Império do Desejo, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 1981)

‘…O SEU PUNHAL DE AQUILES, O ANJO VINGADOR, A JERUSALÉM LIBERTADA, O PÓLO CORROMPIDO, A LÁGRIMA PANTERA, A MISS E O DINOSSAURO’
Na sequência de abertura de Império do Desejo, temos um plano filmado do teto, acima de um ventilador, batendo lentamente. A câmera de Reichenbach é sempre um eixo divino, da criatividade inigualável, incontornável. Não existe nenhuma expressão particular para a qual necessitamos daquele primeiro plano com o batimento do ventilador, além do mero fato de reforçar a espelunca na qual aquela cena, onde uma madame, a viúva Sandra, interpretada por Meiry Vieira, está com seu namorado, um boçal completo de nome Odilon. Novos jogos de cena modernos decorrem ao longo da cena, entre as mudanças de posições do casal na cama e o modelo deste relacionamento que o filme vai expondo. Embora seja um sujeito grosseiro, arrogante, Odilon é facilmente colocado em seu lugar aos olhos de Sandra. Ela o define como ‘o meu gigolôzinho’, ele contesta, mas os fatos dão razão à sua parceira. Sandra paga a faculdade, a casa, literalmente sustenta Odilon, em troca de sexo e controle.
Sandra é viúva e está de partida para o litoral para recuperar um imóvel onde seu falecido promovia bacanais pelas suas costas. Ela nem sabia da existência da casa, uma pequena residência de frente para o mar. Este será o centro do nosso filme, onde passam hippies, intelectuais, burocratas, prostitutas, proselitistas e poetas. Ambiente de revolução e perdição. Reichenbach constrói a narrativa com tanta velocidade quanto nos oferece anedotas literárias brilhantes. Este é provavelmente o seu roteiro de maior riqueza literata. No caminho, Sandra conhece um casal. Eles são Nicolau, o Nick, interpretado por Roberto Miranda, uma das figuras recorrentes da obra de Reichenbach, e Lucinha, uma adolescente, interpretada por Márcia Fraga. Após a introdução, onde Sandra representa a faceta da sociedade moral e questiona a relação da dupla, a idade de Nick e possíveis parentescos, ela cede e resolve dar carona para o casal. Embora saibamos pouco nesse momento sobre quem eles são, me parece óbvio que ali está posto que o casal de libertários, aqueles que afirmam ‘estamos juntos’ e apenas isso, será o centro da anarquia sensual do filme. Anarquia Sensual era o título original do projeto, aqueles que são invendáveis mesmo que perfeitos. As percepções políticas de Reichenbach sempre passaram pelo libertarianismo, o anárquico total, mas também pelo questionamento deste, de seus limites, onde acabam. Nenhum filme deu tanta conta destas ideias quanto no Império do Desejo, onde ele expõe as situações em discussões objetivas na narrativa, mas também nos delírios e citações intelectuais. O calvário de Nick começa na praia do Império do Desejo e talvez termine no Alma Corsária, quando Rivaldo (Bertrand Duarte) despe seu corpo de todas as bandeiras até vestir apenas o símbolo da anarquia.
Entra em cena então outro personagem fabuloso, acredite, serão muitos. É o Dr. Carvalho, uma espécie de figurão local que frequentava os tais bacanais do marido de Sandra, e o responsável pela madame recuperar o imóvel, invadido por grileiros. A cena em que Sandra escolhe fitar o mar enquanto Carvalho e seus homens estão expulsando da casa a família do caseiro que ocupava o local é notável por resumir tanto a melancolia quanto a covardia de Sandra, incapaz de assistir às consequências de retomar a posse daquele espaço. É também um jogo fascinante do cineasta, pois a imagem humilde e simples do caseiro sendo retirado contrasta com a imagem final deste, uma hora e tanto mais tarde, sendo recolocado com armas pesadas para dentro da mesma casa, sob a ordem de seu patrão de sentar bala no nosso casal libertário caso eles retornem à morada. O Carvalho é um personagem hilário, moralista, asqueroso e amedrontado, interpretado pelo Benjamin Cattan. Entre tantas atuações notáveis, ele é um destaque. Seu personagem une o patético ao humor como poucos, ele gera desprezo e atração, sendo a trajetória do Carvalho surpreendente. Ele vai oscilar entre fazer as maiores covardias e atos surpreendentes de liberdade. Mas ser livre é para todos? É uma pergunta não explícita que o filme parece constantemente fazer.
