Frankie ain’t no good
Man turns his back on his family
Well, he just ain’t no good
As histórias da classe trabalhadora sempre foram tema de grandes obras do cancionismo dos EUA. Seja na poesia de Patti Smith ou Bob Dylan, na utopia violenta de um Arlo Guthrie, o trabalhador, visto de frente, tem uma poesia natural e direta. Um traço estético, mais que temático. Este é o mote de grande parte da obra de Bruce Springsteen. Que fique claro: este pequeno artigo não tem intenção qualquer de propagandear cinebiografias. Para estas interpretações preguiçosas, desejo o vazio. Nem para remeter a Unidos pelo Sangue, o bom filme de Sean Penn baseado na canção. A introdução foi para afirmar que, ao contrário do óbvio, o fascínio de Highway Patrolman não está em ser uma história da classe trabalhadora. Por que, afinal, está no meio da fricção proposta pela narrativa dela: é uma história sobre família, sobre a moral e sobre as derrotas do amor fraterno.
Frankie, o irmão de nosso protagonista, o Highway Patrolman do título – policial rodoviário – é um criminoso. Em boa parte da canção, Springsteen sussurra, sofridamente, a beleza da memória dos momentos simples em que ele e seu irmão desfrutavam deste amor de irmãos livremente, simplesmente, dançando com sua esposa, bebendo sem preocupações. Joe, o protagonista, é um policial, um sujeito de moral ‘correta’, um pilar social. Frankie não é apenas um criminoso: ele é inquieto, incontornável, como se fosse impossível para ele sossegar. Aceitar o mundo como ele é. É dessa incompatibilidade, tratada pelo ponto de vista de Joe, que trata Highway Patrolman. Para aquela comunidade, Frankie não apenas não era bom – ele era inaceitável. Como poderia Frankie existir naquele mundo? Springsteen nem se preocupa com essa questão, mas a poética me remete a tal. A melancolia de Bruce ao inverter frases nas versões diferentes do refrão remete a uma dor profunda, única, raramente atingida na história da arte. O pesadelo deste patrulheiro comum é não dar as costas para sua família – a linha que ele não gostaria de cruzar, a que torna um homem ruim. Nothin’ feels like blood on blood. Joe ama Frankie, mas ele não consegue detê-lo no desfecho da canção, quando seu irmão novamente toma seu curso de explosão violenta. Ele não pega Frankie na estrada porque Frankie é livre demais para ser detido? Por que ele não faz esforço suficiente? Eu creio que não. Joe é moralista demais para deixar seu irmão ir, mesmo o amando. Ele some no ar, como a versão bem-sucedida do personagem de Vanishing Point, ou quem sabe como o fotograma que se esvai em Two-lane Blacktop. Springsteen, Sarafian, Hellman – Frankie não era bom, ele era como o vento. Mais forte que a matéria.
Guilherme Martins
