Carlão e Cultura

Numa sessão de Paraíso Proibido em que tentávamos tirar algum sentido da salada de burgueses, industriais, bufões, intelectuais, burocratas, poetas, malditos, fodidos, cínicos, niilistas, existencialistas, e todos os tipos mais variados cujas personalidades Carlos Reichenbach explode em seus filmes, uma moça na plateia pegou o microfone e sugeriu uma moral central: Carlão, pode-se dizer, dividia o mundo entre os cretinos e os que buscam alguma aventura. Quem conviveu com o autor de Alma Corsária há de observar que existe verdade nessa sugestão, o cineasta era um grande apaixonado pela vida, valorizava a amizade acima de tudo, via numa única experiência sensível, emocionada, mais valor do que em todos os emaranhados virtuais.
Uma fofoca de um amigo conta sobre quando uma figura muito conhecida e amada do cinema brasileiro, respeitadíssima inclusive pelo autor deste texto, perguntou sobre Falsa Loura: “Você gosta mesmo desse filme? Ele era um grande querido e tal, mas os filmes dele…”. O espírito de Carlão é incontestado por todos como uma das figuras de maior amizade, o grande bonachão do nosso cinema é professor, companhia e colega de muita gente que fez História. Carlão possui suma importância, pois tinha uma ideia do que era cinema, uma ideia algo proustiana, em acreditar mais na energia de vida do que nas dissecações do abismo ou da linguagem, da “política” em seu sentido mais pobre. A busca do ser humano pela liberdade, pelo amor, pelas sensações, elas são políticas, no sentido de que se não forem, o que seria? Qual filme fala com tanta intensidade sobre o valor de um único coração e a tragédia de uma única alma despedaçada, do que Falsa Loura? A presença de Carlão, em suas entrevistas, em sua participação na história do cinema, nas mesas de bar, nas vidas de quem o conheceu, clama por uma demanda do cinema como político por caminhos que extrapolam certas ideias de por que devemos defender a “Cultura” ou certos produtos culturais.
O cinema é o mar, espelho, trampolim, catapulta, experiência, amizade, campo de batalha, é a vida, suas paixões, suas potências, seus terrores, seus lamentos, sua expressão. Por mais que o Carlão em si seja às vezes aquele sujeito legal que tal pessoa admirava ou apreciava estar junto, sua presença, inclusive nos filmes em que atua, é a de um personagem, conta sobre um modo de ser e de estar, seu corpo possui a intensidade de uma presença, de um homem presente. A ideia, presente na fofoca de meu amigo, de que esse senhor simpático pode ser separado de seus filmes, cuja autora guardamos por educação, é tão difundida quanto a apreciação por sua obra. Já ouvimos de atores que trabalharam com ele palavras de extremo apreço à sua pessoa, mas não pela sua obra. Uma certa resistência do cinema brasileiro a tudo que não opera no naturalismo, ou não possui certo selo de qualidade herdado do teatro ou do padrão Globo, identifica Carlão como péssimo diretor de atores.
No entanto, ao assistir Garotas do ABC, note como você pode estalar os dedos compassadamente, como acompanhando uma trilha de jazz, e entre um estalo e outro verá inúmeros gestos, expressões, interações físicas que sempre contam uma história, sempre possuem profundidade e expressividade. É como se Carlão usasse os corpos para fazer literatura, sem essa preocupação limitada em passar um gosto forte de vida real que às vezes nem encontramos na vida, em que as pessoas são até mais performáticas do que no cinema naturalista, e sem medo de parecer essencialmente cinematográfico, operando entre a magia do encanto e o distanciamento da artificialidade. Ecoa Howard Hawks, em sua agilidade, leveza e luminosidade perante a vida, se alinha com Fassbinder à ideia de que a direção de atores pode parecer mais com o pincel de Caravaggio ou o passo do coreógrafo do que com uma simples afinação de qualidade naturalista, e tem em comum com John Ford a preferência pelo épico de cada gesto, de cada cena, de cada corpo, às custas até do que quer que busquem os que dizem ser Carlão um péssimo diretor de atores.
