das legendas em português que ficam tão longe da tela, ia me perdendo naquele emaranhado. Flutuava minha tentativa de manejar a atenção, e talvez pudesse criticar um filme com tantos longos momentos que se poderia honestamente chamar de “gordura”. Momentos que esmiúçam em falso, processos sem ênfase na conclusão, que se costuram um no outro sem que tenhamos entendido se conseguiram se arrematar. Eis, no entanto, que não estamos nós mesmos examinando os documentos em busca de uma resposta específica para colocar numa tese e depois esconder o rascunho. Estamos vendo um filme. O espetáculo do próprio filme é o filme em si, não uma informação pura e reta que nós pensássemos que o filme tem a obrigação de nos dar.

Ora, como se haveria de falar verdadeiramente sobre Borges sem antes cruzar os mares que sua obra cruza? De repente, meu próprio inconsciente foi fazendo parte do filme, a obra me perde para me reencontrar lá na frente. É uma experiência cruel de visita ao inconsciente, pois condicionada justamente por minha necessidade de não perder o fio da meada. Às vezes, o filme não dá pé. A gente se afoga ou tenta nadar. Esmiuçar detalhes de documentos que vão se embaralhando em nossa cabeça, mas sem jogos, de fato saboreando cada detalhe… Que outra forma haveria de viver a experiência do tal mapa que ficou tão detalhado que tinha o tamanho do reino que ele representava? Ainda mais se o reino de que se fala não é a obra de Borges, mas o que ela aponta. Não o universo, não a vida, não o sentir. É tudo isso, mas é outra coisa ainda.

A presença do diretor, cuja narração espirituosa preenche quase o filme inteiro, ali observando, analisando, às vezes nada ou quase nada, parece lembrar que isso não é um filme da mesma forma que um conto é um conto. Quase nos esquecemos de querer conhecer informações concretas sobre a vida de Borges, que aliás, são bem raras no filme, e aproveitamos a companhia daquele homem, como alguém que estaria sempre ali, como a vida é, como qualquer companhia é, como algo que não parece ter fim, como a aventura de fazer um filme desses, uma investigação maluca dessas. Uma investigação que não é investigação, se parece mais com poesia. É talvez a paródia de tantos filmes sobre investigações exageradas em atribuições de significados, talvez uma desculpa singela para a própria loucura. E, não somente um fluxo de palavras que revelam às vezes tão somente a riqueza da língua em si, é como se ele mergulhasse num mar delas para finalmente tirar uma frase inteira de Borges, cuja genialidade se destaca conforme vemos as palavras que foram sendo talhadas, trocadas, repensadas, até chegarmos à sentença pronta num livro. Magia. Para sentir a dimensão da obra de Borges, basta uma única frase sua, com a aparição depurada ao longo de mais de uma hora. Nada que o próprio filme não articule melhor que eu.

Um filme travesso, também não se nega como o tal desde o primeiro monólogo, um que descamba para uma violência sem sentido, como se o autor quisesse até colocar para jogo os mil estresses dos bastidores da vida de artista de uma arte que carece de recursos. O artista real, tentando ser real. Desvia ativamente de bater ponto em Borges, mostra para gente um livro gigante que talvez interesse à nós se quisermos algo como uma biografia mais plena no sentido que o espectador talvez procura. Detalhes que vão tramando e desmanchando um filme que só pode ser uma obra digna de seu autor se conseguir se afastar dele, transcendê-lo, nada a ele dever. Precisando colocar em cheque a natureza do que faz: o que é um retrato, o que é um ser humano, o que é um autor. De onde surge a figura do autor, do ser humano, se de qualquer forma que nos aproximemos, mesmo que o tenhamos perante nós, não o teremos nas mãos. O que são histórias, seu inconsciente, sua energia, seu fantasma.

Sentam-se à mesa junto a uma estátua de Borges, acompanhado de seu jovem amigo, o diretor e o operador de câmera do filme, também editor e não simplesmente um possível aprendiz seu, mas alguém que possui uma influência especial sobre ele, pois possui conhecimento mais especializado dos ofícios técnicos do filme. Em certa medida, a teimosia das gorduras do filme, se deve a essa relação entre a aparência mais rigorosa cinéfila do jovem técnico audiovisual de 27 anos e o cineasta meio poeta grisalho louco. Nesse momento, porém, não sabemos disso ainda, e trata-se apenas do operador de microfone que ocasionalmente aparece de relance. Pensei que era bonitinho e charmoso, assim como sua calma de cara da câmera e do som.

Codino, no entanto, virá a se tornar, como tudo que aparece, qualquer pessoa, elemento, signo, mais um personagem dessa jornada, desse retrato livre, à la Pollock. Em certo momento, no meio das filmagens, ele faz aniversário, e os velhos produtores o recebem com um bolo. Codino tão pouco aparecera, tão de relance, e no entanto com tanta ternura, e de fato, estava lá como tão importante quanto qualquer outro elemento do filme, da vida, da nossa atenção humana. Me emocionei lembrando da cena de quando eu próprio trabalhei como técnico de audiovisual em projetos culturais, e no mundo da cultura, as atenções não estão, como nesse filme, voltadas para a humanidade em si da coisa, para o viver. Momentos em que você, por exemplo, recebe seu cardápio especial dos itens cobertos pelo seu vale, coisas tipo calabresa acebolada e um refrigerante, olha casualmente para seus chefes e eles estão dividindo uma moranga cheia de camarão e chopp. O acontecimento não significa nada, estávamos comendo razoavelmente, e trata-se da união, da essência do trabalho, essa atividade tão nobre de humana.

