Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi
(یک تصادف ساده, Irã/França/Luxemburgo, 2025)

Isto Não é um Filme anunciava o título do filme que Jafar Panahi co-dirigiu com Mojtaba Mirtahmasb em 2011, o primeiro que fez desde que foi condenado à prisão domiciliar e banido da indústria pelo governo iraniano. De certa forma, a crítica ocidental levou isto ao pé da letra, e desde então o cineasta roda regularmente, incorporando os subterfúgios ao processo de filmagem e seus longas são discutidos como exemplos de resiliência de um artista, uma figura simbólica de como o ocidente encara o seu país. É um paradoxo curioso, Panahi é um dos poucos cineastas a vencer os três principais festivais de cinema europeus, mas seus filmes pouco foram discutidos como cinema nos últimos 15 anos.
Era possível notar como o próprio Panahi parecia cada vez mais desejoso por realizar um trabalho mais dramaticamente tradicional nos seus dois longas anteriores, 3 Faces (2018) e Sem Ursos (2022). Chegamos então a este Foi Apenas um Acidente (2025), um inegável filme de tema, mas também um que abraça com muito gosto todo um vigor dramatúrgico. Chega a se aproximar bastante dos filmes do Asghar Farhadi, o cineasta iraniano mais celebrado destes últimos 15 anos, e um artista que por vezes é visto como um contraponto à imagem que se formou do cinema iraniano, muito representado por Abbas Kiarostami, de quem Panahi foi assistente e ocasional colaborador. É um movimento menos surpreendente do que parece quando retomamos os filmes que Panahi fez nos anos 2000, nos quais ele buscava casar uma dramaturgia opressiva e violenta com uma casualidade na observação das suas personagens. Meu filme favorito de Panahi é Ouro Carmim (2003), que Kiarostami escreveu a partir de um episódio da crônica policial de Teerã, que se abre com seu final violento no qual o seu entregador de pizza comete um crime seguido de suicídio e depois mostra como a sua vida chegou naquela situação limite.
O ponto de partida de Foi Apenas um Acidente é bastante claro: um homem (Vahid Mobasseri) acredita reconhecer o seu torturador, o sequestra e busca a confirmação da sua identidade com uma série de outras vítimas dele. Dali cria-se o conflito moral (executar ou não o sequestrado), mas também uma farsa com o cenário se tornando cada vez mais absurdo. Dali cria-se uma série de possibilidades à parte dos confrontos de ponto de vista cada vez mais exasperados. Não é, porém, um filme de grandes surpresas. Panahi sempre foi um cineasta bastante didático, a tese sobre as divisões sociais iranianas em Ouro Carmim faz este novo filme parecer ambíguo. O que se destaca é a precisão com que o desespero crescente dos sequestradores é usado contra a abstração do seu dilema binário e a própria cidade no entorno deles. Numa das melhores e mais engraçadas sequências do filme, uma discussão mais esquentada chama a atenção de um par de policiais que os abordam e, após a tentativa de dar uma desculpa esfarrapada e todo um teatro armado, tudo se resolve subornando-os. Nada mais mundano, ao mesmo tempo que todo o drama chega a um limite de tensão.
O cenário de Panahi é quase o mesmo de A Morte e a Donzela que Roman Polanski dirigiu em 1994. Ali também uma vítima de tortura reconhece a voz do seu algoz e se instala um dilema moral sobre o direito dela à vingança e ambos concluem com cenas fortes de confronto onde o torturador finalmente confessa e o torturado se vê incapaz de retribuir a violência que sofreu. O filme de Polanski trata tudo como uma grande abstração, seu país sul-americano não existe como espaço e as três personagens são apresentadas de forma bastante simbólica, a moral é ambígua, assim como a ação é clara. Foi Apenas um Acidente, por sua vez, busca o oposto, se recusando a isolar a sua possibilidade de vingança da sociedade em que ela está inserida. A parte da vítima cabeça quente, que é a última a se juntar ao grupo e parece estar ali para garantir que as discussões sigam apimentadas e no limite, e do próprio torturador, que é muito mais uma figura de cena a ser discutida, todas as personagens são imaginadas com um cuidado e individualidade muito maior.
O desafio de Panahi se propõe, parece, a como colocar em cena este cenário de tese e mantê-lo longe da abstração que Polanski abraçava. É um desafio similar ao que Ouro Carmim se desenhava: como encenar um cenário inevitável sem que tudo se tornasse escravo da relação de causa e efeito. Aqui a ação toda é discursiva, mas existe no corpo dos seus atores exasperados ao mesmo tempo desejosos de vingança e cansados pelo próprio mecanismo dramático do filme. Boa parte do humor do filme surge de como as personagens têm escrúpulos demais para fazer o que se propõem. Comparando os dois filmes, é inegável que Panahi está um pouco enferrujado, tem momentos em que as tentativas de permitir que o drama flua soam um tanto incertas, mas na maior parte do tempo ele encontra bastante frescor nas interações daquelas pessoas. Ele tira, por exemplo, muito de como o mecânico vivido por Mobasseri é ao mesmo tempo quem conduz a ação e um corpo estranho no meio do grupo no qual todos têm alguma intimidade.
Assim como em A Morte e a Donzela, a identidade do torturador só é confirmada no clímax, mas os dois filmes compreendem que a ambiguidade numa situação dramática dessas é uma tolice. A dúvida existe como combustível para as personagens, mas a encenação trata o sequestrado pelo que ele é, nunca temos muitas dúvidas sobre a sua identidade. A cena mais frágil do filme é a de abertura, quando vemos o torturador como um mero pai de família. Os sentidos são tão óbvios quanto o que vem depois, mas sem a urgência que o filme impõe depois, as fragilidades se tornam mais aparentes.
Em contrapartida, o clímax de Foi Apenas um Acidente, com o foco todo na figura do torturador, é forte. É quando o filme abraça mais diretamente a origem teatral e confrontadora da sua dramaturgia. Após quase 90 minutos de busca pelos mais diversos recursos para encenar aquele drama, suspende-se qualquer realismo para um confronto bem direto com a origem do problema. Panahi modula o drama com muita força, permite que ele transborde cada vez mais nas contradições do seu confronto. Que a presença de cena do torturador seja reduzida ao mínimo ao longo da hora anterior faz com que todo o foco na figura dele, simultaneamente violenta e enfraquecida, se reforce, assim como a disposição de Panahi de permitir que a cena se arraste até o desgaste da situação, tenha o tempo que precise ter. Se o filme é mais forte na farsa do que no drama, ali é como se ele calibrasse finalmente a sua dramaturgia.Se Isto Não é um Filme era uma reação de Panahi ao seu cárcere privado que ele buscava imaginar como cinema, este Foi Apenas um Acidente é uma reação à década seguinte de sua filmografia. Um esforço de restaurar a espessura do drama para além dos jogos de cena no centro dele. É o prazer do realizador em executar o seu filme, o que ele tem de mais expressivo. Um desejo de jogar com todos os elementos de cena, de permitir as mais diversas variações dramáticas. Que o filme observe o movimento da sua primeira à última imagem de forma inevitável, mas encontre ali no meio toda uma série de pequenos gestos que o valorizem é a grande aposta de Panahi. É esta afirmação artística e deleite consigo mesmo muito mais do que o dilema discursivo proposto em si, que colocam em cena o que Panahi faz de melhor.
Filipe Furtado
