Garotas do ABC, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 2003)

No começo deste século, Carlos Reichenbach costumava falar recorrentemente do seu projeto de cinessérie sobre operárias tecelãs no ABC. Seu fascínio por mulheres trabalhadoras vem de longe, mas este seria seu épico particular sobre o tema. A burocracia dos tempos contemporâneos dificultaria a realização nesses moldes desejados pelo cineasta, mas temos dois rebentos que originaram dali e que ficam para a eternidade como obras extremamente relevantes do nosso cinema: o Garotas do ABC e o Falsa Loura. Este carrega o nome do projeto original, que teria os títulos diversos nomeados a partir das protagonistas. A Aurélia Schwarzenega é a primeira protagonista e na tipografia dos títulos iniciais do filme está preservado o crédito dela nos moldes do que o roteiro original previa, como um subtítulo – o segundo filme carregaria o título de Lucineide, Falsa Loura, que desmembrado do formato original foi reformulado recriando a personagem na figura da Silmara de Rosanne Mulholland no hoje tão celebrado Falsa Loura. Reconto estes fatos para refletir sobre o tamanho da ambição e os porquês de nem tudo no Garotas do ABC parecer redondo, com arestas aparadas – é uma obra feita como parte de algo maior.

É uma pena que jamais teremos os outros longas, mas isso não diminui o valor individual deste, que começa de sua observação quase protocolar na abertura. Um letreiro reforça a história do ABC como centro industrial da região, o impacto das uniões de trabalhadores que resulta no sindicalismo e, por sua vez, no então presidente do nosso país, Lula. O fascínio pessoal de retomar essa afirmação em 2025, vinte e poucos anos após ver o filme pela primeira vez, é único em reencontrar a afirmação de que Lula é, novamente, nosso presidente. O espírito utópico deste filme está totalmente relacionado a isto. O cineasta é um rebelde incontornável, o que também garante que sua personagem verdadeiramente engajada em proteger as operárias, a Paula Nelson, seja uma libertária que desconfia do líder do sindicato e exige o seu direito de protestar contra quem for.

Vamos dar uns passos para trás. A trama central é sobre Aurélia, uma operária de família conservadora, vinda do Rio, embora extremamente agregadora, Aurélia está apaixonada e envolvida com Fábio, um sujeito perturbado que faz parte de um grupo de nazistas modernos. O drama é dado muito cedo: Aurélia ama um racista, mas ela tenta remediar o fato com a ideia de que ele não pode ser verdadeiramente racista se está com ela. Fábio deseja profundamente a Aurélia, mas ele é racista e isso é uma das fontes de suas danações, palavra dita pelo próprio. A trama central gira em torno deste improvável relacionamento e, honestamente, não pelos esforços de Reichenbach ou mesmo dos atores, é esse o segmento menos efetivo do filme. Eu gosto e defendo em absoluto diversos momentos sobre eles, mas creio que os personagens são ótimos quando não estão juntos e nem sempre quando estão. Existe uma onda de colegas que criticam de forma pesada o casal central, Michelle Valle e Fernando Pavão, o que eu discordo. Pra mim, tem grandes sequências com ambos no filme, momentos de verdadeiro brilhantismo, o que eu não gosto é da sequência da briga no carro, me soa mesmo truncada. Eles podem não ter atingido as notas desejadas pelo realizador, mas tenho certeza que o Carlão concordaria que, se faltou acerto ali, há também responsabilidade do próprio. São três momentos fortes entre eles, a cena de sexo no beco que não é das mais fortes, mas está longe de me incomodar, a cena deles no quarto, que é ótima, e a supracitada sequência no carro. A partir dali, os personagens não cruzam os caminhos dentro das cenas, apenas nos pensamentos dos personagens. Há algo forte e curioso na relação de atração/repulsa que Reichenbach construiu – quando Fábio quer transar, Aurélia não quer, quando ela quer, ele tenta fugir, a acusa de ser uma cadela no cio, quase como se parte do tesão desse lance deles fosse mesmo sobre atos que beiram a violência. Quando Fábio ameaça fugir com Aurélia para a baixada, admitindo estar completamente dopado – como está em quase todas as cenas, reforçando as tantas dificuldades de representação que Pavão tem pela frente – ela irrompe, saindo do carro e deixando Fábio em definitivo. As repercussões seguem, não estar com Aurélia será tão torturante quanto estar para Fábio, porém para Aurélia virá o amargor, mas também a liberdade. Ela parece mais preocupada com o julgamento de suas colegas que odeiam Fábio, do que ter errado em ter acreditado naquele homem.

