Casa de Dinamite, de Kathryn Bigelow
(House of Dynamite, EUA, 2025)

“Cavalheiros, nós não podemos morrer aqui! Essa é a sala de guerra!”

Mais um dia no sistema de operações do Estado americano, atores são muito bem dirigidos com uma câmera naturalista que vai procurando a ação como nas operações ao vivo de um reality show. No departamento de defesa, na casa branca, vários personagens começam e seguem normalmente suas rotinas de trabalho, com um tom cada vez mais invisível de uma direção que é cada vez mais indivisível do sistema em si: o olhar, a motivação da encenação, parece mesclado naquele mundo, em seu funcionamento normal, institucional, do que em filmes como The Hurt Locker. Kathryn Bigelow parece cada vez mais essa senhora americana americanista, tão inseparável de seu lugar institucional quanto uma Kamala Harris.

Bigelow sempre foi uma excelente cineasta, e é interessante notar que rumo toma seu virtuosismo nessa obra. A trama fica nessa superficialidade repetitiva de mostrar, com uma sensação de tempo real, os pormenores do trabalho do bastidores de Estado Americano, a ponto de a sensação ser a de assistir à CNN Ao vivo. A habilidade e sensibilidade da diretora, sua vontade de fazer um grande filme, é toda canalizada para dirigir com esmero cada drama que acontece no caminho, cada coisinha que acontece, cada telefonema da primeira dama para o presidente, cada alma ali envolvida, precisa de um momento para sentir o drama. O drama vai inflacionando, o filme opera tanta dramaturgia por segundo que sobrecarrega, presta tanta atenção a tudo que está vivendo cada personagem que a dramaturgia chega a ser constantemente um obstáculo da trama em si, em vez de enriquecê-la.

Mas tudo isso tem um propósito claro: o filme se propõe como um ansiolítico, todo o suspense se apoia numa resposta simples (‘vai ou não rolar o desastre?’), portanto todo o tempero da direção está justamente no perrengue que é resolver ou não uma mazela institucional. Uma qualidade de ter no comando uma cineasta inteligente e consciente como Kathryn Bigelow é a profundidade com que o filme se envolve naquilo em que acredita. Ao contrário de Clint Eastwood, o filme não quer apontar falhas, fraturas, impasses, ou nós irremediáveis das instituições ou do mundo, o filme aceita mostrar o sistema como dado, e portanto seu sucesso ou fracasso como uma consequência já prevista em suas próprias tabelas. Bigelow não é uma liberal iludida, ela possui um conhecimento honesto das instituições por dentro: muitos personagens possuem diagnósticos bastante lúcidos, muitos pontos cruciais da dramaturgia demonstram a fragilidade de todo o sistema. Bigelow consegue ocupar muito bem o centro do que é a ideologia institucional, inclusive em sua autoconsciência e o melhor de suas intenções. Todo mundo ali está fazendo seu trabalho, e é um trabalho muito bem pensado para ter o melhor resultado.

Quer dizer então que o filme é otimista? Não, o interessante de uma mulher institucional adulta, inteligente, honesta e meio fascista é justamente que ela sabe falar sério. A frase no pôster do filme é “Not if. When.” (a pergunta não é “se”, mas “quando”). Bigelow é obrigada a admitir que existe aí uma ponta solta muito preocupante que o sistema, por sua natureza, é incapaz de arrematar: no fim das contas, ele pode conter danos, mas tais danos são inevitáveis, assim como é inevitável sair caldo de cana de uma moenda, se você está colocando cana na engrenagem.

Aí que a potência do filme vacila. Quer dizer então que todos esses personagens trabalham com algo que invariavelmente vai ocasionar uma emergência dessas, uma situação em que as chances de saírem ilesos ou não provocarem uma guerra é sempre de 50%? Estamos vendo heróis engolirem em seco, percebendo que sua morte está chegando, enquanto o departamento de RH está passando a lista para os mortos, ainda vivos, assinarem? As lágrimas que estamos vendo são as de pessoas que não só, em sua rotina, enxergam vidas humanas como descartáveis, como elas próprias ocupam a heróica (por descartável) posição de ocupar aquele posto até que a próxima bomba caia e entre a próxima equipe de “heróis” descartáveis? Esse é o preço do sustentamento de toda a leve rotina de trabalho que estamos vendo, aliás, é seu objetivo e produto principal.

