Entrevista com Leopoldo Tauffenbach

Leopoldo Tauffenbach é professor na Unip e também é atualmente organizador das novas sessões mensais do Comodoro. Antes disso, ele foi assistente de Carlos Reichenbach por oito anos na Sessão do Comodoro clássica, entre 2004 e 2012, na sala do CineSesc em São Paulo. Além de conversar com os novos e antigos espectadores das sessões do Comodoro, Leopoldo está sempre aberto a bater um papo sobre as sessões e o Carlão após as sessões. Em uma dessas ocasiões, decidimos pedir para ele ceder uma entrevista a Fuller, o que rendeu uma descontraída conversa com D. A. Soares, Guilherme Martins e Lucas Bueno, no Kantinho do Pão de Queijo, em frente à estação Vergueiro, sobre o impacto de Carlão e das sessões do Comodoro em gerações de espectadores e a sua relação pessoal com Reichenbach e, como temos chamado nesta edição, seu legado cinéfilo. Convidamos para que acompanhem a conversa.

Leopoldo Tauffenbach e o Carlos Reichenbach de papelão no CineSesc em 2025

Guilherme – Como foi teu primeiro contato com o Carlão?

Leopoldo – Eu já sabia quem ele era, mas pessoalmente, foi no Comodoro. Na primeira sessão, eu conhecia os filmes dele, ia sempre ao cinema, então via os trailers dos filmes do Carlão. Então, eu conhecia o trabalho dele. Mas pessoalmente, mesmo, foi lá na primeira sessão do Comodoro. Eu me apresentei para ele e tudo. Tem aquela coisa do Carlão ser muito generoso, né? E aí, cara, ele sempre conversava com todo mundo. Então, não era muito difícil se aproximar do Carlão, dependia das pessoas terem coragem de chegar nele. Foi lá, na primeira mítica sessão, com Canibal Holocausto e Santa Sangre. Eu me apresentei para ele.

Guilherme – Eu estava lá também. O que você sente sobre o que estamos tentando formular aqui, sobre legado cinéfilo dele. Você considera que o Carlão te influenciou nesse sentido?

Leopoldo – Ah, com certeza, cara. Vamos pensar, como cinéfilo, em muitos aspectos… Eu sempre tive uma educação cinéfila em casa. A minha tia é professora, nós sempre fomos muito educados a ver filme, educados com cinema. Assistia aos filmes de terror quando era criança, por exemplo, vi os filmes de noite na Bandeirantes. Passava muito filme de terror lá, eu vi os filmes da Hammer na Bandeirantes. Vi muita coisa por lá. Um dos filmes que eu tenho a lembrança mais antiga de ter visto, realmente, que é um negócio que eu lembro, foi O Abominável Dr. Phibes. Eu devia ter uns… 4 ou 5 anos, quando vi pela primeira vez, cara, tinha aquele outro também, O Homem Cobra, título inglês, é divertidíssimo. Eu tenho a lembrança de ver esses filmes, era muito comum eu ver. Teve o A Casa que Pingava Sangue, O Incrível Homem que Derreteu, sabe? Esses filmes passavam na televisão. Eu assistia. Meu pai, principalmente, me liberava para ver. Minha mãe era mais de querer me colocar na cama, e tal. E a gente tinha também, uma coisa assim de ir todo final de semana no cinema… Era a missa, sabe? Se arrumar e ir para o cinema.

Guilherme – Literalmente.

Leopoldo – Minha tia morava numa área, no Itaim, perto da Santo Amaro. Então eram muitos cinemas de rua na Santo Amaro, tinha o Cine Chaplin, tinha o Cine Del Rey, tinha o Vila Rica, o Vila Nova. O Vila Nova era pornô, então não se falava do Vila Nova e o Vila Rica era decadente, então evitaremos ir lá. Mas o Chaplin e o Del Rey, eram dois cinemas que a gente frequentou demais. A gente ia em outros também, meu pai gostava muito dos cinemas do centro, do Arte Palácio, do Marrocos. A gente ia em muitos desses cinemas. Eu tinha uma educação cinéfila. Quando eu passava férias na casa da minha tia, ela liberava eu ficar vendo filmes até tarde, na Globo, com 7 anos, mais ou menos, eu vi Freud Além da Alma

Guilherme – Realmente, você foi formado cinéfilo muito cedo, teve acesso a filmes muito cedo.

Leopoldo – E eram filmes que não eram para criança. Tinha os filmes de terror que, tudo bem, eram mais acessíveis, tinha aspecto lúdico, a criança consegue ver, mas eu assistia e gostava. Não achava os filmes enfadonhos. Eu, realmente, era uma criança esquisita. Assistia Freud, Além da Alma e gostava, mas tem muito adulto que não aguenta assistir ao Freud, Além da Alma, eu realmente assisti e gostei. Psicose, eu vi na casa da minha tia também. O Estranho que nós amamos, com o Clint Eastwood, aquele do soldado que vai parar no colégio das freiras…

Guilherme – Do Don Siegel.

