Eclipse, de Djin Sganzerla
(Brasil, 2025)

UMA MULHER EM PERIGO

Eclipse
começa pincelando contrastes entre as meias-irmãs distantes Cleo e Nalu. A segunda, interpretada por Lian Gaia, tem ascendência indígena e cresceu como filha não oficial do pai que compartilha com Cleo, interpretada pela própria Djin Sganzerla. O reencontro das irmãs se dá em um contexto de apuros. Sem mais recursos, Nalu trabalha para um latifundiário na área administrativa, onde passa por coerções diversas. Ao se defender fatalmente dos avanços sexuais do filho do patrão, Nalu é forçada a fugir de casa, encontrando assim um pretexto para restabelecer contato com Cleo e, de quebra, revelar o abuso que sofreu do pai de ambas, marca que carrega desde os treze anos de idade. 

O filme consegue articular bem a diferença de origem e classe entre as duas irmãs e, principalmente, tem sucesso em evidenciar os privilégios de Cleo sem moralismo para marcar essa diferença. Apesar das dificuldades na área de fomento de pesquisa, Cleo parece viver a perfeita fantasia pequeno-burguesa antes de a irmã colocar sua visão de mundo, seu passado e seu futuro em xeque com a descoberta do abuso. Antes, ela trabalha incansavelmente em um artigo científico no qual relatará a descoberta de um novo asteróide, o qual também terá a oportunidade de nomear, e ainda passa o tempo cuidando de seu futuro bebê – os paralelos entre as duas atividades são evidentes, mas o andamento narrativo mais firme do primeiro ato de Eclipse faz com que tudo pareça mais orgânico. 

O abuso sofrido por Nalu faz com que Cleo passe a ressignificar toda a relação que manteve com o pai, antes ossificada em sua memória com uma nostalgia aparentemente inabalável. Mas é nesse contexto que todo o mundo de Cleo vai ruir. O primeiro ato é rico na apresentação de um contexto violento que permeia a vida das mulheres, da misoginia explícita ou latente que parece vir de todos os lados, de homens e mulheres, e que sufoca Nalu e Cleo em diferentes esferas, ainda que a personagem de Djin não perceba. Tony é apresentado como o marido perfeito demais, como uma presença amada por Cleo mas já desconcertante para o espectador desde o primeiro momento, já prenunciando a trama sombria que se seguirá. Diante disso, até as falas perfeitamente calculadas de um marido atencioso se tornam potenciais ameaças veladas dentro da dramaturgia desse filme. Nesse primeiro ato, até o didatismo dos diálogos faz sentido e se dissolve nesse mundo marcado por fortes contrastes e uma violência permanente no ar. As performances têm algo de teatral, de excessivamente marcadas, e carregam uma densidade que sustenta bem o filme mesmo quando ele perde gradualmente o impulso.

A reaproximação entre as irmãs se faz mais necessária e passa a se tornar alicerce essencial quando Cleo percebe o comportamento estranho de Tony no ambiente digital. Visitas a fóruns com conteúdo criminoso e mensagens suspeitas em grupos anônimos, tudo surge subitamente e assusta Cleo, e a perfeição da vida a dois pequeno-burguesa logo se esvai enquanto Cleo tenta secretamente descobrir mais sobre o marido com a ajuda da irmã, que clona o aplicativo de mensagem de Tony para que Cleo receba cópias das mensagens em tempo real. Grávida, Cleo passa a ter medo do marido mesmo sem saber exatamente o que está acontecendo, atormentada por flashes de sua infância perfeita, agora maculada pela possibilidade do abuso.

As fragilidades do filme começam por aí, quando o recorte narrativo se torna menos amplo. Primeiramente, a trama da fugitiva Nalu se torna totalmente secundária, seu desajuste ao mundo de Cleo jamais é articulado para além do primeiro ato e ela parece servir mais como muleta narrativa, apesar da forte performance de Lian Gaia. Além disso, o foco reduzido ao universo doméstico de Cleo e Tony faz com que as fragilidades nas escolhas formais sejam mais evidentes – o suspense existe ao nível de roteiro e de performance, mas pouco como imagem. Eclipse é filmado de maneira bem convencional, preza mais pelo andamento narrativo e menos pela construção de fato de suspense. Há floreios mais artísticos na forma de vinhetas que contrapõem uma onça a um eclipse, como metáfora paralela à narrativa, mas o tratamento plástico da trama de Cleo não é interessante, e conforme o filme se encaminha para a conclusão, as ações dos personagens vão ficando mais físicas e o desfecho redondo se torna mais importante do que o mundo sufocante a que fomos apresentados, o modo de filmar é excessivamente convencional e já não há muito que interesse no filme para além do desenlace dos acontecimentos. A sensação é de um esvaziamento gradual conforme a ação avança e cresce. A aparição especial de Helena Ignez, sutil e interessante, filmada na mesma frequência do resto do filme, é como a onça ou o eclipse – sua imagem é tão forte por si só que contrasta bastante com o espírito mais prático e funcional de todo o resto do filme.

Cleo, vencendo o torpor que a acomete violentamente durante sua investigação independente, acaba por descobrir que Tony participa com alguma regularidade de um grupo de estupro coletivo. É ela que, sozinha, decide segui-lo e impedir que o estupro se consuma mais uma vez. A câmera não sabe o que fazer na sequência final, tão dependente exclusivamente do suspense de cenas de ação absolutamente convencionais e abaixo da média no uso da câmera e da montagem, que reduzem todo o peso do trauma de Cleo a um clímax de cinema que poderia ser encaixado em qualquer outro filme. A história de Cleo termina com justiça, com um alerta às autoridades e com o fim de sua relação – a sensação é de alívio, mas não há a menor tentativa de articular o quanto todo o sistema violento apresentado no primeiro ato continua presente, mesmo com o desaparecimento súbito de Nalu do desfecho. O filme tenta, como se houvesse alguma necessidade, amarrar todas as pontas soltas da maneira mais clássica possível (o asteroide de Cleo, no fim das contas, recebe o nome que Nalu sugeriu para o bebê, por exemplo) e concluir tudo em uma cena de ação como qualquer filme de pouco interesse de Hollywood, para no fim das contas, se perder no processo e esquecer de toda a atmosfera brutal que cerca suas personagens no primeiro ato.

É interessante notar, também, o quanto o filme é uma resposta implícita, direta e frontal ao mundo redpill, a modelos de exercício da misoginia absolutamente contemporâneos e digitais. A tecnologia vai fazer parte da dramaturgia, e Djin Sganzerla tem bons momentos nos quais articula a distância de Cleo com aquele mundo, quase como um espelho de si própria que serve de fio condutor. Cleo sabe pouco e vai descobrindo aos poucos, sua ingenuidade perante às coisas, como no caso do abuso revelado pela sua irmã, se estende a sua relação com o mundo digital e tem consequências no andar narrativo, o que é muito positivo. Um dos exemplos mais notáveis é sua imperícia ao tentar se esquivar do marido, que começa a suspeitar de que Cleo o está espionando quando os dois recebem uma notificação no celular. Nesse sentido, a falta de conhecimento de Cleo é uma impotência que pode acarretar diversas consequências fatais, e é o tipo de elemento que enriquece o segundo ato e impede o filme de cair em uma monotonia completa. Se há um sucesso em Eclipse como cinema, está nessa autoconsciência do olhar que Djin imprime na protagonista, na falta de controle que Cleo vai percebendo que tem, e que acaba por drená-la intensamente.

Lucas Bueno