Entrevista com Ahmad Kiarostami

Por Diego Quaglia

Ahmad Kiarostami, filho de Abbas e presidente da Fundação Kiarostami, está no Brasil pela Mostra por causa da belíssima exposição “STEPS – Fotografias Inéditas de Abbas Kiarostami”, que fica instalada no MIS até o dia 8 de novembro. Tive o prazer de conversar com Ahmad sobre isso e outras coisas.

Diego Quaglia: Senhor Kiarostami, eu gostaria de perguntar: uma exibição de fotos não vistas tiradas anteriormente pelo seu pai está acontecendo aqui no festival. São fotos em preto e branco, de imagens tiradas de escadas pelo seu pai ao redor do mundo, como parte de uma série final de fotografias que ele fez. Você acha que a abordagem que o seu pai tinha para fotografia na maneira que ele observa o mundo pode ajudar a fazer se entender melhor ele como cineasta?

Ahmad Kiarostami: Meu pai dizia isso bastante, era uma das frases dele: “se você quer se tornar um bom cineasta, você precisa ser um bom fotógrafo primeiro”. Era uma das coisas dele. Então, sim, olhar pras fotografias dele ajuda. Mas você pode ver as similaridades. Você pode ver o mesmo estilo em como ele olhava o mundo ao redor dele em suas fotografias e cinema.

Diego: Perfeito. Seu pai tinha um grande relacionamento com a Mostra de São Paulo, um relacionamento muito profundo, o que você acha que esse relacionamento trouxe para ele como cineasta? Esse relacionamento tão próximo dele, eu sei que ele era muito próximo do Leon Cakoff, Renata de Almeida, o que você acha que o relacionamento trouxe pra ele como pessoa e artista?

Ahmad: Eu vim aqui com o meu pai em 2014. 12 anos atrás. Nós viemos juntos a 12 anos atrás juntos… Eu me lembro que nós tivemos essa conversa muitas vezes, mesmo que o Brasil seja tão diferente, mas tem algo de semelhante. O calor humano das pessoas. E nós falamos brincando que “quando você sai com brasileiros, mesmo que você não fale a mesma língua, parece que você está saindo com primos seus”. Então todo mundo parecia família. São todos bons anfitriões, gente boa, eles parecem família e eu sei que ele amava isso. Eu também sei que ele amava Leon e Renata, mas eu acho que o que era mais importante para ele era a cultura do Brasil.

Diego: Eu vi um filme do seu pai no Instituto Moreira Salles em São Paulo e antes do filme do seu pai eles mostraram um curta–metragem dirigido pela Renata e o Leon sobre o seu pai. Foi muito bonito. Eu queria perguntar se você tem alguma história particular sobre o seu pai na Mostra que você acha que seria bom dividir? Alguma coisa engraçada? Bonita?

Ahmad: É o que eu estava dizendo antes, eu mesmo amo o Brasil, já estive aqui muitas vezes. É como eu disse, é como se fossemos primos. As pessoas aqui são muito reais, existe essa conexão. E as coisas para além da superfície são muito diferentes. Sabe, estamos fazendo um remake de um dos filmes do meu pai agora, e um dos motivos que me fez dizer “sim” para isso é porque o diretor, Lisandro, queria filmar o filme no Brasil…

Diego: Ótimo.

Ahmad:… Então eu acho que o Brasil é um lugar perfeito para isso. Mesmo que no filme original fosse cercado de poeira, estradas de poeira, aqui ele está filmando tudo com árvores, verde, então, visualmente eles são muito diferentes, mas culturalmente eles são muito parecidos.

Diego: Você começou a falar uma pergunta que eu queria fazer sobre esse remake. Gosto de Cereja é o meu filme favorito do seu pai, eu acho ele uma obra–prima, acho um dos grandes filmes já feitos, é maravilhoso. Você acha que existe um grande risco de fazer um remake de algo assim? Como foi chegar nessa decisão?

Ahmad: Isso já faz muito tempo. Antes desse filme muitas pessoas me abordavam para tentar permissão para fazer remakes e eu imediatamente falava “não”. Dessa vez, porque duas pessoas que são muito queridas para mim me falaram “por favor, fale com o Lisandro”. Uma delas era a Renata. E eu respondi: “eu já tinha dito não, mas como você está falando eu vou falar com ele”. E aí, falamos e demorou meses para eu tomar essa decisão. Tem uma coisa: o filme original está aí, esse novo filme não vai tocar nisso ou impedir isso. Se é um bom filme, é um bom filme, se é um filme ruim, é um filme ruim. Ele não vai tocar no filme original. E eu também acho que é importante pensar que as pessoas esquecem coisas velhas e o filme original já tem quase 30 anos, os filmes do meu pai são velhos, cinéfilos não ligam para essas coisas, mas pessoas normais não vão assistir um filme de 30 anos atrás. E essa história específica tem uma mensagem importante. E eu espero ajudar pessoas. Então,  mesmo se o remake não for um bom filme, mas se puder ajudar 5 pessoas com os seus problemas, acho que já é o suficiente.

Diego: A participação do Wagner Moura no projeto foi sua decisão? Coisa do Lisandro?

