Entrevista com João Nicolau

Por Diego Quaglia

O cineasta português João Nicolau está na Mostra com o seu filme A Providência e a Guitarra e tive o prazer de bater um papo com ele.

Diego Quaglia: Oh João, eu vi o seu filme A Providência e a Guitarra e uma coisa que me chamou atenção no filme é que ele tem essa coisa que eu percebo nos seus filmes que é esse seu senso de humor que eu acho que coloca um certo despojamento no filme, tem essa certa ironia de como você vê as coisas, mas é um filme que tem um formalismo muito preciso. Tanto no uso do chiaroscuro, quanto no rigor formal, você acha que isso causa um certo contraste no filme que vai se relacionar também com essa coisa do tempo presente/tempo passado? Você vê algo leve, despojado, mas com esse rigor formal ou é só porque você achou que seria melhor pro filme e é isso?

João Nicolau: Olha, eu gosto muito de trabalhar esse rigor formal nos filmes e os filmes que eu vejo, que eu gosto de ver, também transportam esse rigor ou essa graça. Graça no sentido da elegância…

Diego: De pensar o quadro nesse sentido…

João:… Nesse filme sobretudo como é um filme de atores, temos que concordar nisso…

Diego: Com certeza, com certeza.

João:… E pra mim era importante a questão da duração para precisamente poder estar mais perto deles e não fazia muito sentido trabalhar o tempo através dos cortes mas sim através dessa continuidade. Uma das coisas que eu almejo, que eu quero, é quando o espectador veja um filme meu que ele tenha essa noção diferente da experiencia do tempo…

Diego: Claro, claro.

João:… É um bocado se quisermos uma oposição à sociedade com que vivemos hoje, como vemos inclusive filmes e pronto é um prazer que eu tenho. Quanto à forma de integrar eu não sei. É tudo muito intuitivo. Eu não sou o melhor “juiz” da minha causa. Não posso ver de for. É como pedires para uma aranha analisar a teia da aranha, é complicado, nesse caso a verdade do filme são os atores e a maneira melhor que eu encontrei para fazer justiça a isso era precisamente deixar mais possível que eles trabalhassem. E acho que isso nos aproxima enquanto espectadores dos personagens sobretudo na parte do passado. Na parte do presente, no contemporâneo digamos, estou a trabalhar de uma forma um pouco diferente mas pronto para mim o protagonista do filme não é nem Leon e nem Elvira. É o casal. Ou seja é mais importante no filme a relação do que a caracterização especificamente de cada personagem. Raramente a planos com personagens sozinhos, eles estão sempre em diálogo, em confronto e foi precisamente essa relação que me interessou. E pra isso é preciso tempo e o cinema é uma arte do tempo. Tal qual como a música pra poder passar isso pro espectador.

Diego: Você falou isso que raramente tem planos dos personagens sozinhos, até quando tem que eu lembro que vai dando um super close na personagem da Clara (Riedenstein) é quando ela está ouvindo o casal, ela está ouvindo alguém, que estão fora do quadro…

João: Ela está ouvindo mais dois que estão fora do campo mas ela não está sozinha.

Diego: Inclusive você falou que é um filme de atores, eu vi o John From pela primeira vez esse ano, eu nunca tinha visto e adorei o filme. Gostei muito e não tinha reconhecido na hora mas a Clara está no filme.

João: Sim, a Clara no John From tinha 13 anos e nos dois ficamos entretanto e agora passados 10 anos do John From, o verão foi filmado no verão de 2024, ela e eu voltamos a trabalhar e foi um prazer imenso e espero que se repita.

Diego: Ah incrível. Você tem um método específico pra trabalhar com atores ou é uma coisa tipo varia de ator pra ator? É a coisa da escalação já ou não?

