Fuller na Fuller: Uma Rua sem Volta
(Street of No Return, França/Portugal, 1989)

Alguns diriam que Sam Fuller é um homem afeito a uma extrema e gratuita violência gráfica, que seus filmes têm como potência essa mesma violência como força motriz, que a violência de Sam Fuller talvez faça às vezes do choque. E aqueles que pensam dessa forma, digo a eles que estão parcialmente corretos. Na verdade, Uma Rua sem Volta começa, mais ou menos, por esses idos do afeto visceral do diretor: um primeiro plano mostra um martelo sendo afundado na cara de um homem negro e, a sequência que se segue, mostra uma verdadeira multidão quebrando o pau no meio de um tumulto. Mesmo assim, para aqueles que viram mais que os primeiros trinta minutos do filme, vão entender Samuel Fuller não como um homem violento, ou atraído pelo choque superficial da violência, como uns e outros autores que procuram a fama de serem viscerais, nosso Sam Fuller é o mais difícil de todos os amantes justamente porque seu amor é visceral e despudorado. Verdade seja dita: poucos homens poderiam se dispor de tamanha visceralidade sem existir algum amor envolvido em seus atos violentos.

A imagem desse amante despudorado se reflete em Michael. Cantor e bon-vivant que se fascina por Celia (e como não se fascinar por Valentina Vargas?). A partir daí, o amor por essa mulher arrasta Michael do palco para o álcool. Ele sai dos camarins e tropeça, caindo nos becos onde Sam Fuller conduz Keith Carradine em um perigoso tango de encontros e desencontros com a mulher amada, o passado glorioso, o presente cruel, a lei e a violência. A dança conduz Michael para a brutal realidade de sua existência: nos filmes de Sam Fuller até os inocentes precisam ser violentos.

Em A Lei dos Marginais, o jovem Tolly Devlin nos entrega seu sangue desde a primeira sequência. A figura meiga da criança recebendo um presente de natal é trocada por um assaltantezinho sondando a senha do cofre de um futuro delito. Em Uma Rua sem Volta, Michael é violentado pela vida: a garrafa deitada no alto da estante nos mostra um Michael acabado com a língua de fora, clamando por mais uísque, mais álcool, mais dor. É exatamente essa cena que antecede o encontro com Bertha e o começo do flashback que nos introduz à figura do nosso protagonista. No seu primeiro encontro com Celia o tango começa e, ao negar o álcool, consuma-se também a violência autoinfligida: “álcool é para perdedores”.

Essas imagens conflitantes de Michael que nos são apresentadas mostram que a vida, o amor por essa mulher, acabam por fazer da vida desse sujeito mais difícil. O Michael que é introduzido sozinho, negado de beber por circunstância enquanto segue uma mulher (sua ex-agente Bertha), é uma imagem quase que oposta ao Michael que ativamente nega a bebida, rodeado de mulheres e idolatrado pela mesma agente que nem mesmo o reconhece no início do filme. A vida violenta Michael de novo e de novo, ele é imolado e largado na porta de um hospital com sua garganta aberta após um conflito com o marido (ou namorado) de Celia e, depois disso, acaba acidentalmente parando do lado do corpo de um policial, o que acaba tornando-o suspeito no caso de homicídio daquele policial em específico.

Esse ato de violência ocasional é um ponto de virada importante. Primeiro porque nos introduz ao personagem do comissário: um homem negro que sofre com as pressões do cargo de comando e que, em meio ao motim, acaba por encontrar-se com seu cargo por um triz. Esse comissário é um policial que, na ocasião da imolação de Michael, pediu seu autógrafo para sua filha. Um homem carrancudo que, com a voz firme e três tiros no ar, coloca a sala inteira cheia de delinquentes e brigões, em silêncio frente à sua autoridade. Um homem que faz uso da violência como força de ordem. Ao ser introduzido como comissário, um plano aberto o mostra os detidos brigando no pátio, com um grito e dois tiros no teto Bill Duke separa os meliantes em duas fileiras e caminha entre eles. Procurando um culpado, ele esbofeteia um detido branco, profere insultos raciais e, ao ser chamado de irmão por um dos detidos negros, o comissário lhe acerta um potente cruzado. É essa figura que, a princípio, caça Michael para prendê-lo e acaba ajudando-o a se livrar de seus problemas com uma boa e explosiva dose de força policial letal e pesada.

Essa rebelião se consuma quando Michael reencontra Eddie, o companheiro de Celia, e descobre seu violento esquema de especulação imobiliária. É ele que planeja os tumultos e o esquema de enriquecimento sangrento por meio de especulação imobiliária. É ele quem tira a voz de Michael, é ele um grande filho da puta e, como tal, apenas poderia ser um agente imobiliário. É a descoberta desse esquema que junta o passado de Michael com o presente e torna o perigo à espreita em uma possibilidade de vingança. O personagem de Bill Duke, o tenente Borel, é a chave para essa vingança ao aceitar a ajuda de Michael.

Essa união entre os dois rende a maravilhosa cena da mansão: uma sequência paralela mostra o tenente Borel e seus homens invadindo a casa enquanto cercam o enorme navio onde a gangue responsável por iniciar os tumultos se esconde com suas armas. O tiroteio termina em uma explosão e os tremores do tiroteio  marcam o início da operação de apreensão de Eddie e seu esquema imoral de enriquecimento imobiliário. Essa enorme operação rende momentos muito interessantes: um Dominique Hullin usa uma porta para lutar contra os policiais na escada: ele os joga da escada, usa a porta para se defender e empurrar os inimigos. Ele morre graças à perda de sangue do ferimento deixado por tiros, mas não sem antes ameaçar arremessar Michael da escada. Enquanto isso, Bertha segue Celia com um revólver, ela deseja matá-la e, em um fulgor de inveja e ira, atira contra os policiais, tentando acertar a outra mulher, o que resulta na sua morte. Eddie, por outro lado, se rende após ser encurralado por dois policiais. O plano aberto emoldura Marc de Jonge sendo cercado por dois dos inspetores até que a violência de Fuller ataca novamente, um dos inspetores atira no colega ao chamar Eddie de chefe, denunciando o ato da traição. Por sorte, Borel consuma a vingança quase que imediatamente. Eddie, por outro lado, é capturado e não morto no tiroteio.

Tolly, de A Lei dos Marginais, morre embaixo de um cartaz para doar sangue. Michael é largado na escadaria do hospital com sua garganta aberta, tem sua vida destruída e Eddie, Eddie é morto por um fantasma. Ele é deixado a sós com Michael e leva um tiro no saco que sela o seu destino.

O filme fecha com o reencontro final de Michael com Celia. Eles andam juntos pela rua devastada pelos tumultos populares. Lado a lado um do outro, o filme se fecha com a prova final da paixão de Sam Fuller: um mundo violento em que a desordem e a violência permeiam cada esquina, e ainda assim existe o amor, e ele é central para o mundo, é a figura principal dentro do mundo. E que belo é esse amor, e que belo ele fica sendo filmado por Samuel Fuller, o mais violento e visceral dos amantes.

The Dancin’ Kid