Dust, de Tsai Ming-liang
(微塵, Taiwan/Espanha, 2026)

Dust é a décima primeira parte da série chamada de walker. Esses filmes de Tsai Ming-liang trazem Lee Kang-sheng andando em câmera lenta, vestido com seu robe de monge vermelho. Os passos lentos de um caminhar cauteloso demarcam uma flexão lenta do tempo da cena: o filme de uma hora e vinte minutos passa a durar uma infinidade em cada plano, com os passos de Lee Kang-sheng se consolidando como parte da paisagem urbana que o rodeia. Esse é, inclusive, o que há de mais interessante dentro do filme: Tsai Ming-liang estica o tempo e a caminhada de Lee Kang-sheng pela calçada torna-se uma peregrinação, uma verdadeira volta ao mundo.

Lee Kang-sheng neste filme não é apenas o monge Xuanzang, ele é parte do cenário. Ele se enquadra no meio das esculturas de pedra suspensas no ar, por exemplo, e as circula, ele se integra à performance do espaço em alguma escala. Ele se enquadra entre as pedras, sendo emoldurado pelos objetos externos do ambiente, como centro da cena, caminhando com uma lentidão, uma calma, que o torna praticamente imóvel. Tsai grava seu ator em sua caminhada de avanço quase nanoscópico em relação ao mundo enquanto o mundo reage ao grande esforço de Lee Kang-sheng em se mover da forma mais lenta e cautelosa possível. É ele, o homem que caminha como se evitasse esmagar os insetos, que chama a atenção de todos que passam pela rua, que chama a atenção das famílias, casais e da câmera que acompanham um lento avanço rumo ao mesmo ponto: uma mortificante corrida para acompanhar o lento e perpétuo giro do mundo.

É justamente por essa forma radical de tratar o tempo que vejo em Dust uma espécie de fascinação e hostilidade com a figura de Lee Kang-sheng vista pelo outro. O ato de andar lentamente, despreocupado com o ritmo das coisas a sua volta, como se estivesse em um exercício de andar seguindo o ritmo do próprio mundo, um desapego direto a dinâmica da rotina, da produção acelerada dos passos em uma linha de montagem com a finalidade de gerar um caminho, um caminho que te leva para um objetivo fixo. O Xuanzang de Lee Kang-sheng é um artesão dos passos (ou seja lá qual termo posso usar para alguém que produz com os pés), ele trata cada etapa do caminho, do levantar dos pés a aterrissagem, com um zelo quase que artístico dentro de sua marcha interminável.

Ele atrai os olhares duvidosos de um fazendeiro, os latidos hostis de um cachorro que não consegue entender sua impassibilidade perante os sons, as superfícies e as pessoas à sua volta. O monge que segue em frente também atrai os olhares fascinados daqueles que abrem suas janelas para contemplá-lo ou daqueles que procuram segui-lo, apreciando cada passo com o empenho que ele coloca em sua caminhada. Mesmo assim, a reação que ele mais arranca daqueles que convivem com ele é a mais completa indiferença. O mundo, afinal, continua, assim como as passadas do monge, que, mesmo apreciadas, são tão únicas e diferentes entre si quanto grãos de areia e flocos de neve (são únicos apesar da não percepção dos demais sobre sua unicidade).

D. A. Soares