João: Olha, eu não tenho um método digamos propriamente estabelecido, o que eu tenho e tenho cada vez mais é um grande prazer nos momentos dos ensaios. A várias maneiras de fazer filmes, a colegas meus que filmam sem ensaios pra captar umas coisas dos atores, eu gosto muito da fase dos ensaios e não é só pelo trabalho com os atores é porque é o momento que eu começo a ver a verdade do filme nos corpos dos atores deles…

Diego: Materializada né…

João:… É, exatamente. Começo a ver isso. Tem momentos que podemos fazer experiencias, cortar coisas, no caso desse filme que é um filme muito escrito a coisas que são muito bem lidas no silêncio da nossa cabeça e que depois ouvidas não eram tão bem. Outras partes em que precisamente pelos protagonistas serem o casal houve muitas falas que mudaram do Leon pra Elvira e vice versa. Então digamos eu, se quisermos falar de método, o que eu sei é que eu nunca dou referência aos atores, nem de nenhum filme, nem de nenhum quadro, não, eu começo a trabalhar a partir daquilo que os atores me oferecem segundo o que é a sua interpretação do guião e é porque daí que começos a trabalhar e na verdade depois é mesmo um trabalho conjunto. Essa construção dos personagens, que nesse caso é a construção do filme, depois claro o grosso do método é esse. Uma coisa muito simples, muito intuitiva, não tem grandes conceitualizações e exijo que eles já venham um pouco preparados. No caso desse filme já tinham que trazer o texto seguro pra não perdemos tempo com coisas que eram um trabalho individual mas não há digamos, um método… Ás vezes até uso digamos dispositivos contraditórios para chegar mas é sobretudo como a minha observação que os atores estão a oferecer e a partir dessa informação que eu começo a construir o filme. Não tem nenhuma pré–ideia…

Diego: Vai tipo no momento mesmo…

João: Sempre, sempre…

Diego: Você falou dessa coisa do que você gosta, dessas questões externas, você tem algum cineasta ou algum cinema que é o seu horizonte? Além disso você trouxe algo ou pensou em algum cineasta ao fazer esse filme ou foi uma coisa que veio de outras ideias e outros lugares ou vontades?

João: Olha, eu na verdade cada vez mais gosto mais de fazer cinema do que de ver cinema…

Diego: Sensacional…

João:… No caso das artes com que esse filme lida, a música e o teatro, entraram na minha vida antes do cinema. É importante dizer que eu nunca sonhei em fazer filmes, eu estudei Antropologia e foi ao estudar Antropologia que me interessei pela imagem em movimento, mas sempre no contexto da pesquisa antropológica. Depois acontenceu e foi um enorme privilégio começar a trabalhar como montador e que tive oportunidade a aprender o cinema trabalhando. E comecei a montar documentários, depois comecei a montar ficções e um dia resolvi arriscar a escrever um curta porque eu era digamos mais um “bicho de estúdio” e queria saber como eu me sairia numa rodagem. Num set. E eu diverti–me, não estava a espera confesso, mas eu diverti–me bastante, deu bem e aqui estamos. Mas é isso. É claro que tenho cineastas que eu admiro muito: sei lá posso dizer três ou quatro. João César Monteiro, Luc Moullet, Éric Rohmer, são todos cineastas de certa forma fora de moda…

Diego: Claro. Mas imensos cineastas todos eles…

João: Todos eles. Sem dúvida. E digamos são algumas das referências que eu gosto. Mas como eu disse, como eu não sonhei em fazer filmes, eu cresci em Portugal e vendo Woody Allen, Lynch, mas sem um filtro ou pretensão porque nunca imaginei que iria fazer aquilo. Então são coisas que estão certamente na minha formação, que estão em mim, mas que eu não procuro e não são referencias fortes. Vão estar lá mas é isso. A maneira como eu faço os filmes é sobretudo intuitiva e é isso.

Diego: Eu achei curioso você ter falado do João César e do Luc Moullett e aí você ter falado do Woody Allen. Porque claramente eu imagino que isso seja até inconsciente, da personalidade, mas eu sinto muito que o tipo de humor une esses cineastas um pouco nos seus filmes. Uma coisa do Moullett, do João César, um certo bom–humor, essa brincadeira do passado/presente que tem no Woody Allen também.

