Falsa Loura, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 2007)

Singularidades de uma falsa loira
“Ô Luísa, vai prum convento”
Silmara (Rosanne Mulholland) é uma rechaçadora do bom-mocismo, da gentileza, da agradabilidade. As palavras que ela vai dizendo surgem na velocidade do próprio pensamento, enquanto ela ocupa os espaços por onde passa com graça e com a cabeleira loira, falsa.
No trabalho, entre as colegas, o que se ouve é que “ela tá ficando meio piranha” ou “tá meio avançadinha”, meias palavras que desde já apontam um risco de desmoronamento, talvez também de uma liberação geral, ou simplesmente a inveja das outras. Sobre o corpo pronto para ser visto e para o prazer dela mesma: roupas de malha, sem sutiã, calças justas e as botas mais horrorosas que já passaram pela moda brasileira, de camurça verde-militar. Com as botas terríveis, ela atravessa a insegurança da rua à noite com passo rápido, apressado, do trabalho para casa.
Operária de uma fábrica, Silmara vai do uniforme azul rapidamente ao visual com que se identifica e se lança no mundo, enfrentando os homens no caminho para casa como quem enfrenta obstáculos, como eles são. Um beijo como pedágio daquele dono de nada que se acha dono da rua. Seja lá quem for que ache, a dona da rua é ela também, dona de coisa nenhuma.
Em casa, Antero, o pai, é o signo da imobilidade. Decadente, homofóbico, com um pássaro grande, belo, preso numa gaiola, ele destoa da cinética de Silmara. Tem seus próprios negócios com gente suspeita e nomes suspeitos. Silmara vai se movendo a despeito dessa imobilidade, da casa aos pedaços, do pai, da fábrica, da fama de piranha. A mulher brasileira de Reichenbach tem uma verdade materializada nessa presença no mundo apesar de tudo isso. Tudo borrado entre um esforço de dignidade, a indignidade da vida e as possibilidades colocadas pelas condições materiais e sociais.
Falsa Loura, de Reichenbach, se constrói nessa movimentação de Silmara, em contraponto com Briducha. É preciso falar do humor na escolha desse nome, que parece derivar de Bruxinha ou de Brida. Briducha, na clausura do recato, precisa da ajuda da liberdade de Silmara. Para as duas, um inferno comum: os homens e o trabalho.
Os homens no filme aparecem como homens-obstáculo, homens-engano, homens-armadilha, homens-ilusão. Cauã Reymond, com sua casca de gostoso, é um canalha. Há aquele que transa sem camisinha com a amiga, até o sonhado Maurício Mattar, ou Luís Ronaldo: esse complexo com seus interesses do “bom moço” é do tipo mais perigoso para uma mulher como Silmara, pois é aquele que faz a loba baixar a guarda. Falsa Loura é sobre esse abaixamento de guarda dela. Ela baixa a guarda por uma promessa de decência no tratamento, ou duas, se contarmos o menino Leonel, e quando uma mulher como ela, cascuda, protegida, baixa a guarda, o desmonte tende a ser grande.
Reichenbach filma isso: o desalento, o despreparo e a certeza da repetição de ser uma mulher no mundo como ela é, tudo sintetizado no plano final do rosto, dos ombros, da mulher enquanto o vento toca sua pele ali vulnerável.Há algo de muito belo no cinema em mostrar uma personagem se desmontando a partir de uma aparente fortaleza, couraça, força e impenetrabilidade. Penso em Singularidades de uma Rapariga Loura, de Manoel de Oliveira. Penso também em um filme distante, mas de personagem igualmente forte que desmonta: Mad Max: Estrada da Fúria, em que Furiosa começa a pender diante da dimensão do que enfrenta e do sinal da perda do aliado. Em Falsa Loura, o desmonte vem com a desilusão da promessa amorosa do homem romântico e o retorno à “vidinha” de trabalho. A vida pequena da rotina, da fábrica, dos homens miseráveis, da fofoca, do pai em casa são o peso que voltam aos ombros de Silmara nessa volta à vida, pausada brevemente no tempo de sonho com o homem idealizado. A primeira vez que vi Falsa Loura, em 2013, não escrevi nada longo apesar do impacto e da comoção trazida pelo filme na ocasião. Ali escrevi somente: “Todos queriam pagar por ela, mas ela queria muito mais.”
Tainah Negreiros
