Claudia Cardinale fez o mundo ter sentido

Poderia discorrer por parágrafos sobre como Claudia Cardinale é uma atriz deslumbrante, por quase um século desfilando performances de cinestesia única. Ela tornou possíveis obras-primas de Luchino Visconti a Manoel de Oliveira, sendo uma das protagonistas de O Gebo e a Sombra, último longa filmado por Oliveira em 2012. Tal qual este que é talvez o meu cineasta predileto, o talento de Claudia atravessou a história do cinema, contagiou e revolucionou a arte que amamos. Mas falar isso é repetir aquilo que beira o óbvio, mesmo quando incontornável, necessário de se reafirmar.

Queria falar mesmo sobre a minha relação com uma sequência particular, onde a presença de Cardinale me move o mundo. Em 1968, infinitas obras seminais haviam tido sua face. De Visconti, ela estrelou clássicos como Rocco e seus irmãos, e principalmente O Leopardo, onde está fabulosa em cada cena. No currículo carregava também Federico Fellini, estrelando 8 e ½, sem falar em petardos de Mario Monicelli e o meu querido Valerio Zurlini. Em resumo: Claudia Cardinale era, em 1968, uma das faces decisivas do cinema italiano e, consequentemente, pela relevância do cinema local na época, do cinema em si. Não é surpresa quando Sergio Leone a escalou como a mulher que une todos os homens sujos em Era uma vez no oeste. Em tese, ela é uma óbvia escolha.

Jill McBain, a sua personagem no filme de Leone, é a personificação da esperança que atravessa o mundo em formação. Era uma vez no oeste tenta à sua maneira mapear, a partir do nascimento de uma cidade, o conceito de progresso, não exatamente aquilo que vemos como tal em 2025, mas o processo de uma formação de sociedade que tornar-se-ia a Sweet Water. A cidadezinha que Jill construirá seguindo o sonho de seu falecido marido, no sítio onde ele vivia, onde há uma nascente de água e a chegada dos trilhos do trem permitiriam o mundo tocar. Conceitualmente, ela é a mulher-verdadeira. Sua beleza não é nada comparada à sua força. Jill era uma prostituta por quem um viúvo, vivido por Frank Wolff, se apaixona e se casa, antes mesmo dela conhecer sua família e sua pequena fazenda. Antes que Jill possa chegar e iluminar aquele mundo com sua presença, o bando de Henry Fonda assassina o seu marido e todas as crianças, numa sequência cruel. Fonda e seus capangas trabalham para o dono da ferrovia, aquela mesma que chegaria em breve naquele território, com a intenção de anexar aquele ponto estratégico no seu plano de negócios para a nova América.

Então chegam os planos que mobilizam este pequeno artigo. Jill, ou Claudia Cardinale, está chegando na estação de trem de Flagstone, a cidade próxima a Sweet Water, a sua nova morada. Leone orquestra um jogo seguro com maestria, da lente de Tonino Delli Colli à orquestra de Ennio Morricone, tudo se mistura na bruteza do barulho do trem, em meio a uma multidão de trabalhadores, transeuntes e gado, emerge a face e a expressão que representa tudo. É ela. Claudia modifica aquele mundo, a inércia do capital, do comum, da inevitabilidade, tudo aquilo sobre o qual esta obra tanto versa ao narrar o que alguns chamaram de o nascimento do mito-americano. É tudo isso, de fato, mas ali, naquele instante, e em toda a graça, bravura e expressão única que Claudia Cardinale ofereceu a sua Jill, o mundo respira, vive, movimenta-se, ele é real e maravilhoso. Talvez possamos afirmar isso sobre tantos momentos de sua carreira, mas é aquele que ficou comigo.

O épico de Sergio Leone continuou com Jill se equilibrando entre tantos homens, não os manipulando como uma femme fatale, mas os encarando da sua própria e única maneira. Ela terá algum suporte do Harmonica, o misterioso personagem de Charles Bronson, e ocasionalmente de Cheyenne, o carismático criminoso que Jason Robards brilhantemente interpreta. Mas é Jill e apenas ela que terá a coragem real de liderar os operários a construir um novo mundo. Sabemos, por tudo que o filme vive até ali, que é um mundo condenado às pragas naturais da nossa sociedade, tal qual este em que vivemos nos cem anos que se seguem ao período encenado na obra de Leone. Mas um mundo cheio de esperança. Onde a vida passará a existir, uma sociedade possível e cheia de sentidos. Através da força de Claudia.

Guilherme Martins