Extremos do Prazer, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 1983)

“Quero mostrar o corpo para falar do espírito” – Carlos Reichenbach

Carlão considera Extremos do Prazer o último filme da primeira fase de sua carreira, que tomaria rumos mais pessoais a partir de Filme Demência. De fato, há aqui uma sensação de ápice, de culminação. A dramaturgia de Carlão nunca foi tão simultaneamente sensual e certeira, e por isso considero Extremos do Prazer um de seus melhores trabalhos. Curiosamente, o filme parece ter um escopo menor do que a maioria de seus antecessores: ao invés de imensas praias, tortuosas estradas ou da íngreme e borbulhante cidade de São Paulo, a ação se concentra totalmente no interior de uma pequena chácara. É nesse espaço reduzido que a mise en scène se torna mais rigorosa do que vimos antes na filmografia de Carlão, registrando com precisão a tensão e o relaxamento, as aproximações e as distâncias entre um grupo reduzido de sete personagens, cujos afetos entrarão em estado de ebulição justamente por estarem longe da vida cotidiana na metrópole, sob outro regime de tempo e um espaço supostamente bucólico. Se Império do Desejo é de um experimentalismo sublime, de uma anarquia que parece muitas vezes escapar o próprio filme em um movimento centrífugo e acelerado em direção ao universo, Extremos do Prazer opera magistralmente dentro do cinema clássico, com um ritmo mais lento, com mais interesse pela volúpia dos corpos, pelos closes sensuais e com o espírito do tempo sombrio da ditadura abordado frontalmente. Carlão, que também é fotógrafo do filme, aproveita a locação ao máximo, com travellings pacientes e lentes grande-angulares que tornam o retiro idílico estranho o suficiente para que a paz nas relações desenhadas ali não seja completamente possível.

Luiz é um professor de sociologia em estado de exílio voluntário, atormentado pela perseguição que sofreu pela ditadura militar nos anos anteriores e pela morte do amor de sua vida, Ruth. Ele é interpretado por Luiz Carlos Braga, que havia trabalhado com Carlão anteriormente com resultados sensacionais. Seu papel em Extremos do Prazer, porém, é o oposto polar do burguês cocainômano do Paraíso Proibido: ele está refugiado no sítio praticamente em estado de entorpecimento, deprimido e cabisbaixo, reduzido a simples tarefas domésticas e sujeito a alucinações com sua antiga amada. Logo chegam à propriedade sua sobrinha, Natércia, e o marido dela, Felipe, acompanhados de dois amigos. Natércia é uma mulher expansiva, que encontrou a felicidade sexual no casamento e que pretende, durante seus dias de estadia no sítio do tio Luiz, unir Marcela e Ricardo.

Ricardo, amigo do casal, é interpretado pelo sempre presente Roberto Miranda, na sua melhor forma. Boçal, reacionário, tecnocrata – não há praticamente nenhuma qualidade que redima Ricardo. Ele é o produto do pior de seu tempo, um liberal ignorante e chauvinista que vive discursando sobre seu trabalho na bolsa, que logo mais renderá muitos frutos. Se a presença dele é minimamente tolerável, tanto para os convivas da casa quanto para o espectador, isso se deve ao charme infantil irresistível que Roberto Miranda consegue exprimir, aliado à generosidade do olhar de Carlão, basilar no seu cinema. Como no A Ilha dos Prazeres Proibidos, o personagem catalisador do drama é o reacionário, nesse caso Ricardo, que será tentado pelo prazer, já que a negação desse prazer está na gênese do fascismo. Depois do auge da babaquice de sua carreira em Extremos do Prazer, Roberto Miranda ainda teve a chance de interpretar o mais doce de seus personagens, o poeta do Glicério que empresta seu apartamento para Torres em Alma Corsária.

