James Gray em retrospectiva

a partir das revisões deste filmes

Fuga para Odessa (Little Odessa, EUA, 1994)
Os Donos da Noite (We Own the Night, EUA, 2007)
Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant, EUA/França, 2013)

Mark Wahlberg e Joaquin Phoenix em cena de Os Donos da Noite (2007)

Tem um momento de Fuga para Odessa em que eles estão de madrugada no zoológico e chega um funcionário perguntando como eles vieram parar ali. O irmão mais velho apenas pega e aponta a arma para o cara, que coopera completamente. Os dois irmãos estão vivendo uma experiência especial para eles, e vivem os próprios valores, que fazem total sentido para eles. O menino até fuma. Não há como explicar a situação para o zelador, e não há por que tentar. O personagem é cordial, apenas aponta a arma para deixar claro ali o limite.

James Gray insiste que não faz filmes policiais, nunca lhe interessou fazer cinema de gênero. São dramas familiares e a violência simplesmente vem a partir dos limites da experiência civilizada americana. O que a gente pode chamar de fascismo, tem a ver com esses limites, e se chamamos de fascismo, assim como uma categoria tão essencial, estrutural, capaz de se definir como fascismo, é porque somos capazes de admitir que essa forma violenta intransigente está na própria sustentação das coisas. Gray fala que nenhuma vida não é interessante o suficiente para dar um grande filme. Somos todos capazes de examinar a realidade mais de perto e perceber uma quina irredutível da realidade, em que algo de nossa vida se revela trágico, e subjacente à nossa vida pode-se encontrar a violência.

Esse zelador do zoológico estava por um momento inocente em relação à violência que estava em jogo, ao limite do diálogo, ao pouco valor dos valores de seu ofício naquele momento, e assim fez questão de permanecer. Como esse cara ilegalmente no zoológico, que vai sair andando você queira ou não, algo na realidade opera perante suas próprias regras, a da violência e da medida de força que sustenta qualquer impressão de equilíbrio. Mas essa história não lhe foi apresentada de forma justa, como num tabuleiro de jogo. Seus tentáculos são parte do que te envolve desde quando você se entende.

Não há existência neutra.

Os primeiros momentos de Paper Tiger podem parecer somente o setup da tragédia que será delineada mais pra frente. O tio mostrando a arma pras crianças e piscando, nós pensamos o que pensaremos até o final: vai dar merda. Em algum momento, houve uma fé comprovadamente falsa que fosse ficar tudo bem. A ideia que estou trazendo é que a dramaturgia do filme não trouxe um problema novo, ela apenas o revelou, ele é a violência que estava subjacente ali desde o início. A primeira cena de We Own the Night é Joaquin Phoenix demonstrando para nós de onde veio, e logo sendo chamado de canto pelo pai que explica para ele qual vai ser o final do filme. E acontece tal e qual, e para pior. Mesmo assim, com as cartas que vemos dadas, difícil imaginar diferente. Phoenix depois dá seu lado da origem do drama: joga na cara do irmão: “Foi você quem quis bancar o homão, entrar pra polícia”. Aí que tudo se deu.

Talvez, analisando a história, o primeiro e único erro que desencadeou toda a tragédia, tenha sido o irmão ter entrado para a polícia. Você tinha que ser um homão, né. Desse modo, Phoenix, que só queria ficar de boa e gozar de sua vocação, está desde sempre fadado a uma sina que não foi ele quem escolheu, e que significa vida ou morte, e muita violência.

Você tem um dever. Como pode ficar indiferente, a cidade estando o caos em que está? Cumprir esse dever é destruir sua carreira e desmoronar toda a sua vida. Seu dever é perante quem? Perante a cidade, à qual o chefe de polícia serve. O gângster deixa claro: as ruas são indiferentes às normas da polícia. A polícia lança de volta: não dê ouvidos a um gângster, nós que trabalhamos e entendemos disso. A cidade de Nova York sempre apostou muito em suas políticas de segurança pública, tema de inúmeras obras, de Brooklyn 99 a Taxi Driver. Gray trabalha com uma dimensão sugerida, a de que a realidade é esse eterno jogo que o homem não controla, jamais domina ou supera. A violência das ruas, o tráfico de drogas, é muito difícil acreditar que qualquer coisa que esses míseros personagens façam possa mudar qualquer coisa. Isso se sugere até no quão íntimo é o drama, próximo de Joaquin Phoenix, cada movimento na direção de lidar com a situação leva muito tempo e aflição física.

“O seu pai morreu por nada”

Ao que ele vai para dentro da própria cabeça, a câmera encontra uma parede que nos afasta, e bebe o uísque que não vai fazer mágica.

A outra questão subjacente, é a ideia de que houve um tempo em que as grandes metrópoles americanas estavam de fato numa situação absurda de violência, muito diferente de hoje. Essa perspectiva se sugere nas primeiras imagens do filme, em que vemos umas fotos antigas muito narrativamente expressivas da polícia, ao som de jazz. Já se tem a ideia de que se está contando uma história de um tempo e da polícia. Na natureza do trágico desses personagens, de seus destinos ou ações, está sugerido se existe ou não alternativa ao horror do mundo que presenciamos.

Em The Immigrant, a personagem já chega sem passado, é por definição uma imigrante, não tem para onde voltar. Um passado indefinido no navio também já macula suas possibilidades de presente, ela é expelida. O filme todo em neblinas, para fora de Nova York, num curto momento vemos um bairrinho, um sobrado. Havia nela a esperança, o tempo todo, de mudar de vida, mas o filme não mente, essa esperança nunca existiu. Sua existência é de constante luta e resignação, e não promete ser diferente. O homem que cruzou seus caminhos e se humanizou perante ela, se revela mais e mais desumano, até que confessa ser o responsável por toda a sua desgraça de cartas marcadas desde o princípio. Nisso tudo, por exemplo, quanto à história do navio que a colocou marcada nessa terra, não importa se há ou não verdade, aliás, esse haver e não é a natureza do drama que Gray sempre consegue manter à mão com sua delicadeza.

O não que o mundo diz é a condição do humano, e Gray não vê cinema fora dele, ou, aliás, sempre se há de encontrá-lo caso se persiga o drama. A busca pelo equilíbrio e a luta pela vida é tudo que seus personagens conhecem, conforme os acompanhamos, jamais encontramos o humano fora desse devir. Tal é também o caso de Z, e a bela ruptura que o personagem encontra ao fim de Ad Astra, simplesmente como promessa de um novo dia.

Os três filmes (Little Odessa, We Own the Night, Paper Tiger) têm algo em comum definindo o mundo em questão: o pai traz a violência da realidade e a mãe morre. Pode-se encontrar o lugar de Gray, cujo pai se metia em problemas com a lei e a mãe morreu. A partir dessa equação, a amargura do destino dos filhos, acostumados a entender a amargura do mundo que os espera. Ao fim de Paper Tiger, os meninos, ainda adolescentes, já não têm esperança de que o mundo seja gentil, que não dependa tão somente da frágil proteção com que possam jamais contar. Phoenix, em We Own the Night, tenta não encarar isso. De certa forma, a pátria mãe e a pátria americana, fazem esse papel de pai e mãe para Marion Cotillard, a imigrante. Entre a misericórdia da mãe que nada pode e o peso da mão do pai. Um lugar de onde se posiciona a visão do artista. James Gray é o que de melhor podemos dizer sobre o clássico no nosso século.

Villar da Cruz