É inevitável reconhecer que o filme respira e vive grandes momentos na fábrica, onde vemos serem construídas tantas incríveis personagens. O poder de criar um ambiente tão rico em poucos planos é incrível. Aurélia pode ser o centro, mas jamais a narrativa do filme nega às outras tecelãs relevância dramática. Algumas tem mais histórias, outras menos, mas a riqueza e o carinho central do filme são feitas lá dentro. Conhecemos, por exemplo, a Suzy, uma personagem com pouquíssimo enredo, mas ainda assim, inesquecível , vivida por Luciele Di Camargo. Ela é a operária que não aceita ser tocada pelos potenciais parceiros, mas quando se lesiona sente prazer de ter o corpo tocado pelo patrão que desliza suas mãos nas suas cicatrizes. Mãos, aliás, do próprio cineasta. Ela encanta na sua maneira simples de ser uma boa companheira pras garotas, mesmo quando está repetindo algum mantra conservador.

Impossível também não citar a Lucineide, a personagem embrião do filme-irmão que seria Falsa Loura. Ela é a verdadeira rebelde do grupo, a insatisfeita, sua existência parece aquela que transborda o discurso político, para uma existência política. Não é agradável, está desinteressada em ser isto, mas tem um arco sutil dramático que reforça a ideia de que dentro da dinâmica local, é a personagem mais forte. Lucineide é interpretada pela Fernanda Carvalho Leite, ótima atriz. Ela retorna à obra de Reichenbach no filme seguinte, Bens Confiscados, num papel pequeno como uma pedagoga que faz jogos de sedução com o protagonista.

Temos a Antuérpia, a tecelã de meia-idade que quer reconstruir sua vida e que é pura doçura. Carlão trouxe de volta ao cinema a Vanessa Alves, veterana da Boca do Lixo e da obra de Reichenbach, que deu notas tão sutis que fez da sua Antuérpia uma espécie de guia para nossa entrada no ambiente das tecelãs. Sua chegada para adentrar o grupo, apadrinhada pela Paula Nelson, é como aprendemos sobre ele. É responsabilidade de Aurélia ensinar o ofício para ela, e a partir disto aprendemos delicadamente sobre uma personagem cujo olhar é o mais generoso em cena, tal qual o cineasta. A prova disso é que ela é a única que não segrega a Nair, a personagem que trabalha ao lado delas de dia, mas faz programa à noite, tratada pelas outras meninas como são tratados os criminosos mais sórdidos num filme de cadeia. A forma simples e carinhosa como Vanessa conduz sua personagem faz dela alguém que quebra com a dureza da vida das personagens. Temos ainda a personagem de Márcia de Oliveira, que também ressurge em Bens Confiscados num papel maior, a adolescente que sustenta a própria família, chamada Nelinha, mas gera desconfiança entre as colegas porque é prima da gerente delas, a Carmo. O papel de Márcia é gracioso, mas certamente teve desafios maiores no seu segundo trabalho com o cineasta. O que mais me interessa na sua figura é que ela transfere maturidade a uma personagem tão ingênua, o que me parece ter muito deste roteiro tão cuidadoso de Reichenbach. A própria Carmo, tratada como uma carcereira-chefe de presídio em diversas sequências, tem seu momento de cuidado por parte do olhar do cineasta, quando vai sem alarde agradecer Aurélia pelo tanto que protege a sua prima. Sem transformar a Carmo em anjo, sem defini-la como a função que ocupa.

Assim posso, enfim, falar da minha personagem predileta, aquela que carrega a essência de Reichenbach em cena, a Paula Nelson, feita por Natália Lorda. De nome emprestado de Made in USA, do Godard, a Paula é a operária que recusa subir na empresa em troca de continuar sendo uma líder entre elas, sem deixar para trás suas companheiras. Ela exala liberdade, mas guarda toda sua intimidade para si, refutando flertes e temas de desejo, provavelmente porque acredita que seu papel é mais importante do que seus anseios. Há uma cena em que Aurélia, questionada por Paula sobre seu namoro com Fábio, ataca Paula, acusando sua companheira praticamente de ser frígida. A reação de Natália Lorda, que vai da atitude de ser dona do rolê, forte e inabalável, para uma mulher insegura, é notável. É também uma sequência que mostra como Carlão cria bem painéis – as personagens são encantadoras na sua simplicidade, mas em contextos assumem papéis distintos, sendo às vezes cruéis, como Aurélia é com a amiga que apenas está preocupada com ela. Outro ponto marcante da Paula é o constante assédio do líder do sindicato, o André Luiz Oliveira, outra homenagem de Reichenbach ao seu querido amigo e também cineasta. O André Luiz, vivido por Dionísio Neto, demora a entrar em cena, mas constrói pontes importantes dramáticas que falaremos abaixo quando chegarmos aos vilões. Seu assédio a Paula é quase conceitual, é a esquerda intelectual, um personagem que em 2025 definimos como ‘esquerdomacho’, um líder relevante, mas que pode colocar algemas na beleza libertária de Paula. Ela se esquiva com destreza, não do engajamento, mas das amarras, citações e, por que não, do charme dele.