Ahmad: Eu estava no festival ano passado e vi O Agente Secreto, e Wagner estava lá. E nos encontramos e falamos por 20 minutos. Algo assim. Ele não sabia mesmo quem eu era. O que não era mútuo da outra parte. Ele foi muito legal, muito simpático, ótimo sujeito. Bom coração. E Gosto de Cereja tem um tipo de atuação que é muito difícil porque “nada acontece”. Não tem raiva, emoção, amor, nada acontece…

Diego: É muito internalizado…

Ahmad: Muito interno. Tudo está nos olhos dele. E aí, eu assisti O Agente Secreto e pensei “esse é o cara perfeito para fazer o Senhor Badii”. O jeito que ele atua nesse filme é o jeito que funcionaria. E então conversamos, a gente se gostou, eu falei para ele sobre o projeto e ele ficou muito interessado. Claro que eu não pude confirmar nesse momento, eu tive que conversar com Lisandro, Vania (Catani), conversamos com Wagner de novo, e aí o filme aconteceu.

Diego: Você conhecia o trabalho do Lisandro antes de encontrar com ele?

Ahmad: Sim. O que eu gosto sobre o Lisandro, e essa é uma outra razão que eu aceitei: ele é um cineasta corajoso. Ele não tem medo de fazer coisas que outras pessoas não fariam. Mesmo se o filme no resultado não for bom, ele é a pessoa certa para tentar.

Diego: Ele não é um diretor normal. Ele tem sua própria coisa… Tem algum filme do seu pai que você veio a entender diferente conforme os anos? Um filme que você tinha uma ideia e hoje pensa completamente de outro jeito?

Ahmad: De certa maneira, sim. Meu pai por muitos anos fez filmes sobre crianças e eu vivia na casa do meu pai, eu sabia quando ele estava fazendo eles. E então, quando eu fui para universidade e meu pai ia fazer outro filme com crianças, de repente algo aconteceu e ele mudou de ideia e fez um filme de um jeito que ninguém no país tinha feito antes. E foi a primeira vez que ele fez um filme que não era sobre crianças: Close–up. E eu não tinha a menor ideia sobre o que era o filme e ele aconteceu muito rápido, então quando eu fui ver o filme, e isso nunca aconteceu antes, porque eu estava lá quando ele estava na pré–produção, montando, esse filme foi o primeiro filme que eu não estava lá. Então, quando eu fui ver o filme, era um filme sobre adultos, para adultos e eu odiei o filme… Na verdade não odiei, mas não gostei. Porque eu estava esperando outra coisa. Hoje, eu acho que se eu tivesse que escolher apenas um dos filmes dele, seria Close–up.

Diego: Você lembra quando você percebeu que o seu pai era quem ele era?

Ahmad: Bem, ele não era isso desde sempre. Quando eu era menor, ele era um cineasta pequeno e me lembro quando eu tinha 3 anos de idade – claro que eu não me lembro disso, me contaram – eu tinha 3 anos e teve um festival em Teerã e chamaram o nome dele no palco. E eu estava muito empolgado. Daí em diante, eu ouvi as pessoas chamando o meu pai de “o querido Abbas Kiarostami”. Então, foi a primeira vez que eu percebi alguém chamando ele para o palco e tratando ele assim.

Diego: O que você acha que as pessoas tendem a interpretar mal sobre o trabalho do seu pai por exemplo?

Ahmad: Uma das forças dos filmes dele é que as pessoas saem deles com diferentes histórias. Ele dizia que “metade do filme acontece na tela e a outra metade na sua mente em um bom filme”. Minha visão de um filme é diferente da sua visão. E eu não posso falar o que as pessoas tiram disso. Eu acho que essa é a força dos filmes dele. As pessoas tiram coisas diferentes deles.

Diego: Como pai, você na convivência com ele percebia coisas no dia–dia que estavam nos filmes dele? Algo da sua personalidade?

Ahmad: Ele tinha esses óculos escuros e ele parecia muito sério, mas uma coisa que une a personalidade dele e dos filmes é como ele sempre “brincava”. Ele estava sempre “brincando”, desde coisas pequenas com pessoas na rua até num piquenique. Ele nunca parava de “brincar” em jogos triviais.

Diego: Seu pai fez filmes no Irã, claro, mas também fez filmes na França, no Japão, ele sempre manteve uma integridade artística mesmo trabalhando nesses diferentes países e tamanhos de produção?

Ahmad: Eu acho que nos filmes dele, ele fala sobre dividir valores humanos que servem para qualquer lugar. Essa é a razão para pessoas de todo o mundo amarem os filmes dele. Porque ele fala sobre dividir coisas. Esse filme que eu estou fazendo o remake, Gosto de Cereja, não importa a parte do país, se ele é dessa parte do país ou outra, ele é sobre algo, uma pergunta filosófica, que vai pertencer a um lugar que não importa quando e hoje ou onde. Por 200 anos antes e 2000 anos depois. Esse é o valor que ele divide. E acho que isso está nos filmes dele, mesmo os filmes que ele fez fora, ele falava muito disso.

Diego: Senhor Kiarostami, muito obrigado pela entrevista.

Ahmad: Claro. Muito obrigado.