Chronovisor, de Kevin Walker e Jack Auen
(EUA, 2026)

Necrovisor

O mundo verdadeiro, alcançável para o sábio, o devoto, o virtuoso – ele vive nele, ele é ele.

(A mais velha forma da ideia, relativamente sagaz, simples, convincente. Paráfrase da tese: “Eu, Platão, sou a verdade”.)

Friedrich Nietzsche no Capítulo IV do livro Crepúsculo dos Ídolos: Como o “mundo verdadeiro” se tornou finalmente fábula.

Hoje tive preguiça de sair da cama. Vi os filmes que tinham sido separados para a Mostra do dia 22 e nenhum era uma obrigação de ser pego pela cobertura. Dei uma descuidada, confesso. Saí movido pelo hábito, pela mecanicidade, e fui correndo até o Espaço de Cinema da Petrobras. Fiquei sentado, mexendo no celular, até encontrar um amigo mostreiro. Perguntei para ele: “onde fica a sala 4 daqui?” (talvez tenha esquecido que os crápulas tiraram o anexo do café Fellini de circulação), quando ele me respondeu com um: “Sala 4 não é aqui” me desesperei e fui correndo até o Cinesystem Frei Caneca. Cheguei ofegante, mostrei minha credencial e fiquei no canto da sala, na primeira fileira, vendo todos os assentos melhores cheios, tomados, enquanto eu estava passivamente pensando sobre estar na sala errada, cerca de nove minutos de distância do shopping onde ficava a sala correta. Um verdadeiro e cretino pateta, um sujeitinho realmente ridículo. Esse era eu com o monitor dando uma breve risada, percebendo que eu vim correndo e cheguei em cima da hora.

I. Barthes chama aquilo que é fotografado de Spectrum. Ele diz que existe algo que existe em toda fotografia: o retorno do morto. Seria o cronovisor apenas uma câmera?

Sentei-me na poltrona, a projeção das legendas eletrônicas, sempre alvo de críticas dos mostreiros, invadiu parte inferior da tela do filme, a projeção parecia estar verticalizada. Enfim, independentemente dessas minúcias, Chronovisor me apresenta uma experiência interessantíssima: o filme relata justamente essa ideia, essa perspectiva da fotografia como atestado do antes que aparece em escritos de Barthes. Para esclarecer onde exatamente quero fazer com que Barthes toque o filme de Kevin Walker e Jack Auen, primeiro devo falar sobre o aparelho chamado de Chronovisor. Esse aparato, na realidade, trata-se de uma espécie de teoria da conspiração fomentada pelo padre Pellegrino Emeti durante as décadas de setenta e oitenta. A história de Emeti é mostrada pelo filme e envolve o Vaticano, a falsificação de provas forjadas para validar uma suposta viagem no tempo e um decreto papal que determina a excomunhão de pessoas que procurem realizar previsões do passado ou do futuro com o uso de aparelhos tecnológicos. Isso fez do Chronovisor um elemento de um certo imaginário tecno-exotérico que move algum interesse dentro de certos círculos acadêmicos ou não. Uma dessas pessoas interessadas no aparato é a insistente e poliglota Béatrice Courte, vivida por Anne Laure Sellier, a quem acompanhamos neste filme.

O “mundo verdadeiro” – uma ideia que para nada mais serve, não mais obriga a nada –, ideia tornada inútil, logo refutada: vamos eliminá-la

(Dia claro; café-da-manhã; retorno do bon sens [bom senso] e da jovialidade; rubor de Platão; algazarra infernal de todos os espíritos livres.)

Friedrich Nietzsche no Capítulo IV do livro Crepúsculo dos Ídolos: Como o “mundo verdadeiro” se tornou finalmente fábula.

O filme se passa, ao menos a princípio, em ambientes fechados e escuros. A cena que abre o filme parece um tanto mundana para uma personagem como Béatrice: ela se encontra sentada numa mesa de bar, bebendo vinho enquanto conversa com colegas de trabalho. Outros acadêmicos debatem sobre autores durante aquela ocasião social. Um monólogo sobre a alma é o que se segue. Os planos, por sua vez, são fechados, próximos demais dos corpos e não costumam enquadrar os rostos dos interlocutores da professora. Na verdade, não existe nenhum outro rosto que aparece em planos frontais gravados diretamente pela câmera de Auen e Walker, as raras exceções a isso aparecem em planos mais abertos onde existe uma certa impossibilidade perante a mise-en-scène de manter a atriz sozinha no plano, e mesmo assim os rostos são presenças mínimas, dispersas, fugazes. Ou então aparecem em arquivos de vídeo, câmeras de baixa resolução, planos “mal filmados” (ou então planos melhor gravados, planos lúdicos, planos atuados) de câmera na mão que escondem a face desses outros personagens.

II. Em suas anotações sobre a fotografia, sua câmera clara ele retoma: “a fotografia é o advento de mim mesmo como o outro”. Graças a fotografia que pudemos ver nas barricadas nas ruas de Paris na primavera dos povos (1948), Barthes pode ver os olhos que viram o imperador na face de Jerônimo. Louis Daguerre fotografou a primeira pessoa, Pellegrino nos deu um retrato de Jesus.

Existe algo nessa atmosfera que me lembra Cronenberg. Excessivamente intimista, sombrio, introspectivo. Mesmo assim, o filme se destaca por uma linguagem de outra ordem. Ao invés de nos colocar para ver Sallier lendo e citando textos, existe uma profusão de fontes: vemos o texto nas páginas dos livros sendo traduzido do italiano, do alemão, do latim. Vemos as telas transmitindo vídeos e textos enquanto não nos relacionamos com ela, mas sim com os documentos e, por um bom e longo momento, o filme abandona a ficção e torna-se, de certa forma, um documentário sobre Pellegrino Emeti, sua máquina e toda a conspiração a envolvendo. A ficção, no entanto, é retomada por meio da boa-fé de Béatrice com o padre. Ela acredita, ela investiga mais a fundo, ela encontra o dispositivo.

Abolimos o mundo verdadeiro: que mundo restou? O aparente, talvez?… Não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente!

(Meio-dia; momento da sombra mais breve; fim do longo erro; apogeu da humanidade; incipit Zaratustra [começa Zaratustra].)

Friedrich Nietzsche no Capítulo IV do livro Crepúsculo dos Ídolos: Como o “mundo verdadeiro” se tornou finalmente fábula.

A parte onde os fatos se misturam, eu, particularmente, não sei exatamente dizer ao leitor. Entretanto, o filme parece adotar uma boa fé absoluta com a história para construir sua ficção: ele fornece uma teoria sobre o sumiço do chronovisor, um motivo para a foto de Jesus ser falsa e, acima de tudo, inventa um efeito colateral do aparelho para corroborar a proibição de uso do mesmo. O mistério se resolve com uma fita, um vídeo e a localização do aparelho. Quando Béatrice finalmente chega no local, ao entrar em contato com o aparelho ela acaba sendo engolida pelas imagens, pelas memórias, pelo atestado da existência do antes. As cenas que antecedem o surto imagético que dissolve a mente de Béatrice são planos abertos, ao ar livre e de dia, isso é, até ela chegar no local onde o dispositivo se encontra, o local onde sua busca continua.

III. Se a fotografia atesta a existência do antes então o cronovisor nada mais é que a abstração máxima do conceito de uma câmera.

A sequência da dissolução da série de imagens vistas no cronovisor são uma imagem ruidosa, um fluxo de granulado que navega pela tela e mistura os diversos vultos que se encontram dentro do aparato de previsão. As imagens se dissolvem, Béatrice se dissolve.

D. A. Soares