Corrida em Busca do Amor, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 1972)

O roteiro, de Carlos Reichenbach e Jairo Ferreira, foi alvo de diversas alterações em paralelo ao processo de realização do filme, parte disso se deve ao fato de que Corrida em Busca do Amor tinha tudo para ser uma alternativa aos filmes de Roberto Carlos dirigidos pelo diretor Roberto Farias. O filme, inicialmente, contaria com a participação de Ronnie Von, que já havia marcado sua presença atuando para cinema com Garota de Ipanema (1968) e mais tarde, lançado no final de 72, o filme Janaína – A Virgem Proibida (1972), dirigido por Oliver Perroy. O fato que consuma esse filme como uma quase concorrência aos filmes de Roberto Farias vem simplesmente da falta de Ronnie Von nas uma hora, trinta e dois minutos e dois segundos de filme. A falta de Ronnie Von macula a estreia de Carlão no cinema da Boca: a troca de Ronnie Von por David Cardoso precede a troca de Cavaleiro de Aruanda pela trilha sonora de O Desprezo de Godard. Essa virada de acontecimentos vinda logo da pré-produção do filme acaba por ressaltar o que é de mais interessante impresso na película, uma espécie de caoticidade que torna um filme de um galante David Cardoso, chamado às pressas para protagonizar o filme, correndo por seu amor conivente a uma comédia do absurdo que põe o corpo em crise de forma quase que cartunesca.

Em seu texto sobre o filme, Jairo Ferreira que foi assistente de direção, co-roteirista, fotógrafo de still e ator, se focou em falar sobre os atritos com os produtores e os dilemas da produção cinematográfica de sua época, a conclusão de Jairo sobre esses diversos fatores externos é o que resulta naquilo que de fato acaba interessando em falar sobre o filme agora, cerca de quarenta e seis anos depois: a narrativa forçadamente anti-linear. O filme, em seus muitos detalhes, ganha uma licença para a transgressão justificada pela carência material dos recursos postos para a produção. A opção de abandonar o enfoque em David Cardoso no meio do filme, e por consequência a trama de triângulo amoroso que existe dentro do filme, acaba por resultar em um filme que acontece aquém de seu protagonista. A narrativa desapegada permite que o filme explore as absurdas premissas dentro do filme: seja o personagem de Jairo Ferreira, figura excêntrica que aparece na beira da estrada e é assaltado pelos corredores que pegam sua comida, o cientista maluco Tito Ivan com seu carro rápido para burro e suas pílulas da velocidade, personagem atuado pelo próprio Carlão, e até mesmo a presença de diversas gags ou as acrobacias com os carros ao longo do trajeto da corrida. A forma como a trama, ou melhor, a dramaturgia é conduzida vem de um escalonamento entre os absurdos de dentro da corrida: seja a pílula de velocidade, as colisões dos carros ou as manobras absurdas, o filme muda como da água para o vinho, em seus instantes finais o romance é jogado para escanteio aos poucos até que se prevaleça a excentricidade do absurdo, a dialética da precariedade, dos loucos, dos carros de cena improvisados e dos atores chamados de última hora.

O roteiro, que consegue ir além da trama de um triângulo amoroso, mostra um trançado de tramas românticas, da talaricagem ao flerte. Esses personagens, que frequentemente competem pelos parceiros e parceiras uns dos outros, ativamente ou não, acabam tecendo os conflitos dentro do filme. O roteiro varia entre uma fisicalidade do absurdo ou uma trama de amor envolvendo as rivalidades amorosas desse grupo de amigos que se consuma em um final de filme americano (onde tudo acaba bem). O final do filme, que mostra os “quatro diferentes finais”, todos eles conduzidos por um repórter e as cartelas que indicam os quatro diferentes finais. O filme em que tudo dá certo no final é o filme que termina com todo o núcleo principal junto a seus pares românticos.

D. A. Soares