Leopoldo – Isso, que é do Don Siegel. Então, eu tive essa educação. Cresci cinéfilo. Mas então o que o Carlão me ofereceu, foi um upgrade violento na cinefilia quando ele começou a me apresentar muitos cineastas. Jodorowsky, por exemplo, eu não fazia ideia sobre quem ele era até ver o Santa Sangre, o Canibal Holocausto, era uma coisa que eu ouvia falar, mas eu mesmo nunca tive acesso. O Takashi Miike, é uma puta ironia, conheci pelo Carlão, foi a segunda ou terceira sessão, e pouco tempo depois eu era especialista em cinema extremo japonês. A ponto de realizar uma mostra para a Prefeitura de São Paulo, foi a Oriente Extremo, um dos grandes auges da minha carreira e porra nenhuma.

Guilherme – O Carlão, ele abria pontes pra gente nesse aspecto de cavar, né? É muito diferente daquela cinefilia, mesmo aquela de quem leva a sério, mais tradicional.

Leopoldo – Foi exatamente isso, cara. O Carlão usava esse termo, ele definiu o Comodoro como uma experiência de prospecção cinéfila. A gente ia para ver um filme que você nunca tinha visto na vida, em alguns casos a gente não tinha ideia do que estava indo ver, ou coisas que você tinha ouvido falar. Quando passou o Spetters, por exemplo, do Paul Verhoeven, obviamente eu conhecia o Paul Verhoeven, mas a gente não via a fase holandesa do Paul Verhoeven, e ele passou dois filmes dessa fase, Spetters e O Quarto Homem.

Lucas – Do Miike que você falou que abriu as portas do cinema extremo, foi o Audition mesmo?

Leopoldo – Foi o Audition, bem no começo, nossa senhora…

Guilherme – Ele foi um filme que fez sucesso no cinema fantástico internacional, mas não teve oportunidade no Brasil, precisava baixar, numa época em que baixar filme não era como hoje em dia.

Leopoldo – Baixar filme ainda não era uma realidade…

Guilherme – Ele realmente apresentou para muita gente o filme.

Leopoldo – Era muito na base do DVD. Nessa época, a gente tinha um dólar amistoso, principalmente, taxas de correio amistosas, eu comprei muita coisa de fora. Tenho DVDs legítimos da Criterion dessa época, grande sonho de consumo. O Audition, eu eventualmente comprei também, uma cópia chinesa. Comprei pela eBay. Tetsuo, foi uma cópia chinesa, porque não tinha saído nos Estados Unidos. Eu só achava bootleg chineses, pirata oficial. Então, o Carlão virou uma chave na minha vida. E foi a partir do Carlão que eu me especializei em teoria cinematográfica, até então eu era cinéfilo apenas. Comecei a me profissionalizar mesmo. Eu comecei a me especializar, estudar, correr atrás… O Carlão meio que abriu as portas pra eu trabalhar com curadoria. Depois, com  trabalhar em júri, por exemplo, como cinéfilo, eu me especializei, me profissionalizei, graças ao Carlão.

Guilherme – E, nesse primeiro momento no Comodoro, quando foi que você começou a oficialmente ajudá-lo de alguma forma?

Leopoldo – Foi assim, a coisa começou a andar e calhou que na mesma época eu já estava estudando cinema japonês, então, eu comecei a correr atrás de filmes japoneses. Eu comprei o Audition, e aí eu comprei o Tetsuo, eu já tinha visto antes do Tetsuo, o Tokyo Porrada, do mesmo diretor, Shinya Tsukamoto, porque um amigo tinha me dado o VHS. E aí, eu assisti o filme e falei ‘que filme muito louco’. E aí, eu resolvi ir atrás do filme. Esse mesmo amigo me disse que tinha um filme desse cara que diziam era o grande filme dele, chamado Tetsuo, falei: mas é pra já. Comprei o DVD, assisti o filme e falei ‘rapaz…’. Calhou que o meu irmão, o Guilherme, na época também tava fazendo um curso de autoração de DVDs. E aí, a gente começou a fazer vários filmes, porque meu irmão tava manjando de autorar os DVDs. E aí, eu falo, meu, vamos autorar o Tetsuo? Então, qual seria a ideia, era a gente pegar o filme, e criar uma versão nacional. Uma versão brasileira ali em casa. Eu fazia os menus, toda a parte visual do rolê e ia traduzir as legendas, né? Fizemos, ficou simpático, ficou ok, para quem tava aprendendo ainda. Eu peguei e dei pro Carlão. Fizemos uma cópia e demos de presente. Eu fazia as capinhas, fazia de tudo. Tinha uma época que eu fazia as capinhas dos filmes que tinham sido lançados pela América Vídeo, eu refazia as capas para DVD. Tudo em vetor. O Carlão ficou super feliz, ficou super empolgado. E a gente falou pra ele, fizemos tudo, fizemos legenda e ele ‘fizeram legenda? peraí…’. ‘Vocês topariam fazer uma legenda para um filme? Para passar aqui no Comodoro’. Claro, né, ele pegou e emprestou o DVD do L‘alcova, do Joe D’Amato. E ele ficou super empolgado com a ideia, perguntou qual a disponibilidade que temos para fazer legenda. A gente fazia, não era um processo difícil, mas era trabalhoso. E foi aí que começou. Chegou na época das facilidades de baixar filme. Os arquivos estavam melhores, com qualidade boa o bastante. Tinha o esquema da gente pegar o arquivo, converter AVI para DVD, e criava um DVD. Não tinha tecnologia para passar direto em arquivo. Foi com esses dois que tudo começou, o Tetsuo eventualmente passou também, mas o primeiro foi o D’Amato. No começo, era esporádico, ele falava de passar em inglês mesmo e me passava algum para eu ir fazendo. E depois de um tempo ficou habitual mesmo (traduzir). E eu era encarregado de toda a sessão. Quando eu não encontrava a legenda para traduzir, às vezes ele achava, ou falhava miseravelmente… Foi o caso do filme do Frank Zappa, cara. Não tinha legenda em alguns filmes, a gente tirava de ouvido. O 200 Motéis do Frank Zappa, não rolou. Daí um dia, o Carlão achou, alguém subiu uma legenda do filme, tava em português de Portugal mesmo.

