Isabel, de Gabe Klinger
(Brasil/França/EUA, 2026)

O primeiro aspecto do terceiro longa-metragem da carreira de Gabe Klinger, o segundo de ficção, que vai captar nossos olhos é, definitivamente, a textura do filme. De alguma maneira, mesmo numa cópia digital, o 16mm e as camadas oferecidas pelo celuloide parecem oferecer ao filme um frescor diferenciado, uma quase urgência estética, o reverso do que soavam no começo do século XXI, os filmes feitos totalmente em digital. E, de alguma forma, está entre os maiores méritos do Isabel esse olhar que remete a algo reconhecível, táctil, como se a textura do filme remetesse a um extremamente organizado filme caseiro. O que casa com o cuidado com as locações, os ambientes da cidade, reconhecíveis, mas não vulgarizados, que causam um sentimento reconfortante. Existe uma profunda intimidade expressa dentro do filme, seja nas cenas feel good, como na sequência em que Marina Person e Caio Horowicz bebem até cair na casa dela, seja nos tensos e desagradáveis, como na interação com o patrão de Marat Descartes e no constrangedor momento em que Isabel finalmente percebe que seu potencial investidor, o empresário gringo, estava perdendo seu tempo.

Isso acontece numa simbiose bastante particular com a performance incrível de Marina Person, encontrando em Gabe Klinger um parceiro brilhante, em sintonia, ajudando-o a encontrar esse ritmo particular do filme. É íntimo, mas também é um fracasso anunciado. Todos avisam Isabel, mesmo assim estamos fortes nessa onda, nessa esperança, quase ingênua, que ela carrega de reconstruir sua carreira sendo dona do seu próprio espaço – aqui, não é só arquitetura, sonho pessoal, aquele espaço representa diversas coisas, uma São Paulo que desaparece, a ruptura de Isabel com o sistema, os vinhos orgânicos representando, também, a rebeldia, o fora da curva, os rejeitados.

É certo que Isabel, a protagonista, se encontra numa posição onde seus gestos de rebeldia têm lá sua segurança, isso é, Isabel arrisca tudo dentro do seu contexto, não necessariamente num contexto social amplo. Não por isso sua jornada é menos engajante, é um filme que causa muitos desejos, inclusive o de se apaixonar por vinhos, embora, aos meus olhos, os vinhos de Isabel não sejam diferentes dos filmes para nós, os cinéfilos. Marina está lá, exposta em completo, na sua expressão mais real e única. O rosto de uma mulher que conhece o tempo, mas também é dona de seu próprio destino. O fracasso de Isabel é real apenas se acreditarmos no seu conceito capitalista.

Essa força motriz de Isabel, a perseguição do sonho desta personagem custe o que custar, arriscando amizades, reputação e, objetivamente, dinheiro, é pautada por uma certa ingenuidade curiosa. É como se Isabel se recusasse a refletir, a partir da retirada do investidor, de que o seu plano precisava de um remendo, porque era tudo ou nada, num uptempo de montagem interessante. Gosto particularmente da forma como o filme é dramaturgicamente construído, ele escala rápido, parece objetivo, tem poucas pontas abertas. É um destes casos onde roteiro e montagem retornam a sua essência de serem, basicamente, a mesma coisa.

Vou arriscar chamar a ingenuidade de Isabel, perante a improbabilidade do sucesso de seu empreendimento, de um gesto político. A sua rebeldia parece extremamente antenada com a geração de sua personagem, chegando a sua idade mais ‘jovem’ do que quaisquer outras gerações antes, mas sob o olhar amargo da sociedade, que deseja segurança e baixo risco. Diferente de Porto, o bom longa anterior de Gabe, os seus diálogos que lá eram divididos num vai-e-vem entre o casal de protagonistas, em Isabel são apenas dela, por mais que seja reconhecível aquele frescor nas trocas entre os personagens e Isabel, é apenas por ela que estamos fascinados. O romance, neste filme, é entre uma mulher e sua utopia, e não vejo derrota menos real do que aquela encenada no desfecho do filme. Não soa como um filme ambicioso, mas diria que Isabel tem sucesso na maioria de suas tentativas.

Guilherme Martins