À revelia de Carvalho, revoltado com hippies ‘sujos’ assumirem uma residência de ‘respeito’, Sandra contrata o casal como caseiros, assim iniciando uma relação de moradia e amizade entre os três, de onde as ramificações e sensações norteiam o drama. Sandra fica fascinada com a liberdade sexual do casal, transando diversas vezes no dia, não interrompendo seu prazer nem quando ela entra de surpresa no recinto. A intensidade do prazer atrai e intriga sua personagem. Até esse momento da narrativa, Sandra é a protagonista, nos guiando sob muitos aspectos. Porém, ela diverge do espírito de cena, do ideal de liberdade que o filme vai levar às últimas consequências pouco depois. Uma prova é o contato inicial de Sandra com outro dos personagens inigualáveis, Di Branco, o poeta radicado naquela praia, o cara que senta o porrete libertário na fauna de boçais que lá circulam, feito pelo Orlando Parolini, o parceiro e também poeta de Reichenbach, aparentemente uma inspiração do próprio personagem. Sandra toma sol sozinha quando Di Branco surge pela primeira vez, aproximando-se e levantando sua bata para revelar suas genitais. É a poesia que ele tem para oferecer aos imbecis. Nesse contexto, Sandra é um deles. Carvalho depois o define para ela como um louco, seu vizinho, mas inofensivo. Ele não poderia estar mais errado – Di Branco é o espírito selvagem, voraz e inquieto deste filme.
Pois bem, sigamos. Sandra vai para a cidade após comprar móveis e decoração para a morada. Incrível como Reichenbach domina elementos básicos do cinema, resolvendo esta mudança da casa esvaziada num ambiente apresentável aos olhos de uma madame em um off de segundos. Enquanto ela estava fora, nós somos apresentados a outra dupla de personagens, Pantha e Mista. Elas apenas surgem numa barraca, acampadas na praia em frente à casa de Sandra. Pantha é uma intelectual, dona de si, numa participação curta e perfeita de Matilde Mastrangi. Ela ‘transa a liberdade, mas odeia o feminismo’. É uma clássica personagem do Carlão, porque oferece diálogos fulminantes, indo do genial ao boçal em segundos. Ao longo deste dia, Pantha e Mista vão ambas se envolver sexualmente com Nick. Mista é uma modelo interiorana, daquelas que afirmam ser virgens, mas praticantes do sexo anal. Sua melancolia e confusão ditam parte relevante deste pequeno ato do filme.
A cena de Pantha com Nick é incrível. Ela dita, literalmente, cada passo de como deve acontecer a intimidade entre os dois. Nick, apesar de parecer duvidoso, atende às suas ordens. Onde tocar, como tocar, passo a passo. É a cena menos sensual do filme até aquele momento. A relação beirava o insuportável quando Nick interrompe e afirma como o macho preguiçoso que Pantha projetou que ele seria: ‘não sei você, mas eu acabei’. Num reposicionamento de cena tão usual do cineasta, um suave movimento de câmera e a mudança de postura de Matilde colocam Pantha discursando contra o individualismo masculino, fitando a câmera, despida. Pouco tempo depois, Nick interage com Mista, perguntando-a sobre como aguenta a amiga, a dona da sabedoria universal. Mista afirma que ela é dona de si, forte e a admira por isso. Nick responde, e aí afirmo como quem conheceu de perto Carlos Reichenbach, com palavras que parecem saídas da boca do próprio: ‘só porque leu meia-dúzia de livros e leu errado ainda’. Enquanto Pantha leva Lucinha para o quarto, tentando convencê-la que ela não deve ceder aos prazeres individuais de um macho, Mista confessa desejar Nick, mas não tem a coragem de Pantha de dar em cima dele. Como sempre nesses jogos de cena, Mista afirma isso enquanto está literalmente fazendo o que afirma ser impossível. A intérprete de Mista é Nádia Destro, cuja voz doce parece intensificar a autoironia da personagem.
Enquanto isso, Pantha esqueceu completamente de Lucinha e está discursando sobre prazer, falando como talvez o lesbianismo fosse uma opção, embora seja para lá de evidente nesse ponto que ela está apenas teorizando algo que nunca faria, pois, apesar do discurso, Pantha é provavelmente uma conservadora disfarçada. Lucinha então oferece a ela a prova: vamos ver se você sente prazer quando tocada por uma mulher. A reação de Pantha confirma a impressão, chamando a menina de selvagem, boçal e individualista. Na cena paralela, Mista consegue transar com Nick e então chegamos ao título desta parte do nosso artigo. Enquanto ela discorre sobre a importância de manter o seu hímen, sobre não oferecer aos potenciais parceiros o desejo por uma prostituta e qualquer outra bobagem conservadora, Nick oferece a Mista aquele prazer que negou a Pantha na cena anterior. Cuja consequência será, enfim, o ‘desvirginamento’ de Mista. Nesta cena tão cuidadosamente construída, Roberto Miranda vai exclamar ao penetrar Mista aquela exata frase: ‘aí está, o seu punhal de Aquiles’… O Império do Desejo é um filme posado, rebelde, maldito – a poesia confere sentido aos gestos brutais. Neste mundo verdadeiramente livre, o desejo é o imperativo e Mista desejava Nick. Para estas personagens, é fim de filme. Para nós, estamos apenas começando.