Guilherme – De certa forma, você oferecia uma ajuda operacional para ele.

Leopoldo – Ah, total, era isso. Todo mundo ganhava, era do meu interesse, eu queria ver esses filmes que eu nunca vi na vida, com a curadoria do Carlão…

Guilherme – Era uma curadoria incrível, era no CineSesc, hoje os cinemas grandes estão todos fechando, é uma das maiores salas que restam em São Paulo.

D. A. – É uma das melhores.

Leopoldo – Teve sessão que lotou, aquela de A Adolescente, do Buñuel. Muita gente ficou para fora. Eu sempre chegava uma hora antes e tinha um primeiro cara na fila, a gente brincava com ele até. Era o Marcelo Carrard. Durante muito tempo eu chamava ele de ‘o primeiro da fila’.

Guilherme – O Carlão falava que o Carrard era o ‘principal’ fã do Comodoro.

Leopoldo – Era mesmo, talvez ele nunca tenha perdido uma sessão, eu mesmo perdi algumas. Ele estava em absolutamente tudo.

Guilherme – No começo as sessões eram duplas, como é que foi essa mudança

Leopoldo – A primeira sessão ‘única’ foi a do Holandês Voador. Tinha aquela coisa que acabava muito tarde. Começava nove e meia as sessões, e durante a semana, numa quarta-feira… Era uma questão operacional mesmo. Tinha que segurar o funcionário, pagar hora extra para isso, e a coisa do metrô também. Foi feita uma reunião do CineSesc onde ficou decidido isso. A sessão única continuava sendo extremamente relevante. A sessão dupla tinha um gostinho diferente, óbvio, você via o filme, parava para fumar e voltava pro outro. Na época, podia fumar dentro do cinema, os fumantes ficavam no bar, dentro do CineSesc, Carlão incluso, era um clima muito bom. Você podia fumar e não perder o filme. Eu preferia fumar no intervalo, mas o bar ficava super lotado.

Lucas – Acho que essa anedota resume bem o espírito da coisa.

Guilherme – De certa forma, era muito incrível tudo isso acontecer no CineSesc que era um ambiente muito cult. E a gente tava revolucionando aquele espaço de forma totalmente marginal.

Leopoldo – As sessões do Comodoro foram revolucionárias. Isso realmente foi.  Por mais que o Carlão tenha se inspirado em outros projetos parecidos. Inclusive a sessão Raros, na sala P. F. Gastal, em Porto Alegre. Eu não sei se tem mais, se o Thomaz ainda faz algo nesse sentido. Mas tem o Christian Verardi, que tem o projeto dele, A Vingança dos Filmes B, mas é na Cinemateca do Capitólio, focado em filmes de terror que é a praia do Christian, que também é um projeto nos moldes do Comodoro, lembra bastante.

Guilherme – Quais são as sessões do Comodoro clássico que mais te marcaram?

Leopoldo – A primeira, por motivos óbvios, porque, cara, fez eu me perguntar: é sério que vai ter isso todo mês? Um sonho do cinéfilo. A primeira foi muito marcante. A sessão do Audition também foi muito marcante. Porque na mesma sessão teve o Incubus, do Leslie Stevens. É um dos poucos filmes falados em esperanto, foi um negócio maluco, uma atmosfera incrível. Tem gente que acha muito chato esse filme, eu até entendo, mas é um filme diferente. Tem um clima que você não encontra, é um filme sobre demônios com uma atmosfera tão elegante. Óbvio, a sessão do Tetsuo, também porque ele meteu o som, tava alto pra caralho! Eu falei, é um filme punk, tem que ter o som punk. Ele falou ‘exatamente’. A galera começou a ir embora, porque o som tava ensurdecedor.

