Erupcja, de Pete Ohs
(EUA, 2025)
“Desastres, revoluções e vulcões não fazem amor com os astros.
As revolucionárias e vulcânicas deflagrações eróticas são antagônicas do céu.” – Georges Bataille, O Ânus Solar (1927)
Erupcja grava Charli XCX correndo pelas ruas de Varsóvia com o obturador lento. As imagens, por conta dessa escolha estética, se deformam: Charli XCX se deforma na cidade, torna-se parte dela, desaparece em Varsóvia. Ela se dissolve na luz enquanto corre ao lado de Lena Gora, lado a lado pelas ruas de Varsóvia. Lena Gora é Nel, dona de uma floricultura em Varsóvia, enquanto isso Charli XCX é Bethany, e ela por sua vez é JESÚVIO, mas por algum momento o filme nos faz pensar nela apenas como a futura noiva de Rob.
“Às vezes a terra se masturba com frenesi, arruinando por completo sua superfície.
O Jesúvio é pois imagem do movimento erótico, que às idéias do espírito, através de enorme arrombamento, confere força de escandalosa erupção.” – Georges Bataille, O Ânus Solar (1927)
A princípio, o filme trata as personagens dessa forma afastada, a dona da floricultura, a turista britânica que viaja junto ao namorado. Esses dois personagens, narrativamente, possuem núcleos próprios e mundanos: Nel tem Ula da mesma forma que Bethany tem Rob. Esse início de filme pode ser marcado por uma certa apatia: os planos de Bethany no quarto do hotel, por exemplo, são planos aproximados e hiperfechados que causam uma sensação claustrofóbica, como se o quarto de hotel fosse minúsculo. Enquanto isso, Nel, em sua apatia, tem uma posição diferente: planos mais abertos, espaços abertos do lado de fora da floricultura e ela ali, sozinha, no centro dos planos com seu… Cigarro elétrico.
Quando as duas se encontram, o obturador desacelera, as imagens se dissolvem, ou melhor, os vulcões entram em erupção. Para Bethany e Nel, essas duas mulheres que convivem com as artes na europa, que acompanham a cena techno de Berlim, essas erupções que marcam seus encontros são um sinal de sua afeição, de sua química sexual, de certa forma de seu amor. Esse fenômeno, que se conecta com diferentes coincidências que acontecem na vida dessas duas mulheres sempre que elas se encontram, só é desvendado no final, por Rob, um homem consideravelmente chato e pacato, que leva a namorada para os encontros entediantes e a ideia de criar uma viagem perfeita com a namorada. Ele percebe: vulcões ativos existem em todo o mundo, o que resulta em ao menos dez a vinte erupções por semana em todo o mundo, Rob no entanto não leu Bataille ao sugerir que os vulcões não tem nada a ver com os encontros das duas mulheres, e as duas não o compreendem quando pensam que a questão é tão somente sobre elas.
“Os dois movimentos principais são o rotativo e o sexual, de combinação expressa numa locomotiva de pistões e rodas.
Dois movimentos que se transformam um no outro, reciprocamente.
Assim notamos que a terra e dar voltas faz animais e homens transarem (e, como aquilo que resulta também é a causa que o provoca), animais e homens transam fazem a terra dar voltas.” – Georges Bataille, O Ânus Solar (1927)
I. O planeta bate punheta 10 a 20 vezes por semana (um notório punheteiro).
O filme trabalha essa erupção de sensualidade de uma forma bastante sutil, Bethany e Nel saem pelas noites, dançam juntas, dormem juntas, entretanto o próprio filme põe em dúvida se elas de fato chegam a transar ou se apenas dormem juntas. Esse frenesi intenso que as duas vivem juntas, que fazem Bethany abandonar Rob ou Nel ser negligente com Ula, é retratado de forma pouco explícita pela imagem. A narração nos leva a crer o que aconteceu ou deixou de acontecer, mas vemos poucas vezes Charli encenar esses momentos. As cenas onde a encontramos despida, por exemplo, são na companhia de Rob: quando ele a encontra saindo do banho, ou quando ele a leva para receber uma massagem, mesmo assim são contextos mais cotidianos que sexuais de fato.
A verdade é que Erupcja é um filme demasiadamente indie, e isso explica uma série de escolhas estéticas da decupagem e de suas experimentações. Talvez até mesmo justifique a escolha de Charli XCX dentro do casting do filme, entretanto, marca uma estreia adequada para a cantora como atriz.
Enquanto escrevo sobre Erupcja, agradeço a Charli XCX por produzir e estrelar o próximo filme de Takashi Miike e penso sobre o quão diferente esse filme será de seu próximo filme (e isso me anima).
D. A. Soares
