Diário das Sessões do Comodoro 2.0
O legado de Carlos Reichenbach na cinefilia estende-se para muito além de sua própria filmografia. Carlão curou e realizou, mensalmente entre 2004 e 2012, as Sessões do Comodoro, no CineSesc da Rua Augusta. O espírito arquivista e curioso de Carlão garantiu sessões repletas de filmes tanto canônicos, a minoria, quanto raríssimos, mas sempre perturbadores e/ou ignóbeis¹. Cinema extremo dos mais diversos países, décadas, movimentos e autores.
Durante todos esses anos, uma certa cinefilia paulistana engajada teve a oportunidade de ver, em uma das maiores telas da cidade, filmes pouquíssimo exibidos, dotados de muita força imagética. Takashi Miike, Dario Argento, Mario Bava, Jean-Claude Brisseau, Lucio Fulci, Roger Corman – esses autores populares entre os cinéfilos eram colocados em pé de igualdade com diretores menos reconhecidos como Anthony Hickox.
Canibal Holocausto de Ruggero Deodato foi o primeiro filme exibido, em sessão histórica. Banho de Sangue, de Mario Bava, foi o último. As sessões originais se encerraram com a passagem de Carlão em 2012.
Em 2024, porém, uma novidade – Leopoldo Tauffenbach, assistente de Carlão e co-produtor de muitas das Sessões do Comodoro, tinha em mãos uma lista com quase dois anos de programação – os planos nunca concretizados do Carlão para os meses seguintes do Comodoro. Em parceria com o novo bar-museu Soberano, surgiu a oportunidade perfeita para uma nova cinefilia assistir aos filmes curados por Carlão, sempre na última sexta-feira de cada mês – as Sessões estão em pleno vapor, e acontecem no mesmo lugar que já foi ponto de encontro central das figuras do cinema da Boca do Lixo.
As duas primeiras sessões foram, na realidade, meras homenagens (não haviam sido originalmente programadas por Carlão) – duas cópias lindas e desbotadas em 16mm de A Dama da Zona, o filme rosselliniano de Ody Fraga, e de Ilha dos Prazeres Proibidos, o filme do próprio Carlão que nos ensina que a gênese do fascismo está na negação do prazer. Em 2025, a curadoria original começou a ser exibida efetivamente – Papaya, de Joe D’Amato, abriu os trabalhos. Segue uma pílula para cada filme exibido até agora.
PAPAYA: LOVE GODDESS OF THE CANNIBALS (Itália, 1978), de Joe D’Amato
As cenas violentas não ficam muito atrás de um Fulci, as cenas eróticas não ficam devendo para um Reichenbach. Papaya, a deusa devoradora de homens, primeiro escraviza espiritualmente e depois aniquila os colonialistas que pretendem construir uma usina nuclear em seu paraíso caribenho idílico. A melhor sequência acompanha a gradual sedução do ingênuo casal europeu, que segue Papaya primeiro por um festival de rua tradicional e depois por uma cidade fantasma desoladora, chegando por fim ao centro de um pequeno ritual que torna indissociável a violência da antropofagia com uma sensualidade estonteante. (LUCAS BUENO)
GOZU (Japão, 2003), de Takashi Miike
Há tantas imagens bizarras e horror freudiano em Gozu, que não deixa de ser surpreendente que o que mais nos impressionou no filme foi seu aspecto dramatúrgico mais singelo – a sugestão paciente e delicada do romance. Tudo começa como em um filme Yakuza tradicional – quando o comparsa supostamente morto de Minami desaparece, o protagonista sai em busca do corpo e acaba parando em uma estranha hospedaria, onde as mais tenebrosas imagens irão se materializar lentamente. A busca, porém, é interrompida quando uma mulher surge subitamente e afirma ser o Yakuza desaparecido – e tudo indica que ela realmente o é. Nada é completamente explicado, mas Minami, ainda virgem, começa a desenvolver sentimentos de paixão e fascínio erótico irresistíveis por quem ele acredita que já foi seu comparsa. Takashi Miike é veterano da Sessão do Comodoro, seus Visitor Q e Audition haviam sido exibidos, e é um dos exemplos de cineastas extremos que interessaram Carlão e a todos os cinéfilos de verdade. (L.B.)