O que descrevo aqui, afinal, parece a premissa de um filme como Não Olhe Pra Cima (2021), de Adam McKay. A premissa inicial é interessante. E se os trabalhadores da sala de operações de guerra de repente se virem ali no vida ou morte. Óbvio que vão ficar por aí como baratas tontas, cumprindo ou não o seu dever, chorando heroica ou covardemente, segurando a barra ou fazendo cara de cu.

Os dramas são o funcionamento das instituições, levando em conta que seu bom ou mal funcionamento são apenas funcionamentos: sua visão da humanidade de tudo isso fica agora muito presa em todas as armadilhas que se encontra em cada esquina, ou, posto de outra forma, trata-se do problema televisivo, o de ficar acompanhando uma trama razoavelmente quente, que vai esquentando e queimando de mão em mão, podendo ou não alterar o resultado final, que de qualquer forma tem pouco impacto nas nossas emoções além de “Será que vai ou não ser gol”.

O que é morbidamente interessante é ver personagens para quem acreditar ou não, não faz diferença. Eles sabem qual é o seu trabalho e estão na linha de frente para seu sucesso ou fracasso: o objetivo direto de proteger vidas. Esse baile dos trabalhadores alienados, assim feito com tanto carinho por sua humanidade, e com uma trama tão saliente, faz parecer um filme adolescente, cheio de adolescentes muito preocupados com suas situações. É o balé da farsa das instituições, com a beleza de desfilar personagem que não tem alternativa senão investir-se de corpo e alma na fé no que fazem, pois nada podem fazer senão entregar resultados. Fora da consciência da cineasta, tem ali sugerido um sistema em que tudo isso não passa de rotina, não só as mortes dos civis americanos, mas mortes em geral, como as que hoje desastrosamente podem ser do nosso lado por nossa culpa.

Uma comédia de erros niilista sugerida por baixo de um filme pobre e completamente investido na dramaturgia naturalista de um dia dramático na national security? O filme pode ser divertido, se o assistirmos na boa companhia da voz que conversa conosco sobre o quão patético é tudo aquilo que a dramaturgia do filme fala de si, como se fosse Saturday Night Live. Assistamos esse filme imaginando que o tom é o de Não Olhe Pra Cima ou Kaboom (2009). Meu resumo do balaio todo: “Mimimi, Kaboom”.

Afinal, como não ver como uma comédia, ou como ver, como poderia um filme resolver, o que este coloca em sua tagline? “Not If. When.” Em vez da carga da inevitabilidade, que acaba ficando nesse lugar de reportagem alarmista falando que a violência pode se voltar na forma de míssil na sua casa, ficamos com um evento despido de toda a sua dramaticidade, ou seja, um que vai acontecer e acontece de qualquer jeito, e as mortes são, cotidianamente, um cara ou coroa, conforme o filme coloca. Ninguém ali presta, todo mundo é consciente e responsável, todo mundo tem vidas nas mãos, e todo mundo pode morrer sem eu perder o apetite. É triste que o filme não consiga manifestar maior consciência da farsa que está encenando, para além dos letreiros iniciais.

Estamos presenciando o grande circo da catástrofe prenunciada e inevitável, consequência oficial de todo o maquinário humano que estamos vendo funcionar. Tudo de melhor ou de pior que o filme tem vem daí, o cinismo mais ou menos sensível com que orquestra uma grande mise-en-scène de live feed do Pentágono, pode ser mais ou menos defendido conforme formos permissivos com seus problemas centrais, e certamente é um filme que merece e deve ser visto. Assim é: por mais que tropece em frases de efeito que possam gerar boas análises, House of Dynamite, em sua profundidade, não consegue ser mais do que um Dr. Fantástico do Kubrick, despido do cinismo, se fosse dirigido sem qualquer ironia pela Kamala Harris.

Villar da Cruz