A sala de cinema, escura, isolada, alienada, acaba não sendo menos confortável, arejada, que lá fora, a experiência da vida acontecendo com tanta leveza e emoção quanto na rua. Estamos tratando de um filme sem bordas ou arestas que para fazer Borges hoje, em cinema, precisa fazer o exato oposto do que Borges fez: Borges media rigorosamente cada palavra que entrava em seus sucintos textos curtos, o cineasta jamais distingue o filme terminado de seus próprios infindáveis rascunhos, rasuras e tergiversações, arestas sulcos, limites inexistentes, que transbordam para dentro e fora do cinema, o mundo real, onde Borges existe.

As imagens são do mais simples digital, que não lança mão de nada que não seja o que filma e o modo como filma, ali em presença. Nossa imaginação precisa estar presente, pelo menos, percebendo o que está diante da câmera. Há também presentes ali tão bem colocados quanto a primeira frase de Borges que ele finalmente pesca de dentro de tantos rascunhos: a estátua que ele vai encontrar. Ela aparece por talvez menos de um segundo e passa uma Fiorino na frente dela. O diretor que mostra tanta coisa irrelevante por tanto tempo, quase não mostra essa estátua que passou tanto tempo, na tela, se irritando por não encontrar. Parece que estamos falando de outro filme, sobre este homem.

Há, desse modo, um senso de presença, de realidade, nessa estátua. O momento que a vemos é real, e sua presença, naquele lugar especificamente, em como aquele lugar se conecta com todos os outros, o resto do filme. Nos primeiros momentos, vemos apenas lugares que ecoam camadas e mais camadas de tempo, movimento históricos, prédios mais antigos que muitos países, por exemplo o nosso. Agora, inevitavelmente, vemos terrenos onde se constroem prédios desses novos sem identidade alguma, e prédios desses novos sem identidade alguma.

Em um desses momentos de investigação de lugares, filmados em cascata – Voz do cineasta – História – Imagens contemporâneas – banalidade – gravidade, fala-se de um conjunto de ruas que formam uma paisagem importante de um conto de Borges, e trocaram o nome de uma dessas ruas por Rua Jorge Luís Borges, desfazendo assim a paisagem original de um conto de Borges. Ora, justo ali, não podiam encontrar outro lugar para criar a rua Jorge Luís Borges? Fiquei pensando sobre como, de fato, quantos lugares no mundo haverão de ter, se precisássemos preservar todas as camadas de história em sua materialidade? Logo, os lugares se esgotariam. E, no entanto, antes fosse essa a nossa preocupação: lugares ascéticos, espiritualmente pobres, enlatados, abundam, e facilmente vão se proliferando, como se fossem até serem, nosso ideal de vida. O Estado do Texas. A paixão de Borges pelos Estados Unidos contra a realidade americana que, não é um acidente, é a verdadeira manifestação da ideologia americana, possui seu paralelismo com a decepção de Borges ao conhecer um grande militar de verdade, em sua baixeza torpe. São uns animais, uns facínoras e nada mais. A própria empreitada de erguer monumentos como tais, paralisada de horror nas mãos de Llinás, que, de fato, entendemos porque era tão importante que o filme fosse longo, arejado e bem humorado.

A sabotagem que Llinás realiza com seu filme travesso e tão meticulosamente feito com uma câmera não mais que prática, busca o oposto da sabotagem realizada por Borges. Parece que para Llinás, se abrir para o mundo e fazer uma obra simpática e sem tanta pompa de sua ambição, mas igualmente neurótica e apaixonada, é uma saída para a tragédia que Borges evidenciou, ao fim de sua vida, como parte de seu espírito. Borges cometeu algo como um suicídio de sua imagem pública como celebridade, que parece bastante afinado com seu desprezo popr ser uma celebridade. Não dizendo que ele tenha falado disparates para espantar curiosos, é sempre pior: o filme tenta a redenção de Borges não redimindo Borges, mas, se imaginarmos Borges como um espírito, o nosso espírito, parte e a serviço da humanidade, o caminho é redimir a humanidade, em continuidade a Borges. Dar-nos tempo para absorvermos o que é Borges, o que é a história, o que é a beleza e o que é tudo o que sentimos. Dar-nos um generoso silêncio, sim, digamos que o silêncio com que ficamos, é uma generosidade que o filme nos proporciona. Ao enxergarmos o abismo, a face da loucura desse gigante, tão superlativo, cujo abismo da personalidade pode ser tão aterrador quanto sua histórica genialidade. Tal silêncio, tamanho silêncio. Que, num caso desses, a única forma de separar o joio do trigo, é misturar intensamente, apaixonadamente, meticulosamente, atenciosamente, o joio do trigo, por horas e horas, por tempo o suficiente. Contar essa história é um ato de heroísmo, saber contá-la é um ato de heroísmo, saber como colocar Borges de volta na história é um ato de heroísmo, ter essa delicadeza de gesto para tocar no assunto, como tocando num barquinho de papel que parou. É tudo contação de história, tudo uma grande história sendo contada. Para conseguirmos estar com perspectiva o suficiente para, além da moral, da verdade e da mentira, da realidade e do mito, da presença e da história, da obra e do mundo, enxergar a coisa como ela é, com amplitude, com generosidade, com interesse real, com capacidade de enxergar o que é interesse real, tempo para tal. É esse, o de Borges, o de Llinás, e o de nós compreendendo Borges, entendendo de onde vêm suas ideias, onde ele as perverte, onde ele próprio entra em colapso, é aí que está a coisa do espírito em sua existência, do futuro, do sentido, o joio e o trigo.

Villar da Cruz