How I remembered them, not necessarily how it happened. – Lost Highway

Estranho.

Estranho seria se não fosse assim, exatamente desse jeito.
Orelha decepada e
num sussurro
Sensual como suicídio
Sensível como perdão
Dá pra sentir o ritmo
do veludo,
azul e roxo
num tapa erótico e
com os dentes à flor da pele
cravar o sonho na carne
Mundana
Humana
Imunda

It’s something that’s human, and you can’t stay away from it

Quando Lynch foi fazer um filme “clássico”, se jogou no Homem Elefante não só como filme, mas como figura. A grande testemunha anti-bressoniana. O homem elefante que todos tocam e nunca da mesma forma, quase um chiste melancólico do provérbio chinês. E da mesma natureza que sua frequente e formativa dualidade, esse filme sóbrio nasceu do berço da comédia de Mel Brooks, que viu no bebê doente de Eraserhead um espírito iluminado. Atormentado de prazer. Parece que, já de início, tudo que se desenha por mais clássico em Lynch sempre vem de dentro da diegese. No objeto do Homem Elefante. Ali dá pra ver sua própria figura, mística na sua humanidade. Desenha ela nos contornos da não conformidade. Do não assimilado. Do espírito do homem que ainda tem a dignidade do animal: de sentir.

Espírito gigante de Homem Elefante

Nele, o drama de seu Sísifo é não poder dormir. Sonha em sonhar. A conclusão óbvia, a qual só uma criança poderia ter a honestidade de chegar, de que no final, entre viver um pesadelo e morrer um sonho, no segundo se goza, regozija e descansa. A cabeça finalmente explode para o Real, tão real quanto o quadro de alguém que dorme, pendurado na parede. Tão real quanto a representação e a projeção.


E o clássico morre no sonho.
E morre para o sonho

Quando seu espírito livre, não assimilado pela mediocridade e pela atrofia do racional, tomava conta por completo da estética do filme, de toda a mise en scène, a coisa vira Twin Peaks. Vira Lost Highway. E também Straight Story e Ghost of Love. Ele assume a identidade e o poder da diegese, além de seu alter ego in lo(u)co (de Jack Nance a Maclachlan e Pullman) e o que acontece é o peso de uma tonelada dos dedos de Patricia Arquette tocando suas costas no gesto insuportavelmente doloroso da indiferença. Aqui, agora, tudo é diferente. Todo passo é de elefante. Todo sentimento, oceânico.

Também porque, de tudo que constrói, o que mais impressiona é como sempre tentou ser direto. A dificuldade de “traduzir” o que se passa tem mais a ver com uma forma truncada de pensar, se aproximar e afastar das coisas. Desde Eraserhead até o retorno à Twin Peaks, sua confiança nos caminhos das sensações foi o que mais permaneceu inabalado. Lynch sempre teve como musa a clareza dos sentimentos e dos sentidos. É quase automático o seu olhar nesse sentido, não por impensado, mas pela sua confiança de que os sentimentos não mentem. Não podem mentir. E que modo mais contundente de assinalar tudo isso do que The Straight Story? Não é óbvio que a estrada reta é na verdade sobre os desvios?

Sua abordagem, portanto, nunca teve nada a ver com dificultar a compreensão, a não ser quando por via de seu humor. Era da comédia que Lynch tirava tudo que era propriamente malandro, provocador e obtuso em seu trabalho. De onde o jazz ganhava o seu prazer jocoso e seu ritmo de provocação. E mesmo assim, ainda por vezes caminhava numa cadência próxima da sedução sincera, outra coisa que nunca o deixou. Se há barreira, ela é chiste vestindo véu translúcido.


Seu prazer era fazer do ritmo, rito e ritual. E hipnotizava na repetição, e na repetição o experimento. Como quem se aproxima, e se aproxima, mas não sai do lugar. Como quem não sabe o que quer, mas quase dissimulado porque sabe que segue o desejo. E a suspensão… já que as coisas, quando bem sentidas assim, nos pés de pré-gozo, deveriam flutuar sobre o ridículo da repressão. E já que na maioria das vezes não tem diferença entre flutuar e se jogar de cara no abismo, é isso o que mais dá tesão… querer morrer assim, explodindo em gozo da repetição do sexo, de sentir (se) sem peso.