Guilherme – O filme é propositadamente agressivo.

Leopoldo – Ele é sonoramente agressivo, foi uma sessão maluca. Tava sinistro. Teve a sessão do Visitor Q, eu passei pra ele também. Tava rolando a mostra do Oriente Extremo, eu tinha feito a legenda, peguei e dei o filme e ele pirou. Eu dei também o Gozu, que ele surtou, e falou que precisava passar no Comodoro, mas infelizmente ele nunca conseguiu passar. Ele faleceu antes, entrou na sessão do novo Comodoro. Teve a sessão do Manifesto Pânico… O filme do Fernando Arrabal, Viva la Muerte, fiquei perturbado, passou com Fando y Lis, do Jodorowsky. Eu fiquei meio torto. Meu irmão ficou com o filme do Arrabal.

Guilherme – Olha como é incrível: eu marquei três sessões aqui para citar, a primeira foi a inaugural também, por causa do Canibal Holocausto, a segunda é o Audition. Foram muito impactantes. E marquei também aquela com os curtas do Richard Kern e do Nick Zedd, os curtas punks. Porque eram filmes que eu nunca teria conhecido se não fosse o Comodoro. Então me marcou muito, independente do quanto gostei de cada um dos curtas.

Leopoldo – Essa sessão foi incrível. Jamais você veria esses filmes. O Carlos tinha essa coisa de botar curtas. Depois de um tempo, ele começou a passar os curtas da galera. Virou um espaço de exibição de iniciantes. Teve muita gente que exibiu os primeiros curtas, como o Gabriel Carneiro, o Marcelo Valletta. Mas essa sessão de curtas (que mencionamos), foi incrível. Foi uma sessão em homenagem à mostra do  Festival Internacional de Curtas, o Kinoforum. Ele resolveu fazer uma curadoria underground, foi incrível, Richard Kern, Nick Zedd. Teve o Arthur Omar, filme pesadíssimo. Depois teve uma exibição do Três Cortes, que era do Fernando Rick, André ZP e Kapel Furman. A verdade é que toda a sessão foi marcante.

Guilherme – A gente sabe que com o tempo foi diminuindo a novidade, diminuindo a quantidade de pessoas. No começo tinha muita gente, mas é natural, depois virou rotina, o pessoal foi desistindo, as pessoas iam menos desesperadas. Dava a impressão, no começo, que não ia durar, virava tudo ou nada. Era algo que acontecia porque era o Carlão, ele conseguia equilibrar as coisas.

Leopoldo – Exatamente… E quando o Carlão faleceu, ficou aquela coisa, como é que fica o Comodoro? O Comodoro vai continuar, não vai? A direção lá do time Sesc me chamou para conversar sobre. E eles falaram, assim, não viam sentido de continuar o projeto, porque o projeto era o Carlão. E eu concordei com eles. Na época, teve muita gente me perguntando sobre isso, eu não era o dono. Fora que a gente estava, literalmente, ainda lidando com a perda dele. Ele faleceu no aniversário dele, a gente cantou parabéns no velório dele, tinha bolo. Foi chocante. Naquele ano, o pessoal do Kinoforum me fez um convite para programar uma sessão em homenagem a ele, eu fiz a sessão, tentando emular um pouco o espírito cinéfilo do Carlão. Botei um filme do Petter Baiestorf, botei um Ivan Cardoso, o primeiro curta do Shinya Tsukamoto. Coloquei um filme do Inácio Araújo. Botei um filme da turma do Cinema of Transgression, que é esse pessoal do Richard Kern. E foi isso. Nessa época, eu não me sentia capaz de tocar a sessão do Comodoro.

Guilherme – Não se sentia capaz, mas ficou com essa curadoria na mão por todo esse tempo. Como passamos pro novo Comodoro?

Leopoldo – E aí, corta para 2023. O Marcelo Colaiácovo, eu conhecia de outros carnavais. Conheci por causa do meu irmão, inclusive. Ele era, na época, manager, produtor, alguma coisa, da banda Zumbis do Espaço. Meu irmão tava com uma reputação no meio do rock, porque ele fez um DVD para uma banda de metal, chamada Torture Squad, tava rolando das bandas nacionais lançarem shows assim, filmava o show, montava e tal. Ficou muito acima da média, teve uma matéria na Rock Brigade, elogiando, falando que deveria virar parâmetro pras bandas de heavy metal. Ele fez também um DVD de homenagem ao Korzus, 25 anos de carreira e tal. Daí veio o Marcelo que veio pedir para fazer um DVD para o Zumbis do Espaço, ficou legal também. Então, eu conheci o Marcelo, ele também conheceu o Carlão, conhecia o Comodoro, na época ele trabalhava numa produtora e me chamou para fazer uns trabalhos também. E aí, em 2023, ele me conta que ele e a companheira dele, a Renata Forato, estavam reabrindo o Soberano. Ele me fez a proposta de recriar a sessão do Comodoro no Soberano.