É lógico que, com todas essas características nada lisonjeiras, Ricardo também está decidido a traçar Marcela, e é mais lógico ainda que, pelos mesmos motivos, Marcela está decidida a não ceder, apesar de sentir o mínimo de vontade. Ricardo é, desde o princípio, sincero sobre suas vontades, mas o verdadeiro prazer está muito além de uma trepada. O sexo pelo qual Ricardo se mostra obcecado, como o próprio Carlão dirá mais tarde com todas as letras, é antes um refúgio de uma classe em desespero, “abstraída do gozo dos sentidos”. Marcela também é um sintoma de seu tempo e retrato de sua classe, mas se abriga em um conforto pequeno-burguês de estudante universitária, em uma personalidade gélida, distante e que tende ao comodismo. Evidentemente, para Carlão, há alguma esperança para Marcela, que demonstra desde o início alguma inquietude, uma curiosidade em relação ao mundo ao seu redor e, principalmente, para com Luiz, seu anfitrião que vaga pela casa conversando com o espírito de sua esposa, delirando. Ricardo será confrontado com outras perspectivas de vida, com um erotismo livre e mais revolucionário, com um caminho espiritual minimamente mais corsário, mas não deixará nunca de ser um misógino até as últimas consequências. A eventual cena de tentativa de estupro, na qual Ricardo tenta descontar seu desejo por outra moça em Marcela, é a pá de cal para seu personagem, a morte de qualquer esperança.

O cenário inicial está armado – Natércia e Felipe se divertem com seu jogo de cupido, Ricardo vomita boçalidades a torto e a direito e Marcela flutua entre a total recusa e alguma atração por seu prometido. Luiz, o anfitrião, também alterna entre suas alucinações com a imagem da esposa e a observação voyeurística do jogo que acontece ao seu redor. Seus olhos se detêm sobre os corpos de Marcela e de Ricardo, um desejo que jamais será consumado. Assim, o tempo passa, e o trabalho de dilatação do tempo fica cada vez mais evidente. O tempo de Extremos do Prazer é o próprio tempo difuso de férias de verão, com dias contemplativos muito similares entre si, a mesma rotina ociosa de refeições, piscina, sinuca e um erotismo latente que jamais desaparece. Quando Felipe e Natércia voltam para a cidade, deixando seus amigos sozinhos com Luiz, a tensão se eleva, fica ainda mais concentrada – é claro que Ricardo se incomoda com Luiz, chama o anfitrião de louco, de bicha, e rejeita tudo o que acontece naquele espaço que não seja Marcela, que ele consegue conquistar.

Tudo se complica quando mais dois personagens chegam na chácara – a filha de Luiz, de dezoito anos, e seu amigo dramaturgo. Ricardo, que nesse ponto já vive de par com Marcela, fica inquieto com a presença dos dois visitantes, fascinado pelo corpo da jovem e inconformado com a liberdade do casal recém-chegado, pessoas sem problema algum com a nudez que prezam por um socialismo utópico e experimental, que tem como pilar o próprio prazer. A dramaturgia lânguida e o jogo erótico a fogo baixo da primeira metade do filme dão lugar à lisergia, à música de John Lennon, aos monólogos frontais que explicitam as diferenças políticas e espirituais entre cada um dos personagens, onde o abismo geracional fica em primeiro plano. O tempo é outro. Assim, Extremos do Prazer se torna um dos filmes políticos mais impressionantes, no qual a dimensão da ideologia é, de fato, indissociável do corpo e do plano espiritual.

Há um momento mágico no qual Carlão se faz presente diretamente no filme, um detour metalinguístico que acontece quando as tensões entre os cinco presentes na chácara estão mais à flor da pele. É esse momento que fecha um período na filmografia de Carlão, que resume seu projeto estético até então, um momento de gozo. O dramaturgo fala sobre seu desejo de fazer uma peça baseada naquela situação, um encontro de personagens diversos em uma casa de campo pequeno-burguesa. Ele resume a situação de Luiz, o intelectual que se isolou do mundo porque “a realidade não se mexeu como devia”. Em seguida, desenha os contrastes geracionais que tomaram conta daquele lugar, olhando diretamente para a câmera. Subitamente, o personagem do dramaturgo passa a ser dublado por Carlão, e ouvimos a grave e inconfundível voz do realizador.

“Eu quero mexer com esses personagens como num jogo de xadrez. Partindo de uma encenação acessível, quase convencional. Com muito sensualismo, já que considero o desejo elemento fundamental da minha dramaturgia. Quero mostrar o corpo para falar do espírito. Um espetáculo em três atos, que é subvertido gradativamente, até se tornar um jogo de espelhos”.

