Os curtas de Carlos Reichenbach:

Desordem em Progresso
(Brasil/Argentina/Holanda, 1990)

Olhar e Sensação
(Brasil, 1994)

Equilíbrio e Graça
(Brasil, 2002)

Os curtas de Carlão têm uma amostra de potência à parte. Com certa tranquilidade, podemos colocar os curta-metragens como um formato por vezes menosprezado pelo grosso do público, não apenas o grande público, mas por parte de um público cinéfilo, entretanto, mesmo em um formato bem menos genioso, diversos autores brasileiros conseguem um certo destaque, um brilhantismo ímpar frente ao formato. Com o que convencionalmente chamamos de Cinema Marginal, temos filmes como Documentário, de Rogério Sganzerla, Blá Blá Blá, de Andrea Tonacci e os muitos curtas de invenção, rodados em Super-8 de Jairo Ferreira como O Ataque das Araras e Ecos Caóticos. O ponto de ressaltar esses realizadores em específico não vem de ressaltar a primazia do formato dos curtas para realizadores do nosso cinema nacional, uma vez que os curta-metragens têm um brilho à parte compartilhado por realizadores ao longo do mundo, mas se encontra na intenção de introduzir ao texto a potência do curta-metragem para a obra de um autor, filmes curtos mas jamais menores. Este texto procura continuar a cobrir essa parte da obra de Carlão, com curtas análises, mas não menores análises, de três de seus curtas, produzidos durante o intervalo dos anos noventa até os anos dois mil.

Desordem em Progresso é o primeiro objeto de análise deste ensaio. Gosto de pensar em Desordem em Progresso como uma espécie de continuação de Sangue Corsário (1979). O curta, na verdade, é uma fração do filme City Life, filme que reúne diferentes cineastas para filmar a vida na cidade. A colaboração de Carlão para esse filme é Desordem em Progresso, curta-metragem de seus vinte e um minutos que nos apresenta a cidade de São Paulo pelo conflito entre a alma corsária de seus personagens e o ambiente que os faz podar seus sonhos e ambições em prol de um realismo cruel. Os quatro protagonistas, homens de origem proletária, vivem sua desilusão na periferia de São Paulo enquanto sonham em alcançar a estabilidade financeira e espaço para dar voz a suas pretensões artísticas. O primeiro plano abre as questões que mais interessam referentes ao filme: o Titanic afundando no rio deixa clara a relação da performance com o retrato traçado sobre a cidade.

A performance, na verdade, acaba ganhando espaço de tema central da primeira sequência do filme, com um dos nossos protagonistas sendo apresentado como assistente de produção em um set de filmagem, que acaba por introduzir o carro de produção do filme: um belíssimo Gurgel X-12 que acompanha os quatro rapazes que, em conjunto, nos apresentam esse clima urbano e desesperançoso presente em São Paulo. Ao longo do curta, esses mesmos rapazes que transitam pela cidade são investigados em uma espécie de documentário que nos mostra suas pretensões com a vida da cidade. Seus sonhos e vontades são podados pelos espaços de trabalho, pelos familiares, pelos cônjuges e pela própria cidade, que os joga para longe do centro. As cenas do carro percorrendo a marginal com os prédios se erguendo às margens do rio, com quase nenhuma presença humana, são planos compostos com grande sucesso quando pensamos numa certa desolação trazida pelo filme. Mediante o abandono da cidade, esses quatro protagonistas se juntam e performam, e assim saem da margem para o centro: em um belíssimo plano sequência no minhocão, passam as roupas uns para os outros e se vestem dentro do carro, performam os Yuppies para ocupar os espaços negados a eles dentro da cidade. No fim, quem não pode, performa e quem performa não pode. Ou seria melhor dizer que: Quem não pode, pode. Quem pode, não pode.

Olhar e Sensação foi meu primeiro filme do Carlão. Parte disso se deve ao fato de a cópia do filme se encontrar no mesmo arquivo de Filme Demência, esse o que de fato eu desejava ver. Dito isso, Olhar e Sensação foi uma surpresa mais que agradável e, revendo agora para escrever sobre o filme, tenho a chance de esmiuçá-lo em busca de um esclarecimento que não tive das primeiras vezes em que o vi. O filme se aproxima com força do cinema estrutural, filmando as ruas, os terraços, acompanhando o fluxo dos movimentos dos carros e parando para observar os animais em suas jaulas no zoológico. O rinoceronte ferido, machucado, rodeado de água e de moscas, ou o tigre andando de um lado para o outro no recinto apertado, na verdade, nos trazem um certo mistério que nos é acompanhado pelos sons ambientes e a trilha, composição do próprio Carlão, trazem essa sensação de suspense, um mecanismo que pára e avança ao longo do filme em igual medida enquanto se mescla com os diversos sons que permeiam a cidade, projetam o início de um mergulho dentro dos mistérios da vida de certa forma. Essa atmosfera ressaltada por essa espécie de contraponto, ora da investigação dos animais, da vida selvagem, e outrora se trata de uma investigação dos prédios, do monumento, acaba por culminar na leitura de um trecho do livro La Conscienzia di Zeno do escritor italiano Italo Svevo. Se o livro do italiano se propõe a ser uma investigação da vida de um homem, sobretudo sua infância, uma rememoração daquilo que um dia ele já foi, Desordem em Progresso aparenta seguir para um caminho menos contido da reflexão sobre o tempo em movimento, ou o movimento do tempo (ou quem sabe o movimento em tempo). O trecho do livro, lido pela narração, evoca a ideia de um retorno necessário para que se encontre um entendimento fatal: estamos todos presos pela ação do tempo.

Equilíbrio e Graça começa o encontro entre o ocidente e o oriente naquilo que possivelmente os une: o mundo enlouquecido à sua volta, a impermanência das coisas e das ilusões dos homens. A conversa entre os dois estudiosos, um católico e outro zen budista, busca-se no paralelo da correspondência entre seus diferentes sistemas métricos de crença, cultura e sociedade, de certa forma se encontra na distinção entre o equilíbrio buscado pelo Zen Budismo e a graça buscada pelo cristianos.

Essas duas forças são usadas pelo filme para deixar o mundo em crise: as ondas do mar, as ervas do chá, a orquestra, a música, o corpo e a dança. Essa relação vai para além dos personagens, do diálogo que dá abertura para o filme, mas também da narração que procura demarcar por muito bem os textos que convergem essas duas visões de mundo. A lógica bipolar entre oriente e ocidente é posta em crise quando o formato do filme prega a união dessas duas perspectivas guiadas pela mesma lógica, mesma finalidade: ou seja, a investigação da relação de equilíbrio e graça é a investigação do mundo, é a adoção do diretor como místico, o oposto do fanático. As imagens mostradas pelo filme, das quais pouco interessa falar sobre plasticidade, são o que poderíamos chamar de essencialmente bonitas: as plantas, os campos verdejantes, os animais, o pôr do Sol, o nascer do Sol, o crepúsculo, o mundo tão somente como ele é e como sempre está: em movimento, entre a graça e o equilíbrio, ou melhor, graciosamente equilibrado, esse mundo enlouquecido pela impermanência das coisas e as ilusões dos homens, ou melhor, esse mundo que graças a isso pode se produzir com alguma beleza monumental, natural e artística.

D. A. Soares