Guilherme – E ele sabia que você tinha essa lista do Comodoro?

Leopoldo – Ele sabia que eu tinha. O que que era essa lista? Quando ficou fácil baixar filmes, o Carlão me gravava 4, 5 filmes de uma vez para ir fazendo as legendas. E tinham listas, também. Ele falava que é ‘pras sessões futuras’. Essa do G. G. Allin (seria a sessão seguinte do Comodoro no Soberano a nossa entrevista), por exemplo, foi um dos filmes. Então, tinha tudo isso. Eu perguntei, como a gente faz? Eu fiquei com esses filmes, as gravações que ele me deu. Tem filmes ali que continuam sem cópias decentes. Tem muitos desses filmes que tiveram blu-ray, cópias com mais qualidade, quando ele topou fazer, eu fui atrás de conseguir essas cópias. Alguns filmes estavam em AVI, procurei uns formatos de qualidade superior. A gente demorou um pouco para fazer, foi no final de 2024 que colocamos o plano em marcha. O Marcelo fez uma sessão zero, que seria a primeira sessão do Comodoro, mas que seria uma homenagem ao Carlão, que era com o filme do Ody Fraga. A Dama da Zona. E aí, oficialmente, a sessão 1 do Comodoro, foi a exibição do Ilha dos Prazeres Proibidos em 16 milímetros. Daí, era Carnaval, e ele tinha muito dessa, das datas comemorativas. Quando caía carnaval, ele metia um filme meio safo. Foi o Papaya, do Joe D’Amato. O primeiro que era pra ser o Necromentia, caiu de cara porque não cabia no Carnaval. Daí deu que, sem querer, o filme caiu no mês de julho, o mesmo que era para ele ter sido exibido em 2012.  E a ideia é essa, a gente vai até esgotar a lista dos filmes que ele queria exibir. Provavelmente, não está nessa lista oficial, porque não podia exibir no CineSesc, mas em algum momento podemos exibir os filmes pornôs do Joe D’Amato, porque o Soberano permite isso.

Lucas – Isso eu queria saber, o que você achou legal dessa proposta do Marcelo que te fez rever sua ideia sobre essas sessões? De receber esses filmes, anos depois.

Leopoldo – Casou, né. Tinha passado 10 anos do falecimento do Carlão. E aí, cara, o Leopoldo de 10 anos atrás, negaria o projeto. Mas eu entendi de outra forma, fazer ele.

Guilherme – Não é mais você tomando o lugar do Carlão, de certa forma, né?

Leopoldo – Isso. É o contrário, tanto que o Marcelo, no primeiro momento, ele fez a arte dizendo curadoria de Leopoldo Tauffenbach. Eu falei, não. A curadoria não é minha, coloca organização, sei lá. Mas a curadoria é dele, é do Carlão. Uma curadoria póstuma e vamos ser fiéis a isso, até acabar. Eu acho, não falei com o Marcelo sobre isso, mas o lance quando acabar os filmes, é a gente ir nas listas que o Carlão deixou. Ele deixou muitas listas no site dele, filmes favoritos dele. Dá pra fazer muita coisa. Virou um projeto em homenagem ao Carlão, vai continuar sendo uma curadoria dele, dez anos depois, é outra coisa. E é o Soberano, caralho, é a casa do Carlão, e de muitos outros.

Guilherme – É interessante, o Comodoro clássico acontecia numa espécie de templo do cinema, agora (no Soberano) tá numa outra parada, que ao mesmo tempo dialoga muito com esse espírito underground.

Leopoldo – Exato. É outra coisa. Continua a curadoria do Carlão, mas é outro projeto e público. É engraçado, eu estou chegando na idade que o Carlão tinha quando ele começou o projeto, o Comodoro. Eu era um jovem naquela época, e agora eu vejo um novo público jovem indo nas sessões do Comodoro no Soberano. É uma outra geração de cinéfilos tá sendo formada agora.

D. A. – O primeiro contato que eu tive com o Comodoro, foi conversando com pessoas que são professores, amigos mais velhos, como o Guilherme, eu vejo que o público começou com pessoas novas, né? Eu queria perguntar, justamente, sobre isso, sobre esse novo público do Comodoro.

Leopoldo – Cara, na última sessão tinha, por exemplo, vocês (Lucas e D. A.), alunos do Francis Vogner, tinha aluno meu, e é uma coisa muito louca. Porque o Carlão era professor na USP, o meu cunhado teve aula de fotografia com ele na USP. O Comodoro sempre teve essa relação com educação cinéfila, realmente… No fundo, o Carlão professor estava nele. Eu sou professor hoje, o meu olhar também é muito direcionado, vai muito nessa direção. Eu vejo o público que está nas sessões, realmente aprendendo, iniciando nessa prospecção cinéfila. Eu vejo diferenças, obviamente, porque, veja, hoje acessar esse tipo de material é mais fácil. Não tem comparação com o que era naquela época, mas eu vejo que nesses casos em particular, são jovens com disposição de sair de casa para ter essa experiência. Não é apenas pelo filme, sabe? Porque se fosse apenas o filme, dava pra ver em casa, veria no seu computador. Eu estou vendo que, em tempo, para essa geração nova que está no Soberano, é o pacote completo também. Entrar nesse espaço que um dia foi um lugar importante para o cinema paulistano,  tem uma relação com a memória desse mesmo cinema, e o único bar cinéfilo.