A preservação do legado de Carlão fala sobre nossa relação com nossa “Cultura”, esse lugar de constantes tensões políticas. O Brasil, como de costume, é um país bastante específico nesse sentido. No Brasil, os grandes artistas incendiários dos anos sessenta são hoje uma instituição, a passagem da ditadura para a democracia burguesa fez com que justamente aqueles que no regime ditatorial eram dissidentes políticos e marginais agora fossem praticamente embaixadores oficiais da democracia. Embora nos Estados Unidos existam um ou outro exemplo minimamente análogo, como um Bob Dylan que recebeu medalha do presidente e ganhou prêmio Nobel de literatura, a relação de Dylan com a cultura e política de seu país, ainda assim, em nada se compara, por exemplo, com Caetano Veloso colunista do jornal “O Globo”, Chico Buarque Super Trunfo da campanha eleitoral do PT, e Roberto Carlos funcionário da Globo. Essa mistura entre cultura institucional e contracultura acaba gerando uma contaminação neoliberal das nossas pautas políticas.
Paula Lavigne, ao longo de um grande período de tempo, mobilizou todo o cenário político do país em torno de uma luta de certos artistas, como Chico, Caetano e Roberto, pelo direito de censurar qualquer tentativa de fazer uma investigação de suas vidas e obras sem seu aval e acompanhamento, confundindo, mais uma vez, uma demanda individual, privada, com uma pauta política. O ardiloso nome “Procure saber” dava a entender que se tratava de um movimento de união do povo em torno da informação, uma informação sobre condições materiais dos artistas que estariam lutando por reconhecimento financeiro. O diretor Kleber Mendonça Filho, na sua conta do antigo Twitter, atual X, também utilizou o nome dos trabalhadores para combater a pirataria: ao lado de Maeve Jinkings, condenou moralmente a disponibilização online de um filme (que possuía distribuição limitada, e era portanto inacessível a grande parte da população), alegando que só defendia a distribuição paralela (pirataria) depois que o filme terminasse de recolher dinheiro de ingressos. O argumento do cineasta e da atriz utilizou, mais uma vez, o nome do trabalhador e do artista pobre como moeda de troca: estariam pensando nos trabalhadores do audiovisual, eles dizem. O salário dos trabalhadores, porém, já está pago com dinheiro público e com os investimentos na produção. Na etapa de distribuição, esse trabalhador já está trabalhando no próximo filme e ele não pode parar de trabalhar ou então não sobreviverá financeiramente; o único interessado no sucesso comercial do filme nas salas de cinema são as distribuidoras, salvo quando os realizadores são os próprios distribuidores, o que geralmente implica que eles estão pagando para seus filmes serem exibidos, extremamente comum no cinema brasileiro de baixo orçamento.
O que o trabalhador da arte quer é investimento público, medidas socialistas, distribuição justa de renda e fim do monopólio dos meios de produção, distribuição e faturamento que segue estando em mãos já privilegiadas; dificilmente esse trabalhador está preocupado em colocar contra a parede o público, o pirata ou outros artistas que queiram fazer releituras de suas obras ou imagem.
Inúmeras vezes, críticos marxistas já apontaram a ironia de ser o Brasil um país em que tanto das pautas políticas de esquerda são ditadas e conduzidas pela burguesia onde cultura acaba sendo esse lugar cretino dos “meus” direitos, “meus” julgamentos da vida do outro, da moral pura e simples que delimita muito bem o certo e o político, da “democracia” liberal, de conflitos individuais de interesses, e não o lugar da aventura de um povo, o lugar da liberdade, da beleza, da amizade, da vida, do sonho real, o lugar, por exemplo, que faz com tenhamos tido, na tal sessão de Paraíso Proibido, tal dificuldade em delimitar o que ali é moral, quem ali é mocinho ou malvado, que conclusões morais simples se podem tirar dali – dificuldade que não teríamos ao assistir Bacurau, por exemplo.
O fato de que a vida não se parece com esquemas prontos, muito menos com maquetes de mundo construídas em redes sociais, está presente nos filmes de Carlão e na necessidade de vê-los, revê-los, discuti-los, relembrar a filosofia de seu autor. Nesse cenário, acaba tendo certa beleza o fato de que nosso Carlão foi, até o fim da vida, um marginal, com seu status como artista colocado em dúvida inclusive por seus amigos. Carlão nunca foi em si uma instituição, foi no máximo objeto de várias retomadas críticas que reavivaram a beleza e importância de sua obra. Os imbróglios da vida institucional, longe de se curvarem perante Carlão, foram de tal forma uma pedra em seu sapato que o artista, já veterano, teve seu posto como professor de cinema na USP ameaçado por uma nova lei que exigia diploma de pós-graduação de qualquer professor universitário. Um dos mais celebrados mestres do nosso país, um de nossos maiores cineastas, foi quase impedido de dar aula na maior universidade da América Latina porque lhe faltava um papel ostentando um título acadêmico.
