
Eu Mereço um Amante Cujo Despertar Faça Arder Ruínas Flamejantes pelos Céus, de Mani Haghighi
(مرا عاشق چنان باید که هر باری که برخیزد قیامتهای پرآتش ز هر سویی برانگیزد, Irã, 2026)
A oferta é sempre desafiadora: como construir documentários que se misturam ao registro extremamente maneirista? Os filmes de Mani Haghighi costumam flutuar entre gêneros, misturar fatos, entrevistas, elementos da história – e, por consequência, da arte – iraniana com planos arrojados, uma construção visual que não permite que se acredite que as coisas não sejam, à sua maneira, encenadas. Não é F for Fake, embora o elemento do falso seja relevante para seu filme. Quando colocamos em paralelo com o seu A Dragon Arrives, exibido pela Mostra em 2016, é possível dizer que aquele filme trazia os elementos documentais de maneira mais orgânica a sua narrativa ficcional. O Eu Mereço um Amante Cujo Despertar… é um documentário, seus dois personagens centrais são um casal de artistas que colecionam coisas raras. Documentos, pequenos objetos, o cineasta questiona: o que os difere de um acumulador? O método e a psicologia por trás do desejo que gere as coleções do casal realmente remetem ao comportamento de quem sofre do transtorno, mas a organização, o esmero e o cuidado na curadoria constroem uma identidade.
Não parece nem mesmo um caos controlado, porque o caótico é incontornável, eles mesmos têm dificuldade de definir o tipo de coisas que os interessa. Quando o cineasta e seus personagens, muitos jovens trabalhadores que assistem o casal, começam a analisar os documentos, fica evidente que, independente dos métodos, o trabalho dos artistas é interessante, o que os detém sobre cada história que eles resgatam não são elementos caricatos, eles reconstroem e preservam a memória íntima de um povo. Porém, os planos ousados, as cores tão bem trabalhadas, tudo isso é uma parte do que gere a obra do cineasta, mas o que me parece que difere o diretor da maioria é a forma, extremamente singular, com a qual o filme apresenta o seu tempo, o presente, aquele instante da realização. Seus filmes querem atacar a história, de maneira direta, e estão sempre em choque com a história que se constrói no hoje. É assim que começa o filme: suas primeiras cenas foram perdidas. A razão é a intervenção das autoridades locais, acusando a filmagem de não respeitar as regras sobre vestimentas para as mulheres. O conteúdo é confiscado, restando apenas Haghighi narrando e as fotografias do que eram as cenas.
Como observamos antes, não é um documentário em que se aponta a câmera e acabou, as cabeças falantes e afins. Perder a filmagem é perder algo que não se recupera. Eles voltariam a ter problemas com as autoridades ao longo das filmagens, o filme seguirá permitindo aos seus personagens existir como desejam em cena. Nenhuma mulher cobre o rosto em nenhuma cena. Há espaço também para as assistentes deixarem evidente o desgosto pelo tratamento pessoal que um dos artistas, o homem, oferece a elas.
Quando parece que construímos todo o caleidoscópio central da obra, é feita uma pausa para os personagens jovens, os assistentes, apresentarem as artes que têm em seus corpos na forma de tatuagens. O artista faz um discurso sobre como ele desgosta, como é uma impureza no corpo das pessoas, enquanto todos se apresentam contra um fundo branco com a luz estourando seus corpos. Então, sua companheira o desafia: ‘você não vai mostrar a sua tatuagem?’ – embora visivelmente encurralado, ele aceita, arregaça suas mangas e mostra uma tatuagem bastante amadora no braço, revelando que tinha sido fruto de uma briga de rua na juventude, quando, após um episódio, seu amigo teria desafiado a marcar na pele o momento. Toda essa sequência é interessante, pela postura diferencial que o filme assume diante de seus personagens centrais. Eles são desafiados, tanto no conforto de suas obras, quanto no discurso, sem que o registro abandone uma certa leveza, como se estivessem realmente confortáveis em se expor, operários e patrões. Após esse momento de certa leveza, o filme adentra seu último segmento.
Novamente as filmagens são interrompidas, sequências gravadas com a equipe em um ferro-velho são confiscadas. Antes que a equipe possa tentar fazer qualquer acordo para recuperar parte delas, outro evento muda o rumo das filmagens. O Irã é bombardeado pelos EUA e Israel. O cineasta conta que tanto o local onde o material ficava, quanto o ferro-velho, foram completamente destruídos, não existiam mais. Não era possível refilmar nada, não era também o mesmo Irã. A maneira como ele articula, organicamente, os elementos externos é sempre muito interessante, particular. Ele não perde seu traço de estilo, mas consegue expor tanto as represálias locais, quanto o abismo que cai dos céus vindo de fora, com uma firmeza de olhar, de postura, não é sensacionalista. É possível sentir exatamente um pouco do desespero que é fazer arte no Irã neste século. Há espaço para respeito aos artistas centrais, com real curiosidade pelo seu trabalho, convertido em imagens que parecem até parte de um filme hollywoodiano de heist, como Uma Saída de Mestre. Ainda que seja meio óbvio que o cineasta possa ter um afeto maior pelos assistentes, ele expõe os artistas, sem dar as costas a eles. Como expõe a sua sociedade no momento, o seu Irã, com seu intervencionismo e autoritarismo, a censura e as ameaças, sem deixar de evidenciar que, diante de tudo, os bombardeios que caíam dos céus eram incontornáveis. Eles soterram uma parte da história daquele povo, a mesma que aqueles artistas e o cineasta lutam para manterem vivas. Podem interessar a poucos, podem interessar a muitos, pode ser uma parte importante da história do cinema iraniano, como no A Dragon Arrives, pode ser apenas um pedaço da vida de uma pessoa comum, mas é sempre uma história.
Guilherme Martins