Guilherme – O bar que é um museu.

Leopoldo – Porque, veja, o Soberano não era um bar cinéfilo na época. Ele era apenas um bar, como esse aqui. E, agora, esse renascimento do Soberano e de um público cinéfilo, eu fico me perguntando. Será que esse público que está indo (agora) no Soberano, não é um público que também sempre esperou um projeto como o Comodoro aparecer, da mesma forma que nós, cinéfilos daquela época, esperávamos por um projeto? Eu vejo muito isso. É triste a parte eu reconheço meu envelhecimento, não sou mais o jovem de outrora, mas é muito satisfatório ver uma nova geração de cinéfilos que está ocupando esse espaço no Soberano… E vendo filmes incríveis! Porque o Comodoro se trata disso, se trata de ver filmes incríveis.

Guilherme – Tem algo no Carlão que me fascina bastante, é que a minha sensação é que em 2025, tanto os filmes quanto a forma que o Carlão tinha de se relacionar com o cinema, parece que está cada dia fazendo mais sentido para os jovens. Os jovens adoram os filmes dele, de maneira que na época, talvez tivessem resistência.

Leopoldo – Eu concordo, por exemplo, fui na Cinemateca ver o Meteorango Kid, tempos atrás.

Lucas – Eu tava nessa sessão.

Leopoldo – Acho que você estava. Eu tava com o Gil Mendes, que também costuma estar no Comodoro, me chocou a quantidade de jovens que estavam lá. Caralho, o jovem tá indo ao cinema ver o filmes da época da Boca, do cinema de invenção. Que loucura, na minha época, sei lá, esse jovem seria eu, sabe…

Guilherme – É exatamente isso que eu penso. A minha sensação é que na nossa época, a gente se sentia muito mais sozinho.

Leopoldo – Eu ia olhar e o público, com certeza, iria ser outro. Ontem mesmo, na sessão do Cinefantasy, que eu fiz a curadoria, uma porrada de aluno meu veio. Tudo bem que eles vão ganhar hora, mas é interessante. Quando eles tem preguiça, eles arrumam outro jeito de ganhar as horas. O jovem, de fato, tá quebrando esses limites. Porque, até uns anos atrás, eu confesso para vocês, como professor… Eu sentia o peso da Marvel na formação cinéfila dos meus alunos. Porque eu estava começando a dar aula para alunos que nasceram com a existência do MCU, Homem de Ferro é de 2008. Mas, então, eu tava dando aula para esse povo, isso fazia diferença – a galera entendia cinema como filme da Marvel. Vejo, agora, que essa mesma geração, talvez esteja em busca de outra coisa. É outro cinema, não é comercial, parece que essa ficha tá caindo. Eles precisam de oportunidades, também, para ter contatos com essas coisas, Como foi, na época, com o Jodorowsky, eu vendo ele no Comodoro. Eu fui ver os filmes dele no cinema, pouco tempo depois ele veio ao Brasil, teve a mostra dele no CCBB, com a mítica leitura de tarô que ele fez, na sala mesmo, na frente de todo mundo.

Guilherme – Eu escrevi sobre o Jodorowsky uma vez, quando eu tinha a idade deles (Lucas e D. A.). E eu conheci o Jodorowsky por causa do Carlão, porque ele escrevia muito sobre ele, nas colunas. Ele sempre falou muito sobre o Holy Mountain. Eu fui ver esses filmes com muita expectativa.

Leopoldo – Montanha Sagrada. Eu encerro o semestre com os novos alunos passando o Montanha Sagrada. É um belo desafio para o aluno, é um batismo. Exatamente, esse é o efeito. A minha história com Montanha Sagrada é a seguinte, tinha visto o Santa Sangre apenas, até que aquela distribuidora piratinha, eu nem vou citar o nome aqui, ela lançou uma caixa, da Arrow, do Jodorowsky. Eles simplesmente piratearam a caixa deles. Era uma distribuidora, eles lançavam filmes pirateados. Tá, o nome deles era Continental.

Guilherme – Eles até tentaram mudar de nome, depois que tavam queimados.

Leopoldo – Eles relançavam Criterion. Tiravam os títulos da Criterion dos videos. Eles fugiam da polícia. Teve história do Mojica, eles lançaram filmes do Mojica em VHS, ele foi lá cobrar e os caras deram tiro!