Nesse momento, o dramaturgo pega um espelho e vira para a câmera, revelando o próprio Carlão, com a câmera apontada para nós por meio do reflexo. “Ok, corta”, diz o realizador. É um momento de implosão, de orgasmo. Quando toda a dramaturgia é levada às últimas consequências, quando todas as diferenças entre aqueles personagens são esmiuçadas ao máximo, quando a direita e a esquerda estão plenamente definidas, o autor se faz presente declarando seus princípios e fechando um capítulo em sua filmografia. O êxtase é similar ao rasgar de véus de Orson Welles em F For Fake, tamanha a naturalidade da surpresa, tão bom é o ritmo de Extremos do Prazer. O jogo de espelhos é prenunciado ao longo do filme, com diversas cenas nas quais os personagens conversam por meio dos reflexos, nos banheiros da chácara. A confusão de Ricardo, no entanto, continua. Seu olhar violento parece empurrá-lo inevitavelmente para a angústia, a ponto de que nem a dominação da filha de Luiz o satisfaz.

Durante o último ato do filme, Marcela e Ricardo passam por novos testes eróticos e abalos na visão de mundo. Marcela flagra Luiz e o dramaturgo transando na edícula, o que desencadeia a fúria de Ricardo, que se declara de cabeça feita e “imune, inoculado [sic], porque eu fui feito para chegar no topo e cagar em cima de todos vocês. Eu nasci para o sucesso, e vou chegar lá a despeito de tudo”. É com esse discurso patético, que só serve como prova de que tudo o que ocorreu na propriedade, de fato, mexeu com Ricardo, que o boçal decide partir, deixando Marcela para trás. A escolha consciente da ignorância por parte de Ricardo foi se tornando cada vez mais clara, o ambiente mexeu com ele de tal modo que ele mesmo chegou a ter alucinações com a falecida mulher de Luiz, presa em um pau-de-arara. Nos filmes de Carlão, o espaço sempre tem um efeito direto sobre seus personagens, que cedem ao prazer ou permanecem na angústia da tentação, que lidam com as coisas ou são engolidos por elas.

Os dois jovens libertários tentam seduzir Marcela, que se deixa despir apenas até certo ponto. Seu olhar distante não mente, é por Luiz que ela sempre sentiu uma curiosidade a mais, algum afeto peculiar. Ela vai até ele, que, ainda consumido por angústia e neuroses, pelo arrependimento dos rumos que sua relação com a esposa tomou ainda em vida e pelo assombro da morte, também não consegue ceder ao prazer. Ele afasta Marcela: trata-se da nota mais amarga do filme. Um pouco mais velho do que todos ali, sua geração foi definida pela autoconsciência e pelo despertar intelectual, por um espírito revolucionário tradicional, cujas esperanças foram destruídas pelo fascismo, material e psicologicamente. “Estou cansado de mim próprio”, ele afirma em uma última conversa delirante com sua falecida esposa, enquanto é observado por sua filha e Marcela, que, por sua vez, já estão de partida.

Depois da saída dos jovens, dois homens entram na propriedade. Ao longo do filme, eles passaram em frente ao portão diversas vezes, foram notados pelos convidados, mas nada foi feito – afinal, nada acontece naquele paraíso idílico. Apenas assaltantes de pouca importância ou, a nível simbólico, resquícios de uma ditadura, que permanecem ali, voyeuristicamente, e que se aproveitam da solidão para finalmente atacar?

Enfim, Extremos do Prazer é uma súmula, uma síntese da primeira metade de um projeto de cinema e de vida. Abismos geracionais, a força arrebatadora do erotismo, filosofia, homem versus mulher, a passagem do tempo e o poder do espaço, uma antropofagia cultural intensa, a ditadura militar, o erudito+coloquial, a prioridade absoluta do prazer da cena e a sensação absoluta de presença – tudo está aí, no auge da maturidade formal de seu autor. Trata-se de vigor e generosidade, o espírito reichenbachiano na sua melhor forma. Um dos grandes filmes de Carlão, de uma voluptuosidade ímpar, e por consequência, um dos maiores filmes brasileiros. Essencial.

Lucas Bueno