João: Acredito que sim mas eu não posso ser o juiz da minha causa…

Diego: Claro, claro…

João: Não posso analisar. Tal como Woody Allen tenho alguns problemas, algumas reservas, em relação a psicanálise. Portanto não quero entrar por aí. Mas sim certamente nós todos somos também uma somatória de tudo que vivemos e tudo que experimentamos. Nesse caso posso ser tão influenciado por um Luc Moullett como por um Tom Zé, que são as coisas que formaram a minha vida né.

Diego: Foi bom você falar do Tom Zé porque o filme acaba com uma música brasileira, o Artista é o Caralho, isso já foi uma decisão desde o roteiro que ia acabar com essa música ou isso foi uma coisa que rolou durante a produção mesmo?

João: Olha foi das poucas coisas que só surgiu mesmo no fim. Surgiu mesmo no filme da montagem. Eu e o Alessandro Comodin, meu montador, já tínhamos o filme praticamente montado e eu já conhecia essa música do Rubinho (Jacobina) a muito tempo. É um hino né. E aí um dia na montagem eu lembrei–me e tem tudo a ver, ainda mais sendo uma referência ao artista no contemporâneo, que eu falo da divisão do cinema e etc. E o filme também tem esse lado contemporâneo. Então achei que era um bom epilogo. E no fim a canção funciona como um epilogo do filme, que é um epilogo que mostra as vicissitudes da vida do artista mas que pela própria forma da música que é atemporal, não deixa uma melancolia negativa, que era uma coisa que eu queria me afastar nesse filme.

Diego: Faz sentido. E você falou do roteiro, isso dos protagonistas serem o casal, é um filme que fala dessa relação do material com a arte, do financeiro com a arte, de você sobreviver como artista, ir atrás disso e tentar se virar mas ao mesmo tempo é um filme que quebra certos ideias. Essa coisa do “talento”. Ideias assim. Isso vem desde o roteiro?

João: Vem e é uma coisa com que me interessou bastante quase como se fosse tipo um lado documental sobre a vida artística. A vida artística não começa no momento mágico do palco, na fantasia, quer dizer as pessoas comem também, tem que dormir, tem que arranjar transporte e nesse sentido eu começo a observar os artistas com quem poderia estar fazendo um documentário sobre outra profissão. Um ferreiro, um vendedor de jornal. Também porque, atenção, não sou eu que escrevo tudo que os personagens dizem, eu não creio que o artista seja um ser superior, talvez porque eu não fui educado pra ser artista e de certa maneira eu não tenho uma ideia mitifica disso…

Diego: Uma saudação disso também né…

João: É. E então pronto. Tem essa fala que o Leon diz ao comissário de polícia que o “artista é um ser superior” e isso é da responsabilidade do Leon. Não é do realizador. E até tem artistas que são seres mais inferiores…

Diego: Muitos…

João:… E pronto mas o principal que me interessou nessa coisa do protagonista ser o casal é isso. Mais do que qualquer caracterização de personagem é a relação. O que já falamos. A relação, ou seja não é quase nenhum personagem sozinho no quadro, é sempre a relação que me interessa. Seja essa relação que os Berthelini estabelecem, ou com o Strubbs, o estudante inglês, ou com o pintor e a sua mulher ou com o comissário. Ou seja o filme não está tanto na discrição exaustiva ou nas amarguras mais existencialistas de cada personagem. Não está tão aí e está mais na relação dos personagens uns com os outros.

Diego: Perfeito. Eu também acho curioso, talvez você discorde, acho bom saber, mas é que no filme não existe aquela coisa dela julgar o marido por ele ter esse tipo de visão dele como artista. Ela aceita aquilo e ela vê um valor naquilo, ao mesmo tempo que o filme reconhece que ele pode não ter talento, mas ele é um cara apaixonado, um cara que está sobrevivendo da arte dele, está tentando e o que é “talento” também?

