Deixem-nos Passar, Caros Ancestrais, de Lav Diaz
(Makikiraan po, Filipinas, 2026)

Lav Diaz viaja para o passado e encontra seus ancestrais

Deixem-nos passar, caros ancestrais é o ‘curta’ de Lav Diaz que passa na quinquagésima Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O diretor filipino figura nos catálogos das mostras tem muito tempo, participando de, se não me engano, nove edições diferentes com títulos como Melancholia (2008), Genus Pan (2020) e Phantosmia (2024), além de ter vindo como convidado em outra ocasião, como exemplos a serem citados dentre esses nove títulos que participaram como componentes da programação. Conversando com uns e outros amigos mostreiros, os longos filmes de Lav Diaz se tornam de alguma forma uma lembrança do evento: um fenômeno a ser acompanhado dentro dele. Seus feitos de segurar cinéfilos por horas dentro das salas de cinema foram motivos de matérias na grande mídia outrora. Neste ano, Lav Diaz se colocou a olhar para o passado, ele decidiu investigar o passado de seu país, as Filipinas. A brincadeira com curta se explica: 147 minutos, para Lav, é tempo curto de duração. O diretor filipino Mike De Leon, no filme de um diretor menos querido por mim (Wim Wenders), diz: “to ask what the future of cinema is in the Philippines is like asking what the future of the Philippines is”. Lav Diaz está nos propondo um novo passado.

I. Lav Diaz contra todas as catequeses. Foda-se Padre Enciso e vai tomar no cu Padre Vieira. Canibalizá-los-ei.

A janela de 4:3 da Panasonic LUMIX GH7 usada por Lav Diaz, ao menos segundo o Reddit da própria marca, é o par de olhos pelo qual vemos o mundo. No caso, são os olhos pelos quais podemos ver as Filipinas durante seu processo colonial. Somos introduzidos à figura de Enciso que conversa com o arquiteto do projeto da igreja. O filme é atravessado dentro de sua trama pela figura desse padre: um colonizador, um estrangeiro, que procura fundar uma igreja para servir de centro do crescimento da civilização das Filipinas. Esse homem santo, no entanto, não é nenhum missionário iludido, um homem de fé movido pela convicção. Muito pelo contrário: o padre de Lav Diaz é um senhor desgraçado que tem filhos com as mulheres nativas e faz comentários racistas a torto e a direita. Vemos o conflito que a figura do padre gera na comunidade existente no país, enquanto observamos os personagens viverem diferentes tramas, todas elas acerca da construção da igreja em algum nível.

Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: – É mentira muitas vezes repetida.

Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.

Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.

Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.

As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.

Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago

O mundo ancestral de Lav Diaz é filmado com uma construção cênica bastante estática: a LUMIX GH7 fixa, parada em um único ponto, filma os corpos à sua frente, estes algumas vezes se encontram parados ou fazendo movimentos singelos. Um exemplo é quando escolhe filmar dois homens descansando à sombra de uma árvore enquanto, ao fundo, um companheiro de viagem se agita correndo por detrás da paisagem. O plano se mantém em tela por um bom período de tempo enquanto o diálogo ocorre sem cortes, sem closes, sem pans ou tilts. Apenas uma observação resiliente do plano. Esse mesmo grupo de viajantes carrega uma carga de quartzo para construção da igreja ao longo do filme: os planos enquadram parte do trajeto na sua janela de 4:3. Ele não acompanha a carroça, no lugar disso, quando ela é a maior parte do grupo saem do plano, Lav Diaz corta. E parece que estamos andando com eles com as pesadas pedras nas costas. Uma caminhada lenta, demorada, se eu não estivesse com o sono em dia poderia chamar de tortuosa.

Ao final do filme, dentro desse processo de longos cortes, nos leva a uma sequência inteira de planos que finalizam as tramas do filme: o grupo de viajantes é morto e um deles desiste da carga, ele joga da montanha. Esse viajante é um dos filhos do padre, seu primeiro filho, o primeiro filipino. Em sequência, um homem recupera sua irmã morta no esconderijo do padre e as mulheres da ilha destroem a cabana onde antigamente ficava um modesto altar quando o arquiteto deixa o local. O plano que encerra o filme, no entanto, é menos definitivo. Isso é interessante. Lav Diaz não quer falar sobre o futuro das Filipinas, ele fez uma escolha, ele criou um passado.

D. A. Soares