FERRARA E OS OUTROS (sobre Scene, livro de Abel Ferrara)

SCENE foi lançado em outubro de 2025 nos Estados Unidos, pela editora Simon & Schuster. Nele, Abel Ferrara conta suas memórias em pouco menos de trezentas páginas e com uma fonte tipográfica relativamente grande: o livro é surpreendentemente curto, de fácil assimilação, mas repleto de anedotas interessantes e passagens memoráveis, que vão do cômico ao tocante. Enquanto aguardamos o lançamento ainda hipotético de American Nails, a próxima produção de Ferrara estrelando Asia Argento e uma promessa de retorno ao filme de gângster, temos a possibilidade de conhecer o autor por meio de suas próprias palavras.

O estilo de escrita de Ferrara em SCENE é “punchy”, de uma contundência curta e grossa de gângster americano sem paciência alguma para floreios elaborados e perfumaria, inspirado por autores de ficção como Elmore Leonard. A maior parte dos capítulos recebe o título de um filme de Ferrara, delimitando um recorte de tempo muito específico para cada seção e direcionando o foco para a construção contínua de uma obra. O fio-condutor, porém, bem mais do que o próprio cinema, é a jornada de Ferrara com seu vício em drogas, passando pelo crack até a heroína, chegando enfim à sua reabilitação aos sessenta anos de idade, depois de pouco mais de quarenta anos de abuso de substâncias sem limite.

Depois de passar o dia todo no set rodando Vício Frenético, no qual Harvey Keitel interpreta um policial alucinado que vive em busca constante de mais uma dose de droga, Ferrara ia direto até a casa de Debbie Harry, vocalista do grupo Blondie, com quem tinha algum grau de intimidade. Os dois se drogavam à noite toda e mantinham companhia um para o outro até a hora de voltar ao set, com no máximo uma hora de sono por dia para aguentar as filmagens. As cenas nas quais Zoe  Lund prepara heroína para Keitel em Vício Frenético vêm à mente: esses momentos íntimos poderiam muito bem ter sido compartilhados entre Debbie Harry e Abel Ferrara na noite anterior à rodagem. A vida de Ferrara, porém, seria muito mais tortuosa e longeva do que a do policial interpretado por Keitel.

Dois dos melhores filmes em uma obra já repleta de obras-primas, New Rose Hotel e Blackout, ainda seriam produzidos com Abel Ferrara sob efeito de heroína o tempo todo, e muitos relacionamentos duradouros e laços profissionais ainda seriam destruídos sem chance alguma de reparo antes de Ferrara se internar na Itália e finalmente redescobrir o prazer do sono, em uma das passagens mais bonitas de todo o livro. Para ele, a redenção não é um destino, mas uma jornada, e a dele teve o auge nos meados dos anos 2010, quando rodou seus dois primeiros filmes estando completamente sóbrio: o excelente Welcome to New York, com Gerard Depardieu e Pasolini, com o sempre presente Willem DaFoe.

Ferrara narra tudo isso com franqueza evidente, em curtas histórias ricas em imagens e com alguma vulnerabilidade. Lemos sobre o confronto de Ferrara com a polícia após um flagra nas ruas de Nova York (e a inútil tentativa de sair das garras das autoridades com carteiradas), sobre projetos que ele acabou perdendo por conta de seu alcoolismo (notavelmente, O Pagamento Final, que acabou se tornando uma obra-prima dirigida por Brian DePalma), e seus intensos casos amorosos, que na maioria dos casos nada tem de lisonjeiros, para não dizer que chegam a ser patéticos. Ferrara é um gângster intelectual, o financiamento de seus filmes muitas vezes teve origens mais do que suspeitas – e como um bom realizador independente, ele jamais negou um tostão. Crescido no Bronx em meio a personagens italianos explosivos, agiotagem e tráfico, ele era devoto de Godard, Fassbinder, Michael Snow e, principalmente, Pasolini. Muitas são as páginas de Scene dedicadas ao amor de Ferrara por esses outros grandes mestres, e grande parte do charme pessoal do realizador (e ele é sabe disso muito bem) vem dessa performance: o artista estudado e intelectual que existe debaixo da postura ítalo-americana agressiva. Há algo de charmoso nesse exibicionismo de Ferrara, e seu espírito obstinado, de cachorro que não larga o osso apesar de tudo, chega para nós em Scene com algum orgulho mas pouca arrogância. 

Marginal, Ferrara também detalha em Scene suas experiências em Hollywood. Body Snatchers, o mais perto que chegou do blockbuster, deu mais certo do que ele próprio esperava, levando em conta os conflitos do diretor com o estúdio. Como a maior parte dos cineastas que nos interessam, Ferrara esteve contra a corrente na maior parte do tempo e sempre foi um militante do direito do autor de realizar sua obra sem interferências, outro tema recorrente do livro e que tem um tom professoral, de aconselhamento aos mais jovens. A leitura de Scene traz a tona imagens dos filmes de Ferrara, de cenas de desejo insaciável sendo estendidas até o limite, de conflitos internos que explodem e consomem todo o mundo ao redor dos personagens, seja no caso do policial de Vício Frenético ou da costureira de Ms.45. Isso porque Ferrara de fato viveu seus desejos intensamente, foi do céu ao inferno com apenas o cinema como constante.

Tudo isso interessa bastante ao cinéfilo minimamente iniciado, mas são os retratos que Ferrara faz de todas as pessoas ao seu redor que enriquecem a leitura de Scene. A jornada pessoal do diretor é fascinante, mas a textura do livro vem do olhar para o outro, da fuga do solipsismo. Gérard Depardieu tem algo de entidade, um deus gargantuano e bonachão, como quem vive em outra realidade de fato, a anos-luz de distância dos menos endinheirados. As idiossincrasias de Christopher Walken são um deleite, de uma autenticidade refrescante. Chris Penn, cujo temperamento mais explosivo que o do próprio Ferrara está muito bem articulado em suas curtas cenas em The Funeral, é mencionado em tom melancólico, sua morte precoce revelando a extensão que a sua vida pessoal se confundia com a de seus personagens. Zoe Lund, porém, é agraciada com o mais completo dos retratos. Seu rosto inesquecível foi imortalizado em Ms.45, onde ela interpreta uma costureira que sofre dois estupros consecutivos (um dos homens, inclusive, é interpretado pelo próprio Ferrara) e passa a executar homens a esmo, enquanto passa por uma espécie de metamorfose onde prazer sexual e morte são de fato indissociáveis. Ferrara, porém, dá especial atenção ao trabalho dela como escritora incansável, que entregava roteiros que eram formatados como enormes blocos de texto que descreviam toda a textura e o sentimento de cada momento aos mínimos detalhes. Zoe vivia em Nova York em um apartamento repleto de camundongos de estimação, os quais ela sabia nomear instantaneamente, de vista. Entre o caminho espinhoso para um bem-estar sóbrio, os mais diversos relatos de processo de trabalho esquematizados de maneira abrangente e de fácil assimilação e os retratos vívidos e sobre colaboradores tão coloridos e peculiares quanto o próprio Ferrara, SCENE poderia  e deveria muito bem ser publicado em português. Certamente seria muito querido por um pequeno mas fiel público.

Lucas Bueno