O painel de Garotas do ABC, em seu primeiro e enorme ato, é fechado com os personagens que frequentam o Bilhar Modelo, o grupo errático que chamamos de nazista, embora a maioria dele nem saiba que é. Falamos do Fábio, mas o líder é o Salesiano, um burguês, dono de pedreira, eternizado no filme por Selton Mello. Não sei se Selton faz ideia da grandeza que atingiu ao passar tanta credibilidade ao Salesiano, o personagem que resume o sentimento da extrema-direita que vimos tornar-se tão forte no Brasil nos vinte e poucos anos após o filme. Há, literalmente, na primeira aparição de Salesiano, um discurso que praticamente seria repetido pelos boçais na vida real, tem até o ‘Brasil acima de tudo!’. Poucas coisas definem tão bem os personagens quanto a sacada do cineasta em ilustrar o ataque aos nordestinos na primeira noite do filme, com a pixação do Fábio que inverte a clássica frase de O Bandido da Luz Vermelha: ‘quem tá SEM sapato não sobra’. Além dos dois personagens aburguesados, o grupo é formado por metalúrgicos convencidos de que a mão de obra barata está roubando os seus empregos, mas que estão embriagados demais para ter qualquer noção real do perigo do discurso de Salesiano, e também o Contador, o cara que lança os melhores questionamentos de dentro, mas é um covarde para não andar com aqueles idiotas.

Os tais ataques aos nordestinos na primeira noite geram desconfiança e chamam a atenção de um novo personagem importante, o jornalista Nelson, vivido pelo veterano dos filmes do Carlão, o Ênio Gonçalves. Ele desfruta de diversos privilégios ao longo da trama, mas sua simpatia não permitirá que nada afete sua imagem positiva. É o Nelson que leva a informação de que Salesiano pode estar envolvido nos ataques, especialmente porque ele usa explosivos sem quaisquer motivos, como um psicopata que deixa assinatura. O André Luiz foi colega de Salesiano, reforçando seus laços burgueses, e é daí que conectam-se os pontos – Nazistas, tecelãs e o último ato do filme, a noite no Clube Democrático, onde as tecelãs saem para relaxar após a semana de trabalho.

Creio que o filme, nesse ponto, traçou com muita clareza os arcos dramáticos, está pronto para os conflitos finais. Quem teve a rara oportunidade de ver o corte completo do filme, exibido raríssimas vezes porque não está finalizado, nem tem trilha sonora original em todas as cenas, sabe que o filme estende dos 130 minutos que ele tem no seu corte de cinema, para quase 170 minutos. Os números não são precisos, mas eu assisti ao corte alternativo, sem dúvida ele permite que toda a riqueza de detalhes possa ser construída com maior cuidado. O filme cresce porque nos oferece aumento de intimidade com toda essa fauna descrita até aqui. Mas não é essencial: esqueça a ideia quase elitista de que quem teve acesso ao corte completo conhece um filme que você não viu. É mentira. Garotas do ABC tem as mesmas qualidades em ambos os cortes, ele apenas tem mais daquilo que amamos. No meu contato pessoal com Reichenbach, ele sempre disse que desejava mais tempo para o filme, culpando a distribuidora Europa Filmes pelo corte, mas nunca me disse que fazia questão de todos os minutos. Nem é justo afirmar, então, que seja um corte assinado pelo diretor – veja bem, há todo um cuidado com os arranjos musicais para reconstruir sonoramente as bases usadas pelo cineasta na filmagem, esse corte está cheio de remendos na banda sonora.

Entre tretas de tecelãs maconheiras e cocaínomas, justiceiros que ouvem música quando usam a peixeira e romances proibidos entre o sobrinho e a tia, para ficar em tantas coisas não aprofundadas no artigo, é chegado o baile. A sequência é ambientada num espaço que remete muito ao usado no show de Falsa Loura, mas todo esse ato é muito mais relevante dramaticamente para o filme. No sentido de que, há muito em jogo, enquanto lá havia mais em jogo para Silmara. Sendo este filme um painel mais amplo, os conflitos são mais profundos. Estão lá todas as meninas, seus conflitos internos, a Aurélia emburrada e desconfiada, algumas refutando os assédios masculinos, outras abraçando qualquer chance de contato humano. Antuérpia, outra vez, servindo de guia, a novata no ambiente, questionando tudo que parece natural para elas, mas não para nós.