ARREBATO (Espanha, 1979), de Iván Zulueta
Acredito no poder do arrebatamento pelas imagens e esse filme trata do tema sem pudor e sem idealizações cafonas. Pelo contrário, a abordagem adotada é a mais junkie possível. A obsessão com a imagem cinematográfica é colocada num lugar violento, onde o belo, o abjeto e o patético não raro se misturam. Muito humor, clima rebordose e um trabalho plástico fenomenal, onde a força bruta das imagens carrega todo o suspense. Iván Zulueta pertencia ao grupo artístico de onde surgiu Almodóvar (e chegou a desenhar alguns dos pôsteres do colega), mas prefere o caminho da entrega completa ao êxtase da heroína como parte integral de sua dramaturgia. (L.B.)
THE AMAZING MR. X (EUA, 1948), de Bernard Vorhaus
Mr. X transita entre a crença em imagens de fato fantasmagóricas (esse filme B americano de 1948 é repleto de composições surpreendentemente belas) e o puro cinismo do roteiro – o contraste é o segredo da mágica. A farsa e os truques são, como sabemos, essenciais ao cinema – e aqui são parte do dispositivo narrativo. Um vigarista passa a enganar uma viúva rica, deixando-a acreditar em seus poderes místicos e na possibilidade de algum contato com o falecido esposo. Acontece que, imediatamente após sugerir a possibilidade do sobrenatural, o filme não faz questão alguma de manter aberta a porta do mistério: a casa do vigarista é repleta de truques que não deixam dúvida alguma sobre seu caráter e, ao mesmo tempo, explicam seus poderes. A partir daí, a trama segue por caminhos inesperados. Há momentos nos quais o fogo fica baixo demais, mas as belíssimas imagens que surgem de tempos em tempos fazem com que o saldo seja positivo. (L.B.)
O LADO OBSCURO DO CORAÇÃO (El Lado Oscuro del Corazón, Argentina, 1992), de Eliseo Subiela
Premiado por Carlão no festival de Gramado, essa pérola argentina é repleta de momentos que poderiam estar em Alma Corsária, lançado um ano depois. A morte representada como a presença esporádica de uma mulher vestindo preto e que acompanha o protagonista ao longo do filme é uma das semelhanças mais evidentes entre O Lado Obscuro do Coração e a obra prima de Carlão. Podemos ir além: frustrações amorosas da vida inteira de um poeta pretensioso porém sensível compartilham com Alma Corsária muito da estética, as luzes extravagantes, por exemplo, e do seu ritmo. São filmes sobre tensão e relaxamento, intensamente musicais. Alma Corsária é mais maduro, mas soluções brilhantes não faltam no filme de Subiela. O elenco de apoio, de forte veia cômica, é um dos destaques. (L.B.)
NECROMENTIA (EUA, 2009), de Pearry Reginald Teo
Terror B americano, Necromentia é um exercício de atmosfera e de imagens perturbadoras. Estruturalmente, Necromentia apresenta três episódios similares, mas que ocorrem em ordem inversa. Assim, a cada novo episódio, as lacunas vão sendo preenchidas e o todo – que é decepcionante – vai se desenhando. Demônios vingativos, um purgatório industrial, delírios suicidas manifestados com uma entidade grotesca e inexplicável com cara de porco, um homem pago para retalhar suas clientes em sessões sadomasoquistas. Necromentia tem ótimas imagens, mas algumas performances lamentáveis e o ímpeto de priorizar o jogo narrativo enfraquecem o filme. Seria exibido na sessão do Comodoro da semana seguinte à data da morte de Carlão, que interrompeu o projeto e o adiou em anos para a versão renovada do Comodoro. (L.B.)