‘…FOI SUICIDA, LADRÃO, PADRE, PEDERASTA, PORRA LOUCA, CIGANO, FALSÁRIO, VENTRÍLOCO, NEGRO, ÍNDIO E ATÉ OPERÁRIO!’

Um aspecto do qual precisamos falar é a comédia física, farsesca, quase paródica. Citei como Carvalho representa isso e Benjamin Cattan é o principal alicerce dessa faceta desta obra-prima. Mas é injusto afirmar que esse tema depende dele em cena. Há várias sequências genialmente engraçadas envolvendo o Di Branco, um tanto pela bestialidade selvagem do personagem, porém com ele estamos tão investidos na sua verdade que a graça nem sempre é tão satírica. Tem personagens que são exatamente no mesmo tom de Cattan, como os capangas do grileiro que ameaçam Carvalho e vão lá para expulsar nossos caseiros. Quando chegam, de arma em punho, a dupla de comediantes pseudo-violentos não faz nada, ficando encantados com o casal plantando verduras na terra. O capanga careca afirma: não se deve atacar quem cultiva a terra. E eles prosseguem de volta ao seu filme individual de comédia, dando tiros um no outro, até terminarem batendo o carro e indo parar no caldeirão onde Di Branco cozinha figuras escrotas que parasitam aquela praia.
Há ainda o casal de turistas, uma sequência impagável, hilária, parecendo habitar uma narrativa própria num pequeno ato do filme. Este é outro aspecto estrutural do Império do Desejo. Reichenbach criou vários pequenos atos, com intertítulos e tudo, às vezes longos, às vezes curtos. Os títulos sempre remetem aos nomes de filmes que Reichenbach homenageia, alguns literalmente, outros com pequenas aliterações – como ‘Vento Leste’ ao invés de Vento do Leste, como no filme de Godard e Gorin. Alguns desses pequenos filmes são hilários, outros são ensaios filosóficos com Parolini desfilando. Eles são partes e, ao mesmo tempo, a essência deste organismo vivo composto por Reichenbach. Apesar de destacarmos a generosidade de seu olhar na obra como um todo, este não é propriamente um filme piedoso. Isto é: muitos personagens sofrem finais cruéis, mesmo alguns dos queridos. Como afirmei antes: ser livre não é para todos.
Quando Sandra parte para a cidade, Carvalho retorna a casa para oferecer armas e alertar da ameaça que está cercando o imóvel, prontamente recusada por Nick. É ele quem procura introduzir o casal ao Di Branco, chamando o poeta outra vez de louco, de ex-endinheirado, e afirma que literatura é coisa de (!) viado. Ele então desfila todas as coisas que o Di Branco foi em sua vida, com toda a pompa deliciosa de Cattan. Tudo que ele foi representa também tudo que o Carvalho em tese despreza, sejam profissões, sejam etnias… foi até operário!
Ganhamos uma pequena reviravolta: Nick conhece o Di Branco. É a primeira de duas referências de quem seria o personagem de Roberto Miranda antes de abandonar a vida da sociedade padrão. É ele quem chama Di Branco pelo seu nome: Enrique Di Branco, ‘ser tu sendo eu, ser tu sendo eu’ recita. Esse momento incrível de conexão não prevista segue-se por outra grosseria de Carvalho, que oferece uns trocados para Di Branco mostrar sua poesia nudista apenas por galhofa.
É notável como a ação e reação são controladas no filme, é o caso das cenas com a Pantha e Mista outra vez. Nada vem sozinho. São ideias distintas e superexpostas, encenadas com o gênio de um dos maiores. Benjamin Cattan e Roberto Miranda são quase como um casal hawksiano, oferecendo faces diferentes que estão se afastando e reaproximando, mesmo fisicamente. Quando Carvalho faz sua cena de ódio contra Di Branco, Nick o golpeia impiedosamente. Ele sai desesperado, cuspindo xingamentos. Nick decide perseguir o carro dele para devolver aquelas armas que não quer por perto. Ele acaba num acidente e Carvalho termina salvando sua vida. Após essa pequena cena de ação que o filme esconde no miolo, sabemos que Nick se recupera. Somos informados de que Carvalho foi realmente gentil, talvez por sentir culpa. Ele carrega Nick até a casa após passar pelo hospital e recebe de Lucinha um agradecimento carinhoso. O gesto acende uma luz na mente deste perturbado personagem: será que ela sempre o desejou?
