Curtas de Carlos Reichenbach:
Essa Rua Tão Augusta
(Brasil, 1969)
O M da Minha Mão
(Brasil, 1979)
Sangue Corsário
(Brasil, 1979)

1
O primeiro trabalho de Carlão Reichenbach como realizador é modesto: o subtítulo esquecido do filme é, afinal, ‘Pequena Introdução ao Mundo do Homem Augustiniense’. Apesar de não ter o mesmo peso de curtas iniciantes de alguns diretores contemporâneos de Carlão (tanto Documentário, de Sganzerla, quanto Olho por Olho, de Tonacci, são praticamente manifestos formais e sínteses perfeitas do período inicial de seus realizadores), algo do que interessa o diretor ao longo de sua filmografia está posto aqui, de maneira frontal – o espaço urbano. Mais especificamente, as mudanças do espaço urbano ao longo do tempo e o efeito de turbilhão que elas exercem sobre quem habita esse espaço. Como se trata de um documentário, as observações de Carlão sobre a Rua Augusta não estão incorporadas em dramaturgia, mas articuladas diretamente, seja no poema em off, no puro registro do movimento urbano, ou na contraposição dos dois recursos.
Essa Rua Tão Augusta parece, à primeira vista, uma simples reportagem tomada pelo cinismo completo com seu objeto, por um deboche irresistível com um certo paulistano consumista e posudo. Mas Carlão não se contenta em apenas rir dos diversos tipos de pessoas que frequentam a Rua Augusta, seus muitos bares, cafés, lojas, galerias e baladas. Mesmo onde o sarcasmo reina, há um interesse genuíno pela iconografia da Rua Augusta, pelos flâneurs excêntricos que desfrutam daquele espaço e, por fim, pelo rascunho de um estudo genuinamente antropológico.
Muito do filme é puro registro – de fachadas, vitrines, pessoas, roupas, trânsito, boates. “Cuidado com as curvas”, declama o narrador, enquanto a câmera se aproxima, picareta, da figura de uma mulher. Passa a destacar o crescimento desenfreado das empreitadas comerciais citando ad nauseum diversos produtos importados que podem ser encontrados na rua, enquanto a câmera passeia pelas galerias. Por fim, o próprio poema está desnorteado pela movimentada rua Augusta: “Esta rua tão noturna, tão risonha, tão levada, pulhenta!”
Os versos brincalhões são charmosos e as imagens captadas formam um belo retrato da época, mas o fio condutor de tudo isso, e o que faz de Essa Rua Tão Augusta um bom filme, é a figura do pintor Waldomiro de Deus. Trata-se do único personagem que aparece mais de uma vez no curta, primeiramente saindo de sua casa e segurando diversas telas. A voz em off declama: “Esta rua tão comércio”. Mais tarde, vemos Waldomiro apresentando suas obras para umas garotas, possivelmente suas amigas. Ele carrega telas de um lado para o outro, sem sucesso – “Esta rua indiferente à pintura do pintor”, afirma o narrador. Por fim, vemos Waldomiro sentado no meio fio, enquanto ouvimos “em 15 de junho, de 1969, Waldomiro de Deus viajou para a Europa, levando como bagagem sua pintura irreverente”. O filme termina assim, em uma nota surpreendentemente emocionante e rica.
Carlão iniciou as filmagens de Esta Rua Tão Augusta em 1965, mas terminou de montar o filme somente em 1969, com o auxílio do Prêmio Estímulo. A migração de Waldomiro deu, portanto, a oportunidade perfeita para Carlão montar um filme que ia muito além do que ele havia originalmente planejado. Esta Rua Tão Augusta tornou-se mais do que um estudo iconográfico cínico ou um exercício lúdico de observação antropológica: é um filme sobre a arte marginal, que tenta resistir, sem sucesso, à uma brutal sociedade de consumo. Enquanto, na Rua Augusta, a vida noturna ebulia e o comércio crescia, o artista era sufocado pelo movimento das coisas – e não havia como ser diferente.
2
O M da Minha Mão é o curta mais convencional assinado por Carlão, idealizado com seu amigo Jairo Ferreira. Novamente, ele lida com um artista, dessa vez como figura central inserida na cidade, na região de Santo Amaro, e não como um elemento entre muitos a serem observados no espaço urbano, como foi o caso em Esta Rua Tão Augusta. Mário Gennari Filho toca seu acordeon e responde a perguntas de Carlão, que se atém exclusivamente à música, sem se preocupar com detalhes biográficos ou qualquer tentativa de perfilamento. O que há de mais interessante é a negativa de Gennari Filho para algumas das questões colocadas por Carlão, que tenta associar algumas das composições autorais à paisagem periférica de São Paulo. Gennari Filho responde: “Eu acho que não, viu?”. Carlão aceita a resposta como palavra final, mas não sem antes incluir na montagem diversas panorâmicas exibindo os subúrbios paulistanos ao som das obras do compositor.
A passagem do tempo é tema recorrente nesses curtas-metragens – dessa vez, o artista está plenamente consciente de que o som do acordeon deixou de ter algum protagonismo na cena cultural jovem há mais ou menos uns 15 anos, ou seja, meados dos anos 60. Ele, porém, não se lamenta, e enxerga espaço para o retorno do instrumento em meio às experimentações sonoras da década que se aproxima. Além disso, Gennari Filho não recusa de maneira alguma a modernidade e os novos sons, reconhece a beleza do órgão eletrônico atual e se põe a tocar uma de suas composições no instrumento. Logo em seguida, ele continua com o instrumento durante uma bela performance de O Bêbado e o Equilibrista (de João Bosco e Aldir Blanc) acompanhado de banda, com o doce e doloroso verso “tem que continuar” encerrando o filme.