O HORROR DOS HOMENS DEFORMADOS (江戸川乱歩全集 恐怖奇形人間, Japão, 1969), de Teruo Ishii
Cinema extremo japonês sempre teve um espaço considerável na programação das Sessões do Comodoro, e o mistério cômico escrito por Edogawa Rampo dá continuidade à tradição. Um homem confuso sobre sua própria origem está trancafiado em um hospício. Ele consegue fugir e, ao seguir as poucas pistas disponíveis sobre sua própria origem, passa a viver como sósia de um homem que supostamente havia morrido, mas que, aos olhos da família deslumbrada do falecido, parece agora ter miraculosamente voltado à vida. Ao seguir mais pistas, ele acaba se deparando com uma ilha na qual o antigo patriarca da família (interpretado pelo bailarino contemporâneo Tatsumi Hijikata) vive isolado em meio a diversas pessoas deformadas em estado de eterna performance, um projeto pessoal de uma verdadeira ilha de aberrações (e na qual o patriarca se comporta como um dançante Dr.Frankenstein). As bizarrices visuais da ilha podem decepcionar pelo caráter surpreendentemente contido, mas o timing de Teruo Ishii nos momentos cômicos é impagável. Nos quinze minutos finais, o filme descarrila completamente – o que é deveras bem-vindo. As pontas soltas do mistério das origens do protagonista são amarradas da maneira mais picareta possível, e não ousamos falar da última cena por receio de estragar a surpresa – basta dizer que durante a sessão, Leopoldo Tauffenbach desafiou a plateia a mencionar um final de filme melhor que aquele (e, de fato, não houve resposta). (L.B.)
HATED: G.G. ALLIN AND THE MURDER JUNKIES (EUA, 1993), de Todd Phillips
Documentários não eram discriminados nas sessões do Comodoro, e Hated: GG Allin and the Murder Junkies, primeiro filme de Todd Phillips (que continuaria lidando com losers ao longo de sua carreira, em suas comédias sobre solteirões ou nos dois filmes recentes do Coringa), se encaixa perfeitamente nas preferências de Carlão por Cinema Extremo. O mais notável do documentário é sua generosidade com a figura de G.G Allin, o controverso artista punk que gostava de se lambuzar com as próprias fezes no palco e agredir suas fãs. O olhar de Todd Phillips preza pela nuance: há um fascínio sincero pela figura de GG Allin, espaço para distanciamento crítico (personificado no ex-membro da banda, que entende que GG Allin faz uma vulgata desinteressante e infantil do punk), alguma troça com os fãs do artista e mais zoação ainda com os caretas que não entendem de nada disso. Se GG Allin, no seu pior, não fazia muito mais do que uma autofagia infantil travestida de subversão, Todd Phillips evita o olhar exotizante e prefere a aproximação cautelosa, mas curiosa e sincera. É um documentário abrangente, simples na forma, e que não se preocupa em martelar moralismos, apenas em deixar claro diversos pontos de vista sobre os Murder Junkies. (L.B.)
LA SEMANA DEL ASESINO (Espanha, 1972), de Eloy de La Iglesia
A sessão de dezembro marca a volta de um hiato de dois meses das sessões no Soberano. O filme da vez contou com um certo grau de exclusividade: a cópia contém dez minutos extras do filme La Semana del Asesino de Eloy de la Iglesia. O filme nos fascina com a figura do operário Marcos (Vincent Parra) e seus assassinatos cometidos ao longo dos sete dias na semana, eliminando as pessoas próximas de si até terminar sozinho e recluso em sua casa. Esse sentimento de um afastamento social criado por esse exemplar do cine quinqui (kink) espanhol reflete o retrato social de uma Espanha de um franquismo minguante em uma Espanha setentista se reflete na atmosfera de uma perseguição moral que permeia o filme: a presença da polícia durante as noites, sempre vigilante: não aos crimes, mas às pessoas. O início da sequência que encerra o filme, pedido da censura do governo franquista, mostra Marcos sozinho em sua casa, localizada em um terreno cercado de apartamentos. Atrás dele sua casa está repleta de corpos, intragável com o cheiro da morte enquanto é encarado pelo amigo e vizinho, personagem com quem nutre certa tensão sexual, o roteirista Néstor (Eusébio Poncela), que o observa da janela de seu apartamento com as mais interessantes pretensões hitchcockianas. (D. A. Soares)
¹ referência a uma das muitas listas organizadas por Carlão na internet que serviram de guia para os curiosos, esta mais especificamente na coluna Cartas do Reichenbomber