Se discutir a obra desse artista é de tanta importância, e é objeto de tanta paixão, seria de se esperar que pudéssemos assistir a todos os seus filmes, e jogá-los no mundo tanto quanto possível. No entanto, enquanto escrevo esse texto para o dossiê Carlão na primeira edição de nossa revista, nem mesmo sei se teremos texto sobre Paraíso Proibido, pois o filme não está disponível em lugar nenhum para acesso – nem mesmo entre os piratas -, eu apenas o assisti, em cópia digital 4k, numa excepcional sessão de cinema organizada por outros apaixonados por Carlão que sentiam a necessidade de exibir mais uma vez essa obra necessária. A cópia existe, está nas mãos de alguém, mas nós do público não temos acesso a ela.
Esses tempos, descobri no YouTube um fenomenal show de Maria Bethânia com Paulinho da Viola, em Oslo, 1973, que até hoje me traz arrepios só de lembrar. O que era bom durou pouco: o registro histórico foi retirado das redes, por direitos autorais, como era o esperado. Agora, quem quer que possua esses direitos, pode usufruir deles à vontade, como alguém que tenha um Picasso guardado num cofre. A pergunta que fica, nos dois casos, é: se tais artistas (ou detentores de direitos autorais, que geralmente são herdeiros ou executivos da cultura) estão tão preocupados em preservar seu direito sobre tais obras, fica sempre a mesma pergunta, para quem? Elas existem para quê? Foram feitas com que sentido? Qual é o propósito? Quem as está aproveitando? Será que o sentido maior da reverberação da arte deve seguir sendo refém da lógica do jogo capitalista? Ou o século trinta vencerá, o coração destroçado já pelas mesquinharias? Por favor, Caetano, não me persiga por usar os seus versos emprestados de Maiakovski.
Comentei com amigos sobre a possibilidade de trazer a público obras de Carlão que existem digitalizadas, mas estão indisponíveis para acesso de qualquer pessoa que não fale pessoalmente com seus donos e ouvi que não é tão simples assim, e enumeraram quantas pessoas seriam obstáculos nessa empreitada, nenhuma delas sendo o próprio Carlão, que onde quer que esteja, certamente não dá a mínima para isso, e se tiver um único desejo, será que seus filmes sejam assistidos. Um dos mais belos filmes brasileiros já feitos, Amor, palavra prostituta, é exemplo ainda mais ilustrativo da vitória do capitalismo liberal sobre a ditadura, e do quanto este só pegou seu bastão e levou adiante: a única cópia pirata desse filme disponível é uma cópia intragável em VHS, que além de irreconhecível na qualidade da imagem, é objeto de desprezo pelo próprio Carlão, pois é, veja só, a cópia mutilada pela ditadura. A cópia original, ainda preservada e belíssima, está talvez conservada num depósito de películas, em sua preciosa e inflamável existência material, longe de nossos olhos. É triste que Carlão tenha achado que estava fazendo filmes, quando cada vez mais constatamos, elevado ao absurdo, o lamento de Chico Science: artistas fazem dinheiro.
Carlão não está estabelecido como ícone de cultura, de certa forma, o mergulho em seu legado e a reverberação de sua obra seguem estando nas mãos de nós que não vamos levantar bandeira na televisão, nem aparecer no Jimmy Kimmel, não usamos black-tie nem pisamos tapetes vermelhos, e se falamos que gostamos de seu filme, até mesmo certas pessoas do cinema torcem o nariz e dizem “Sério mesmo?”. No entanto, se o legado de Carlão é marginalizado, o próprio, como artista, não estava exatamente à margem. Carlão já dispôs de grandes orçamentos que viabilizaram sua visão, possibilitaram tal artesanato meticuloso que o permitiu ser um pintor da vida real, chegou a trabalhar com celebridades como Cauã Reymond e Betty Faria. Tal aspecto de sua obra demonstra o quanto o lugar marginal, para seu autor, não é o do conformismo resignado a uma posição de mártir, de inacabado, é, pelo contrário, uma batalha por espaço, por meios de produção, por público, por distribuição, por realizações materiais, que ao contrário de elucubrações ressentidas, não podem ser apagadas, e por mais que mesmo os envolvidos em seus filmes não se interessem em entendê-los como arte, o interesse de Carlão foi que eles existissem, com toda a estrutura que permitisse com que fossem algo material e não uma ideia, que ocupassem seu lugar à força e não por direito, e que não se esvaísse no vento como os embaraços institucionais que os sufocam.
Villar da Cruz
