Joy of Joys, de Jonathan Glazer
(Reino Unido, 2026)

Você pode construir uma série de pontes interessantes entre este documentário, uma espécie de produto institucional com objetivo filantrópico, e a história do cinema com crianças agindo livremente, sendo elas próprias os axiomas formais deste novo filme de Jonathan Glazer. Não me coloco entre os fãs do cineasta, mas ele é certamente muito relevante, tem um olhar preciso e sabe exatamente onde quer estar nos seus longas. Daí que este curta-metragem possa soar tão curioso por carregar sua assinatura: seria mesmo um filme de Jonathan Glazer, ou seriam as crianças as suas autoras?

Embora, certamente, sejam as crianças o trunfo verdadeiro do filme, o motivo para se ver, divertir-se e, quem sabe, emocionar-se com o filme, há escolhas de dispositivo que incomodam um pouco. Um exemplo é o fato de que a principal filmagem do filme, no estúdio Abbey Road, onde uma série de bons artistas está gravando canções antiguerra, tem uma série de câmeras espalhadas pelo ambiente. Quando as crianças são adicionadas, embora exista muita doçura, mesmo diversão, nelas se espalhando com suas câmeras por aquele espaço, o filme assume raramente o olhar das crianças como o principal da filmagem. Diria que, honestamente, os melhores momentos desse segmento são as cenas captadas pelas câmeras do estúdio, com as crianças embrenhadas no estúdio, indecisas sobre onde podem ou não pisar, interagir ou não com aqueles artistas, sendo os pequenos de idades entre 6-9 anos, desconhecendo a imensa maioria dos artistas presentes. Para eles, são um bando de velhos fazendo barulho, o que é diversão certa. Mas será um filme?

Por que decidi questionar essas escolhas? Porque, no segmento dos países em guerra, seja Gaza, Iêmen ou Ucrânia, as crianças são o dispositivo. Essa é uma solução que dribla com bastante inteligência o medo que carregávamos de que, eventualmente, o filme apelasse para uma miserabilidade sensacionalista. É um dos elogios mais justos que posso fazer ao Glazer: o filme não faz isso. Ele passa longe de ser como aquele longa de vinte anos atrás, Todas as Crianças Invisíveis, onde uma série de diretores, alguns ótimos como o Spike Lee, criavam curtas tenebrosos e mão-pesada sem qualquer interesse. Joy of Joys gera dúvidas, mas é certamente um filme. Tem tom, tem ritmo, é muito bem montado, tem graciosidade. Apenas é aquilo que se propõe: menos uma obra autoral, mais um documento que defende o olhar infantil de forma livre. Remete, por exemplo, para concluir a proposta inicial da crítica que escrevo, Na Idade da Inocência, dos longas menos famosos de François Truffaut. Aquela inocência verdadeira, não forjada, não esquematizada. Méritos.

Guilherme Martins