Disciplina, de Affonso Uchôa
(Brasil, 2026)

Affonso Uchôa volta seus olhos para Contagem. Dessa vez, seu olhar repousa para as salas de aula de um colégio público que serve de palco para um comentário que atravessa a relação dos alunos com a escola, com suas famílias e com o mundo fora da escola e de casa. Uchôa descreveu seu curta como um média e uma história fabular, por mais que sua moral se encontre em uma espécie de zona de não solução. Sendo franco sobre essa observação, cada vez fico menos interessado em separar os curtas e médias dos longas. Esse pensamento me ocorreu  na ocasião de ter acompanhado tanto o filme de Lav Diaz, com suas três horas e meia, quanto a série walker de Tsai Ming-liang. Parte disso se deve a inflexão do tempo presente nesses dois filmes. O filme de Uchôa, no entanto, não usa esse mesmo tipo de linguagem: existe sim uma predominância de planos parados com a câmera fixa, esses, no entanto, são ritmados por cortes rápidos que cortam uma duração radical do tempo.

Observando essa abordagem sobre montagem (tempo x imagem), observamos dois casos distintos no início do filme: na porta da escola, estudantes jogam um jogo de palmas, eles contam um pior dia da vida, batem a palma e apontam para um próximo que faz a mesma coisa e indica um outro colega. As palmas ditam o ritmo dos cortes. Em um primeiro momento, para nos apresentar todos os atores, a cada palma troca-se para o primeiro plano de um ator diferente, mas, após um tempo, a direção das palmas para de orientar a montagem. Os planos ficam mais longos e passam a ser orientados por outras falas, outros piores dias que, pelo texto, conduzem ao final do diálogo. Nessa mesma cena existe outro plano, este mais longo, onde outros dois estudantes participam de um outro jogo de palavras: eles se ofendem, concordam com a ofensa e tentam devolver na mesma moeda. A princípio, um plano fecha em um dos atores e depois abre enquadrando os dois.

Os planos, mesmo orientados por um certo dinamismo, procuram deixar um espaço para que se possa contemplar a imagem, observar com alguma paciência aquilo que nos é mostrado. Nicolas Nill vive sua fábula como o aluno que não se sente instigado na escola. Enquanto os outros alunos copiam as palavras no caderno, ele, sem um caderno, escreve algo na carteira. A professora é esse personagem que procura salvá-lo de seu próprio descaso, Renan Rovida assume o papel de faxineiro para avisá-lo das dificuldades do futuro, Carlandréia Ribeiro é a mãe de Gustavo, outro aluno, um aluno sumido, que assume o papel de mostrar os perigos prováveis do mundo lá fora e, dentro dessa história, também pode representar uma provável conclusão para o personagem de Nill (ele retorna). Esses personagens, figuras análogas de alerta e apoio, entram na história ao lado de Nill, tentando aconselhá-lo sobre a importância da educação, enquanto o policial serve para ameaçá-lo sobre esse mesmo futuro do qual todos tentam alertá-lo.

O filme termina rompendo com a fábula. O lugar vazio de Nill e a volta de Gustavo a sala têm seu peso, mas a cena que fecha o filme é justamente o jogo de palavras do início do filme: uma dinâmica parecida de diálogo e montagem. Uchôa, como todos na sala, prestou preocupações com os próximos anos na educação e na cultura. Os tempos estão incertos: o poste mija no cachorro e, da última vez que fui me sentar, a carteira me riscou ao invés de eu ter riscado a carteira. Da próxima vez, talvez não tenha uma carteira ali.

D. A. Soares