João: Pois é. E nesse caso a maneira como a Elvira olha o marido é digamos por que ela é uma pessoa muito mais madura que ele e o marido não faz distinção entre estar num palco ou fora dele. Ela transforma–se quando está no palco. E essa sabedoria que ela tem é pra mim também digamos quase que aí sim um traço de superioridade das mulheres. E foi uma coisa que foi preciso trabalhar muito também em relação ao conto original onde Elvira era só quase um “sidekick”, foi trazer ela pra um lugar de mais ação em que ela que escreve as peças, ela que faz as contas do casal e ao mesmo tempo não se esconde quando há qualquer interação social. Isso foi também tal como o John From é pra mim um prazer grande escrever pra personagens femininas.

Diego: O John From é muito isso, essa perspectiva desse crescimento feminino de um período muito específico da vida da mulher e que não é tão retratado também.

João: Eu acho que não mesmo e pra mim foi uma aprendizagem grande porque eu cresci enquanto homem, ou seja com todas as associações e estereótipos a volta disso. E nesse filme no John From, que já tem 10 anos, foi o momento que eu deixei de me inspirar tanto em coisas tão perto de mim ou quase auto–biográficas, embora sempre com o filtro da ficção. Mas pensar para escultar o outro tipo de mundo e pessoas. No caso do John From a menina que está na adolescência, no caso do Technoboss que foi meu filme que estreou é sobre o senhor que vai entrar na aposentadoria como vocês dizem e aqui nesse caso pronto. São artistas saltimbancos. Eu poderia porque sou alguém que vive da artista, vivo no sentido de “comprar as batatas”, vivo do cinema, mas também de partir de um conto que não era meu e se passar muito no passado me ajudou a ir pra esse movimento de fazer uma coisa que não está tão perto de mim.

Diego: Imagino. Essa coisa de você pensar o financeiramente da arte, todos nós que lidamos com cinema sabemos as dificuldades pra fazer um filme sair, ainda mais artistas independentes, mas você acha que essa relação de futuro e passado ainda está com você? Esses dilemas de “e agora como eu faço o próximo”?

João: Olha, esse filme A Providência e a Guitarra é o meu quarto longa e é o primeiro que não teve co–produção. Foi feito só com dinheiro português. E se quisermos podemos dizer que foi o filme com condições mais difíceis de fazer. No cinema que nós fazemos o dinheiro compra sobretudo tempo né e nós fizemos esse filme em 30 dias por 2 horas. Menos que isso eu não vou aceitar porque acho que já fica devendo a dignidade e o brio profissional. E então sim eu tenho bastante reservas apesar do filme no circuito dos festivais ter tido uma boa vida, ter tido algum destaque, é bom, mas infelizmente a sensação que eu tive no processo de financeiramente desse filme é que as comissões decisórias desse financiamento procuram coisas, mesmo dentro desse cinema dito “independente” e “de autor”, procuram coisas mais seguras…

Diego: Mais fáceis…

João: Pois é. Num comitê que não interessa qual chegaram a me perguntar: como eu iria “evitar o artificialismo dos personagens?” e eu disse “não, eu não vou evitar…”.

Diego: Sendo que é o ponto do filme esse.

João: Esse é o ponto do filme. Através do artificio que se chega a uma verdade.

Diego: Perfeito.

João: E a sensação que eu tenho é que hoje em dia se quer transformar o “cinema de autor” em uma cosia muito aproximada de um cinema ou audiovisual fácil de digerir “made in Netflix”. Não sou otimista, também nunca fui, por outro lado em termos de reflexões maiores sobre a arte naquilo que esse filme permite tu vês que a sociedade está muito mais compartimentalizada do que no século 19. Hoje em dia nós pagamos um bilhete pra ver o show de um artista a uma hora certa no local certo, antes por exemplo o espetáculo que os Berthelini dão na taverna há pessoas que não estavam lá por causa deles, as pessoas só estavam lá em viviam, as coisas estavam mais ligadas e essa se parece a face da sociedade de hoje em dia, o que é algo que nos faz pensar. Nós vemos um filme, um concerto, uma exposição, vamos a sítios específicos que já não tem relação com o que está a fora.

Diego: João, acho que é isso, muito obrigado viu.

João: Muito obrigado eu.