Para nós, essa dúvida não existe, é natural, porém é factual que isso passa longe de ser algo inaceitável para Lucinha ou mesmo Nick. Aos olhos dela, como afirma alguns momentos depois, transar com Carvalho é desejável caso isso realmente o deixe feliz, pois é grata. O sexo não é nessa dinâmica apenas uma moeda de poder, mas também de empatia, da sua maneira.
Nick afirma em dado momento que estar lá é desejável e também um problema. Ele havia abandonado muitos sentimentos no seu passado, tais quais desejos ligados ao capital, principalmente de posse. Ter um lar, um automóvel e, principalmente, sentir a dor do ciúme. Ele entende e aceita a relação de Lucinha com Carvalho, como ela respeita o dele com Pantha ou Mista. ‘Não sou dono dela’, afirma. Mas é evidente que Nick está progredindo na direção do tormento interno. Carvalho leva prostitutas lá com a intenção de oferecer algo em troca para Nick, essa sim uma moeda amplamente recusada por ele. Mas isso não contorna o dilema: onde acaba o libertarianismo e começa a promiscuidade? Não sabemos. Ah, o gênio de Roberto Miranda! Seria estúpido afirmar que o ator nunca foi tão grande, pois suas atuações são memoráveis, vide o boçal retilíneo de Extremos do Prazer, outro clássico de Reichenbach. Num campo pessoal, aí sim, afirmo: para mim, uma atuação acima de todas, me seduz por completo.
Mas esse trecho do filme pertence também a Márcia Fraga, a Lucinha. Seu olhar doce para Carvalho não cessa nem mesmo nos momentos em que ele faz das suas patetices piores. Ela expressa genuinamente querer aplacar, da sua forma, a loucura que consome o Carvalho, mesmo que a sensibilidade de nós, espectadores, não acreditemos que ele merece.
Após uma série de desventuras que encerram o bacanal forçado de Carvalho, ele despede-se do casal no dia seguinte com carinho, desejando estar próximo de ‘vocês jovens’, ao que Lucinha responde que ele cuidou de Nick como um pai. O que se segue é a famosa aposta total de Nick: não existe meio termo. Carvalho beija os lábios de Lucinha, quando vai cumprimentar Nick, ele se aproxima e Nick tasca um beijo na boca de Carvalho. A reação do velho conservador é aquela esperada: o chama de selvagem, viado, de pederasta. Vai embora com as prostitutas gargalhando, retomando a piada da figura – mas esta história ainda não acabou.
Aquele espaço pequeno da casa que conhecemos apenas uma sala, cozinha e quarto, parece dobrar de possibilidades nas imagens. A cada nova proposta de personagem que adentra a morada, vemos a dinâmica mudar. Como afirmei, algo perturba Nick, algo que vem da sociedade, das amarras – mas também seduz. Ele quer estar lá, nada o impede de sair. Creio que isso seja expressado também na forma como a casa vai mudando aos nossos olhos, parece algo convencional, não um retiro libertário das primeiras cenas, também pela trilha autoirônica com clássicos americanos que tocam sem parar na vitrola. Na cena do bacanal, vemos o Carvalho quebrar um vinil no fim da noite e é um alívio.
‘…EU SOU TUDO E NADA….’

No último ato, temos o retorno de Sandra, a madame, para sua casa, acompanhada do seu namorado, Odilon, o boçal. Convencida de que adoraria estar na casa, reforçando que claramente não conhece o seu namorado, ela carrega a figura para o ninho de amor de Nick e Lucinha. Ela parece quase desejar oferecer-lhe em uma troca, tal qual o Carvalho fez com as prostitutas, não por desejo pelo Nick, mas por desejar sentir aquela liberdade que eles tanto vivem. Após algumas grosserias e de reclamar da liberdade que Sandra oferece a seus empregados – parte da piada sendo que Odilon é também uma espécie de empregado, como contamos lá atrás – vemos que, tal qual Sandra, Lucinha também é seduzida pela beleza do Odilon. Atento aos fatos, Nick afirma: seria melhor eles transarem logo, para o choque de Sandra.