Lucas – Ele foi expulso a bala pelos piratas!! Tema de filme, hein…

Leopoldo – Aconteceu, cara, é documentário… Eu vi a caixa na 2001 da Paulista, peguei e falei ‘hoje vou ver o tal Montanha Sagrada’. Eu assisti, falei ‘que porra foi essa…’ e fui dormir. Cara, eu acordei, a primeira imagem que veio quando eu abri os olhos, foi o filme inteiro. Tudo. Passei o dia pensando. Não conseguia não pensar nele, daí vi o filme de novo. Assisti três vezes, cara, no fim de semana. É um filme divisor de águas. Na boa, vou dizer, o Carlão me apresentou coisas fantásticas. Minha percepção sobre cinema mudou nesse dia. É um outro tipo de liberdade. Eu trabalho muito isso com meus alunos, acredito em formação de repertório. Você precisa ver coisas que abram sua cabeça. Precisa descaralhar. Tem aquele designer italiano, o Bruno Munari. Ele fez de tudo, pesquisou sobre processos criativos. Ele tem um livro maravilhoso chamado Fantasia, é sobre fantasiar, imaginar… Ele fala que você não tem como criar algo novo, sem um repertório. Por exemplo, você sabe que loucura sai do cruzamento entre um vidro e uma borracha, por causa que você sabe o que é uma borracha e o que é um vidro. Eu, como professor, acredito muito nisso, em formar um repertório. Foi exatamente o que o Carlão fez comigo, foi um grande curso de cinema que eu fiz durante oito anos. Uma grande faculdade de cinema, conheci Fulci, Jodorowsky, Jesus Franco, caras que eu coleciono. Cheguei a ter 150 filmes do Franco em DVD, nem perto dos mais de 300 dele. Teve uma mostra na Cinemateca, do Remier Lion, sobre Jesus Franco. Uma semana eu morei na Cinemateca vendo os filmes dele. Imersão total. Hoje em dia, o único diretor brasileiro que está no mesmo patamar de ser um diretor-cinéfilo, é o Kleber Mendonça Filho. Único. Um cineasta que é abertamente cinéfilo, que trabalha para as pessoas verem filmes, é curador na prática.

Guilherme – Isso é um aspecto da cinefilia do Carlão, de cavação, de procurar imagens ignóbeis… Como ele chegaria num filme como Necromentia?

Leopoldo – Nem é um filme muito bom, mas nem é sobre isso. Ele tinha essas coisas de ir procurar, qual o cinema que está sendo feito hoje, fora dos radares. O Carlão tinha um projeto, inclusive, ele estava escrevendo um livro sobre o cinema pornô.

Guilherme – A única vez que eu estive na casa do Carlão, ele me falou que estava fazendo uma pesquisa sobre os grandes autores escondidos do pornô. Era isso.

Leopoldo – Iria chamar Cinema Saturnal, o livro. O que sobrou disso, na verdade, dessa pesquisa, é uma lista. O livro seria maravilhoso. Foi quando ele descobriu o Bruce La Bruce, antes dele ser reconhecido como hoje em dia. Veio aqui, deu entrevista, lançou filme, participou de um filme do Gurcius (Gewdner). Na época, ninguém conhecia. O filme do Gurcius (Privadas de suas vidas, co-dirigido pelo Gustavo Vinagre) é produzido pelo Rodrigo Teixeira, diga-se de passagem. Olha essa cadeia de reviravoltas. No final, não se tratava de ser bom ou ruim, ser mais ou menos… É sobre ver, conhecer os filmes.

Guilherme – E ele levava tudo a sério, ele olhava para todos os filmes com a mesma generosidade que tratava as pessoas. Ele realmente dava oportunidade para os filmes.

Leopoldo – Qualquer pessoa que conheceu o Carlão, se você conversar, vai falar de generosidade. A gente se encontrava às vezes na rua, para ele me passar os filmes do Comodoro, um dia tinha um cara vendendo uns livros na rua, nós paramos, ele olhou, não interessou, a gente ia sair e o cara falou “o senhor não é aquele diretor, o Carlos Reichenbach?”. O cara tinha visto um filme dele, o Carlão trocou uma ideia com ele, nunca recusou conversar com ninguém. Cara, no Comodoro, vocês não tem noção da quantidade de maluco que aparecia. A sessão do filme dos Ramones, era um filme que todo fã dos Ramones queria ver, mas era muito difícil. Lotou. Fã de Ramones é todo um nicho, o único jeito era comprar uma cópia na Galeria do Rock. Meu irmão, por exemplo, é fanático, ele era todo careta, mas na adolescência o apelido dele era Ramonheiro, porque a droga dele era Ramones.

D. A. – Os espectadores também eram extremos.

Guilherme – Era uma fauna, uma fauna diferenciada.

Lucas – No próprio Soberano, ainda tá formando um público novo. Um nicho.

D. A. – Eu gosto que o CineSesc é o templo, mas o Soberano é meio que Meca, é a cidade.

Leopoldo – Eu tenho gostado, cara, gostado até demais. Todo mês eu saio de lá destruído. E estamos aqui hoje, bebendo de novo!

Lucas – Mas tem que ser, conversa sobre o Comodoro, tem que ser regada a cerveja.