This is why people OD on pills
And jump from the Golden Gate Bridge
Anything to feel weightless again

Ritual. Em todo sentido que importa, era também versado em magia. O café e o cigarro não são cafés nem cigarros. Tampouco cachimbos. Suas obras conversavam com a frustração de Buñuel:

“O mais admirável no fantástico”, disse André Breton, “é que o fantástico não existe; tudo é real.” Tempos atrás, em conversa com o próprio Zavattini, expunha-lhe meu desacordo com o neo-realismo: juntos, à mesa de refeição, o primeiro exemplo a ocorrer-me foi o de um copo de vinho onde bebia. Para um neo-realista, disse-lhe, um copo é um copo e nada mais; nós o veremos ser tirado do armário, enchido de bebida, levado à cozinha onde a empregada o lava e talvez o quebre, o que pode ou não custar-lhe o emprego, etc. Mas este mesmo copo, visto por seres diferentes, pode ser milhares de coisas, pois cada um transmite ao que vê uma carga de afetividade; ninguém o vê tal como é, mas como seus desejos e seu estado de espírito o determinam. Luto por um cinema que me faça ver este tipo de copo, porque este cinema me dará uma visão integral da realidade, ampliará meu conhecimento das coisas e dos seres e me abrirá o mundo maravilhoso do desconhecido, de tudo o que me não encontro nem no jornal nem na rua.

É possível dizer que nem as pessoas eram pessoas em stricto sensu nos seus filmes. Elas entravam em cena quase sempre como arquétipos, de fato, se mantinham também por desespero nesse solo firme e falso do arquétipo, mas isso só pelo prazer de depois se desestruturar no sublime do desconhecido. Suas identidades intercambiáveis e os espíritos em uníssono. E isso justamente vinha do constante contato de Lynch com a realidade à sua volta. Qualquer contato de fato honesto com a humanidade, de si e dos outros, revela um pouco a farsa de nossas identidades, assim recheadas de seguranças e certezas. Afinal, sua investigação de vida sobre o que constitui um indivíduo vem do documentário, da entrevista e da escuta mais que qualquer outra coisa.

Dois planos, dois ritmos:

Era espírito nômade à mercê. Como uma compulsão, essa estrada midwestern ou de Los Angeles, da qual pesca das beiradas suas histórias, nunca termina e se persegue na mesma batida de sua música tanto quanto de Julee Cruise e Angelo Badalamenti, completamente à mercê do ritmo do coração. A estrada se repete e sempre parece familiar também porque existe num sonho de transcendência. De consciência. A cidade de papel de Los Angeles, ou do subúrbio, da civilidade hostil, também é um sonho, mas quando ele coagula nas imagens de pesadelo americano, também coagula na orelha cortada. E a forma mais óbvia de quebrar de novo o não-ritmo é com a violência, para forçar o gozo reprimido para fora. Para o sangue voltar a correr, molhar a garganta e a voz de canário.

No jogo dos desejos reprimidos e da violência, os homens gostam de ditar as regras. Tão falsos quanto sua performance, mas para o que importa não existe diferença entre ser e agir. Ou atuar. Dar a vida ao Mal. Submeter o outro ao seu desejo. Forçá-lo a viver como arquétipo para sua própria segurança… Os jogos performáticos dos homens são quase pura violência.

Sway, pretty girl
Sway
It ain’t real anyway




I’ll handle this
on some scandalous
inland empire los angeles
anti ego propaganda shit

E, inevitavelmente, parece que em algum momento Lynch viu por trás das cortinas do entretenimento. O que se faz com as mulheres do outro lado da ficção. Viu que por trás da diegese havia um monstro. A própria Maldade: a lógica do poder masculino e do abuso. E que isso nunca mais saiu da sua cabeça. Todas as mulheres, submetidas ao capricho do desejo violento dos homens, condensadas em Laura Palmer. Ela é a vítima infinita e seu horror permanece espalhado por toda Mulholland Dr, em loop como Poltergeist. O substrato de um fenômeno, a tragédia de sua morte é como um eco de outras dimensões e outros tempos, que se mantém tragédia na repetição da dor. Porque o mundo em David Lynch (e na vida real) é, como mencionado antes, constituído de magia. O contraponto e  complemento da Palavra de Dreyer: a Vontade de Lynch. Em Twin Peaks, Hollywood ou na estrada, o que há são bolsões de magia acumulada, algumas por excesso de dor, outras pela abundância de amor. A diferença entre o milagre e a magia está a um Deus de distância.

Nunca foi desonesto para se furtar do horror na outra ponta do desejo. E do masculino. Ele entendeu a explosão e o apelo mórbido da violência na mesma medida em que entendeu o carinho e o gozo, essa é a sina da empatia.


Maldição. Horror acumulado. Weinstein, Epstein. O presidente dos Estados Unidos. Os produtores de cinema. O cinema dos Estados Unidos. Os Estados Unidos. A colonização do outro. Porque encarar a si mesmo é também quando a coisa toda vira pesadelo. Seguir sua sombra pelo corredor vermelho. Fixar uma imagem no espelho, e sair pelo outro lado, como outra identidade. Num piscar de olhos, virar um estranho. Noutro, lidar com o horror de seu gozo violento.