3
Sangue Corsário permanece sendo um dos melhores trabalhos de Carlão, rivalizando com muitos de seus longa-metragens. É uma potente declaração de princípios, além de um prenúncio de muito do que estava por vir. Do ponto de vista plástico, o curta se assemelha mais a Alma Corsária e a Filme Demência do que seus antecessores ou mesmo sucessores imediatos. Se nos outros dois curtas que abordamos aqui os elementos mais característicos do cinema de Carlão estão articulados de maneira quase germinal, a extravagância estética de Sangue Corsário vai pelo caminho contrário, com muitos desses mesmos elementos atingindo um ápice. Trata-se de uma súmula, a condensação de toda uma filosofia de vida em 10 minutos de filme, a conquista definitiva de um estilo apurado por parte de seu realizador.
Como em Essa Rua Tão Augusta e O M da Minha Mão, a figura do artista tem protagonismo. Orlando Parolini foi um importante poeta paulistano, uma das encarnações mais completas do que é a ‘contracultura’. O cinema japonês foi o que uniu primeiramente o poeta, Jairo Ferreira e Carlos Reichenbach. Mais tarde, ele seria imortalizado em diversos filmes de Carlão (e em Vampiro da Cinemateca, de Jairo), não raro como poeta/profeta, uma figura que paira acima de todos. Se nos outros filmes os artistas estão subjugados ao movimento do urbano, o poeta Parolini em Sangue Corsário conquista a cidade – a contramão é sua vitória. Ele declama seus poemas firmemente, reivindicando para si a imponência da própria cidade em contraplongées íngremes que a arquitetura e a topografia de São Paulo parecem exigir no cinema de Carlão.
Logo mais, uma figura se contrapõe a ele: Roberto Miranda, fiel ator de Carlão, desta vez interpretando um bancário. Ele se anima com a presença do poeta, figura essencial para sua juventude, descrevendo-o como o antigo Rimbaud da Galeria Metrópole (que, inclusive, é o local onde se dá o encontro entre os dois homens). “Você deflagrou a minha loucura, quando meu sangue ainda era corsário”, diz o bancário, enquanto relembra com entusiasmo dos tempos passados, da psicodelia sessentista, dos agitos culturais, dos diversos poetas que conheceu graças a Parolini. A montagem alterna entre os elogios que o bancário tece ao poeta, que se mantém silencioso diante do antigo conhecido, e as declamações furiosas feitas pelo poeta solitário, transitando pela praça da república, pelo antigo elevado Costa e Silva, pela galeria Metrópole e pelo viaduto do Chá.
Os poemas vão ficando mais sombrios, mais guturais. Enquanto Roberto Miranda segue rasgando seda para o profeta e comemorando a vanguarda marginal que ele representou, Parolini lamenta sua geração perdida, chora seus arrependimentos e toma para si a dor do próprio movimento do mundo. O bancário segue falando das experimentações artísticas do poeta, que subitamente o interrompe pela primeira e única vez: “Eu fiz tudo isso que você falou. E daí? O importante não é o que eu fiz, é o que deixei de fazer e o que ainda está para ser feito”.
Depois do corte do poeta, o bancário não parece se abalar, mas percebe que está na hora de voltar para o trabalho. “Sabe como é, né? Já tive meu tempo de pirata. Hoje sou um bancário exemplar. Tem que comer, né, pô? Casei, tenho família. Não dá pra pensar mais em arte não”, diz o bancário, enquanto o poeta segue em frente e se perde em meio ao movimento do Largo do Paissandú, deixando seu conhecido para trás. Tudo fica claro nessa cena – a idealização do poeta pelo bancário é indissociável de uma superação do passado vanguardista, de uma aceitação da normalidade de uma vida liberal convencional, da ausência de sangue corsário. Não há, para ele, qualquer arrependimento: a nota triste que encerra o curta tem a ver com a adesão cega do bancário à vida pequeno-burguesa, com a escolha consciente de não enxergar as coisas como elas são, com o esvaziamento de tudo o que ele viveu junto do poeta.
Tentei aqui identificar alguns pontos de contato entre os três curtas – o foco no artista, a indelével passagem no tempo, o interesse pela paisagem urbana e suas mudanças. Cada filme articula esses elementos entre si de maneira distinta, com diferentes graus de importância. É natural, porém, ver em Sangue Corsário uma espécie de culminação. Além de se tratar de um filme superior aos outros dois em praticamente todos os níveis, desde a maturação do tema até o trabalho plástico, é também o único no qual o artista domina o próprio espaço, dita o ritmo da própria mise en scène. O poeta de Parolini anda na contramão do fluxo do Viaduto do Chá, segue em frente e deixa o bancário para trás, ou, no início, observa o banqueiro de cima da Galeria Metrópole, consciente das diferenças entre os dois antes mesmo de concretizar este encontro. Assim como o poeta conquista o espaço, a câmera de Carlão parece dominar a cidade como nunca antes, para discorrer sobre todo um processo histórico com um poder de síntese único.
Lucas Bueno