Ela fica surpresa, mas Sandra não levou Odilon para lá sem consciência de que seu namorado/gigolô transaria com Lucinha. Ela usa a situação para ficar com Nick, mas ele não quer, não sob aquela situação, não por estar mordido de ciúmes. A reação mais dura de Nick ao desejo de Lucinha por Odilon é diferente daquele momento com Carvalho? Creio que sim. Na situação anterior, havia desconforto, mas compreensão, quase carinho para com a figura patética de Carvalho. Odilon, não. Ele não oferece nenhuma qualidade que não as físicas e cabe a Nick apenas respeitar o desejo de sua parceira, sucumbindo então a trair o seu desejo de liberdade e sentir os ciúmes.
A cena entre Lucinha e Odilon comprova a tese de que ele é o verdadeiro crápula, o único momento de quase duas horas recheadas de cenas de sexo onde a violência vence e o prazer universal perde para o inominável, na face de um estupro. Uma cena desconfortável, desagradável e desesperadora. Na manhã seguinte, o boçal sai saltitante, ri de tudo, vai para a praia dar de cara com nosso herói maior, o poeta. Di Branco lhe oferece uma porretada na cabeça, sem mais Odilon.
É a vez de Carvalho trazer uma última personagem improvável: a jornalista maoísta. Interessada no rumor de que o poeta vivia por ali, Carvalho procura o status de ser citado como o cara que fez essa ponte no jornal onde ela escreve. Ao chegar lá, ele aborda nossos protagonistas para perguntar por Di Branco e temos uma surpresa. A jornalista reconhece Nick como um importante revolucionário desaparecido, Nicolau Bezerra. Ela deseja entrevistá-lo, mas Carvalho desconversa, ainda incomodado com seu último encontro, aquele do beijo. Nick vira as costas para eles, não sabemos para que passado exatamente, mas certo de que ele deseja ser livre de tudo, inclusive da revolução.
Todas as cenas com essa personagem, a maoísta interpretada pela atriz Mii Saki, nascida no Japão, mas radicada na Boca do Lixo, são fantásticas. Ela é uma personagem muito posada, certamente calculada por Reichenbach, mas é preciso dar crédito à atriz que recita com vigor um texto tão específico.
Temos um pequeno ato, dos marcantes deste filme, entre ela e Di Branco. É quase um romance em pequenos momentos, montados com velocidade e expressão. Há flerte intelectual, físico, com intervalo para refeições e intimidade, no barraco de Di Branco, onde fica o caldeirão e tantas inscrições, charadas poetisas espalhadas por Reichenbach e Parolini, entre elas a famosa frase de Zé do Caixão: vim e irei como uma profecia. Cabe bem ao Di Branco. A maoísta termina seu encontro completando o ciclo de citações enquanto ele cozinha ela no seu caldeirão. Uma passagem de cinco minutos ou pouco mais. Fantástica.
Enfim, Sandra completa sua ida à ‘ilha dos prazeres proibidos’, ao menos aos olhos dela. Tem seu momento íntimo com Nick e Lucinha, após tantos flertes, o primeiro momento de genuíno sexo grupal no filme. A cena não é longa, mas é filmada como um ato perdido do Ilha dos Prazeres Proibidos, filme de Reichenbach feito poucos anos antes e com o qual este guarda algumas semelhanças. Apesar da beleza e pura expressão, Sandra não está preparada para seguir ali, ao lado do casal. Ela afirma não ter estrutura para aquele relacionamento a três, fugindo para a cidade, seu refúgio moral. Como alertei antes, o filme oferece finais cruéis para alguns bons personagens, sem rodeios. Sandra encontrará o seu quando esbarrar nos grileiros na estrada, longe de Nick e Lucinha, dos prazeres possíveis de ser livre.
Quem não desiste da liberdade é o Dr. Carvalho. Ele faz sua volta triunfante, retornando a casa afirmando estar disposto a abandonar sua família e viver em plena liberdade com o casal. Despido de sua velha moral, ele afirma: ‘sou tudo e nada’, o infinito o espera. Ele convida o casal a partir para seu recanto pessoal, uma fazenda na beira do lago. Uma propriedade mais deslocada da sociedade do que a casa de Sandra. Interessados pelo mudado Carvalho, um homem livre, os dois partem como um trio de amantes.
O local parece um espaço utópico, beleza natural absoluta – patinhos nadam no lago, onde Carvalho afirma nunca ter nadado. Enquanto Nick e Lucinha queimam o seu amor uma última vez em cena, Carvalho parece um desenho animado nadando. ‘Iupi!’ grita, saltando nu, nadando serelepe, até morrer afogado enquanto o casal alcança o orgasmo. O esforço dele é notável, mas Carvalho, tal como Sandra, não está pronto para gozar livremente. É para poucos. Reichenbach é o maior.
Guilherme Martins