I and I
In creation where one’s nature neither honors nor forgives
I and I
One says to the other, no man sees my face and lives

E se todo esse abuso repetido causou uma impressão em Lynch, imagino que  justamente porque estava antenado sentimentalmente para perceber o próximo. Para entender o outro, do cume ao abismo, é preciso algum nível de entrega, e é isso que há de sobra em Lynch. Sempre tátil e entregue. Estender a compreensão e o carinho é perigoso porque te deixa aberto aos golpes de quem está plantado firme na sua neurose. As mulheres que o digam… Mas, estruturalmente relegadas a essa “função”, elas sobrevivem e se armam de desejo e da empatia, tal qual as mulheres nos filmes de Carlos Reichenbach.

Creature of love
but who said
a bitch don’t bite

Dentro da prisão do arquétipo, quem consegue ao menos brincar com isso são as mulheres, os homens geralmente se afundam na solidão e na seriedade, e a confundem com coragem e inteligência, ou nem sequer são capazes de lidar com as consequências de seus desejos. Ou melhor, com a consequência de reprimi-los por puro medo de ser livre. Mas parece que é de fato mais difícil escapar quando foi você quem construiu a prisão.

Escapar é pra dentro do abismo do crânio.
O Eu, assim, não tem fronteiras.

So I got out my knife
I told my wife goodbye
I cut loose from the ropes
And fell on down that hole
And still I’m there falling
Down in this evil pit
But until I hit the bottom
I won’t believe it’s bottomless

Dilatação e compressão do tempo e espaço são fundamentalmente magia. Dobram e se desdobram sob o peso do clima e dos sentimentos a partir da condução dos tons, dos ritmos e das intensidades. Sob o peso da narrativa e de um acorde lambido na guitarra. A “realidade” fica sujeita ao poder dos sonhos. Quando Jeremy Irons tenta atuar como diretor em Inland Empire, e o que se vê é a dificuldade de colocar as coisas nos seus devidos lugares durante uma gravação, também fica evidente como se constrói uma mise en scène e como essa “dificuldade” (melhor dizer materialidade talvez), mesmo assim revelada completamente nua num estúdio em penumbra, numa narrativa em construção, não só não impede, mas é fundamental para invocar essa magia, para que novamente a diegese extrapole o fingimento e resvale no Real por intermédio da encenação. Para poder dar conta da realidade que criou. A partir do momento em que as peças do ritual estão postas e organizadas esteticamente, as luzes bem expostas, o som captado, pode-se enfim chafurdar e modificar a realidade, transformar símbolos, tocar sensações. Transcender.

The Straight Story pode não ter sido seu último trabalho, mas facilmente funcionaria nesse sentido como epítome da compreensão de Lynch sobre o que são as forças da natureza. Sobre o que é o tempo e o que é distância. Primeiro porque mesmo com as peças montadas a priori para um ritmo lento e de não violência, em contraste a Bowie gritando Deranged em Lost Highway, está ali condensado de novo seu espírito. De fato, nele a magia não se faz presente como no feitiço focalizado de Grace Zabriskie:

Mas existe sem pudor e sem restrição no mundo. No azul específico do relâmpago:

Andrew Wyeth, o pintor norte-americano, igualmente fascinado pela estética norte-americana, buscava fazer fluir das imagens que pintava somente como faz um escultor, lapidando as arestas da realidade que via (a realidade sentimental) para focalizar o sublime, o fantástico inerente dessa imagem. Ou magia, ou noumena, pra ser antiquado.

Lembro-me de uma anedota de que seu sonho seria pintar o Sol batendo numa parede branca. Ou ao menos é assim que me lembro, não necessariamente como aconteceu. Mas o espírito da coisa é próximo à fala de Richard Farnsworth no filme, quando perguntado sobre a vantagem de envelhecer: “Saber separar o joio do trigo. E deixar as coisas pequenas para trás”.

Sobre o pior, ele responde que é a lembrança de ter sido jovem. Muito honesto. Mas também, o que fica claro pela condução de Lynch é que o pior e o melhor é que a gente não envelhece de fato. Não se feito do jeito certo. O filme termina apontando para as estrelas, do mesmo modo que no Homem Elefante. Porque o que os une inclusive através do tempo e da maturidade, a única coisa que é de fato real, são os sonhos. Filmar então com a intenção de romper a fronteira entre a realidade e o sonho “impossível”.

Verona