Nelson e André Luiz também marcam presença, o sindicalista conhecido por todas no ambiente, o jornalista conhecido pelas figuras de poder – não paga ingresso, manda nos seguranças, é celebrado pela estrela da noite, a Fafá de Belém, que celebra sua presença. Ao mesmo tempo, ele está lá para ficar de olho em Aurélia, na hipótese de Fábio aparecer, o que, curiosamente, ocorre apenas após o próprio Nelson dar uma carona para Aurélia. O jornalista perde o furo, mas protege a operária, o que resume de forma interessante o personagem.

Os boçais partem para o Clube Democrático em busca de confusão, no fundo, eles têm agendas totalmente distintas entre si. Alguns procuram afirmação, outros precisam de adrenalina, o Salesiano vê a oportunidade de atacar operários sempre com bons olhos e o Fábio, a dura verdade, tem o motivo genuíno de procurar Aurélia, ele entorpecido e atormentado, felizmente ela não está lá. Há o plano maravilhoso onde vemos uma carreata do mal ao som de Wagner, o carro de Fábio, carregando ele, Salesiano e o Contador, e quatro motos formando um grupo no contraluz. Esteticamente incrível e, ao mesmo tempo, quase sem sentido dramático, surgem motoqueiros do além que não faziam parte da trama para enriquecer esse ato do nada. Não faz diferença: o impacto expressivo está lá. O desenlace da treta no Clube não é o auge do filme, mas é efetivo, faz conflitos internos entre as operárias, como o fato de Lucineide não temer o tiro, a presença de Nair dando a cadeirada para proteger as colegas e o fracasso como vilão do Contador, que saca a arma contra as ordens de seu ‘chefe’, que o deixa lá para ser culpado. O conflito entre o burguês de esquerda, André Luiz, e o de extrema direita, Salesiano, não tem muita graça dramaticamente, porque no fundo esses personagens não merecem o espetáculo, ao contrário das nossas maravilhosas operárias. A loucura de Salesiano termina em uma última sequência na pedreira, onde Fábio finalmente rompe com sua loucura, decidido a colocar fim em seu tormento. É ele quem aponta a verdade para Salesiano, que discursa com desprezo sobre seus funcionários, quando, de fato, está completamente sozinho, tanto no conceito quanto na prática dos fatos. Para ele, sobra o desejo pela repressão como elemento libertador de sua mediocridade.

A cada cuidado aos detalhes o Carlão nos impressiona, como o carro de Fábio chegando ao mar, uma cena que remete de Zurlini a Monte Hellman. O vazio que sobra ao Fábio é aterrador, mas seu desejo por sumir no mar é também, na sua forma, um grito de liberdade. Num filme recheado de violência social, a sequência de violência gráfica explícita é de uma leveza única, quando os justiceiros dão cabo dos agressores num modelo semelhante àquele que o Di Branco, de Império do Desejo, fazia com os idiotas na praia. São diversos os momentos em que as tecelãs comentam sobre a falta de segurança nas ruas, no transporte, Aurélia praticamente prega que elas sentem a porrada nos agressores. É interessante como Reichenbach não torna estes elementos como a razão de existir da obra, Garotas do ABC é maior do que denúncia social, mas ela também reside ali. Ele nunca permitiria a sua obra a omissão. Esses detalhes são encenados com leveza, soando quase como uma comédia tradicional, vendo os detalhes, tudo que está no cotidiano, como parte do todo de um painel.

O fechamento ocorre quando Aurélia e Antuérpia foram visitar a família de Kimuiyo, uma colega, interpretada por Lina Agifu, em Suzano. Não há nada tão vida real do que ver nossas três operárias saindo da estação de trem. São imagens muito simples, mas decupadas com maestria. O movimento para Suzano oferece ao fim do filme uma leveza, sem o ambiente caótico e perturbador da cidade urbana, como é recorrente na obra de Reichenbach. Sem alarde, ele oferece suas últimas anedotas, reforçando a ideia de limpar a sua alma que Aurélia passa. Gosto sempre de ressaltar, para concluir, como Carlos Reichenbach domina o cinema como poucos, mas é também um grande escritor. Ele constrói com tanto cuidado, às vezes detalhes tão pequenos e sutis, personagens com trajetórias completas, forjadas em pouquíssimas cenas. Garotas do ABC pode não ter aquele final destruidor, a sensação de que você viveu algo que não vai ‘desviver’, que define Falsa Loura, por exemplo, mas carrega nele um universo profundo, expressivo e único. Errático, imperfeito, nem tudo parece no seu devido lugar, mas, certamente, um grande filme.

Guilherme Martins