Guilherme – Você falou sobre seu trabalho como curador, do Cinefantasy, Oriente Extremo, sobre se tornar curador a partir disso. Você sente algum peso dessa relação, se é que seria justo usar essa palavra, de ser o Leopoldo Tauffenbach, assistente de curadoria do Carlos Reichenbach?

Leopoldo – Realmente, depois que o Carlão faleceu, ficou meio claro, pela reunião do CineSesc, eu era o braço direito dele. Eu nem me vejo assim, é uma imagem que se formou. Mas hoje eu vejo, quando tinha algum problema, a Simone, que hoje é a gerente do CineSesc, dava pra mim resolver. O peso, de verdade, não é peso, mas eu acho a palavra interessante. Porque eu não vou negar, há um peso, mas é outro. É o peso de não me equiparar voluntariamente ou involuntariamente ao Carlão, então, por exemplo, por isso eu sempre quis deixar claro que esse novo Comodoro começa a partir de uma curadoria póstuma dele. Uma curadoria que ele deixou e eu to simplesmente organizando. Estou organizando porque eu sou a pessoa que tem acesso a essa curadoria, mas eu sempre quero deixar claro, que Carlão Reichenbach teve apenas um. Mesmo que continue, agora como um projeto sobre a memória, será fiel aos princípios. Então, o peso, na verdade, existe. Essa responsabilidade de lidar com a memória de alguém. Às vezes, eu me pergunto, sabe, será que algum dos filhos dele, não teria mais legitimidade para fazer, tocar esse projeto? Ou talvez não, porque não conheciam o projeto tão a fundo como conheci. Eu tenho esses dilemas, ainda tenho. Realmente pesa. Semana passada, o Carlão tinha uns zines, eu refiz alguns, refiz tudo. As máquinas tão melhores hoje, então, a impressão está bem melhor. Eu fiquei na dúvida, será que eu faço isso? Nessa sessão do Teruo Ishii, eu fiz. Porque isso surgiu agora? Eu passei meses num dilema moral. Fiquei pensando será que to copiando? Eu acho que isso também é um trabalho de memória. Não estou sendo ofensivo à memória dele, o problema seria se estivesse querendo imitar o Carlão. Querendo trazer pra mim algo que não é meu. Não é um peso de fardo, mas um peso em termos de responsabilidade.

Lucas – Quanto tempo ainda tem? Quanto tempo de sessão do Comodoro ainda tem?

Leopoldo – No total, contabilizando tudo que tem, são uns 30 filmes, dá uns dois anos e meio. Acabando esses filmes, a gente entra na outra fase, de pegar aquelas listas do Carlão, para ir expandindo. As listas dele são infinitas… Uma vez eu dei para ele de presente uma minissérie do Michele Soavi, que é o diretor do Dellamorte, Dellamore, do Stage Fright, filmes incríveis. Dói demais um cara desses não estar produzindo. Ele fez essa minissérie, chamada Uno Bianca, que era sobre assaltantes a banco reais que aterrorizaram a Itália, nos anos 70… Eles usavam o Uno branco, ninguém pegava eles, porque era o carro mais popular do país. Eu tinha essa ambição, de quem sabe, exibir, talvez parte 1, parte 2. Fazer em dois dias? Sei lá. A série é incrível. Os episódios tem uns 40 minutos. Daria uma sessão de 3 horas, o Carlão adorou. Então, é isso. Tem muita coisa.

Lucas – Um legado em múltiplos sentidos.

Leopoldo – O projeto virou cuidar da memória cinéfila do Carlão.

Entre tantos conhecidos, incluindo o próprio Carlos Reichenbach ao fundo, Leopoldo Tauffenbach (à esq.) fuma seu cigarro, na sessão de Macumba Sexual no Comodoro em 2005.

D. A. – Leopoldo, para fechar: quais são seus detalhes favoritos do filme Macumba Sexual?

Leopoldo – Pô, a Rita Wilson. Cara, eu sou fãzaço dela, sem dúvida nenhuma. Ela tem uma história muito louca, de uma mulher transexual, que venceu, virou uma ídola do euro sleaze. A Rita Wilson, se tem ela no filme, é lógico que eu vou ver. Ela é o melhor do filme, no resto, é um filme do Jesus Franco, entendeu? Mas quando tem a Rita Wilson, eu não nego nem a pau. O euro sleace, inclusive, ele me fez apreciar esse cinema de exploração europeu, umas picaretagens feita para explorar o corpo das mulheres. Jesus Franco, o Jean Rollin… Não tem cineastas como o Jean Rollin, uma carreira onde predominam filmes de vampiras. Teve também a mostra, A Virada das Vampiras, no auge da Virada Cultural, eu ajudei ele a fazer. Eram apenas filmes de vampiras, ele meteu logo três do Jean Rollin. Depois, o Remier chamou a gente para refazer essa mostra na Cinemateca. Fiz todas as legendas, foi uma baita experiência.