Letter to Jane no Cinusp

O melhor de ver Letter to Jane com amigos queridos é rir nas partes cômicas, como se fosse permitido rir num filme sobre a Palestina, aliás, sobre o Vietnã. Pensei depois que isso foi uns vinte anos antes dos Simpsons, que já confiaram muito bem naquela piada da gravação telefônica em que uma voz diferente preenche, com outra entonação, as lacunas da primeira. Na prática, Godard cria humor com o mesmo recurso. Tem esse tom de ridículo que é remendar os detalhes da fala se explicando, e confia bastante nessa musicalidade do discurso pra causar seu impacto, pra nos fazer acreditar que precisamos ouvir essas palavras sobre a tela escura, porque se ele está ainda falando enquanto a tela apagou, ele precisa falar.
Porque se a gente for resumir o filme a um blá blá blá que ele vai parecer se a gente for esperando um blá blá blá, em vez de ver como um apetitoso filme ensaio sobre imagens feito pelo maior pensador da imagem na imagem que o cinema já viu, a gente vai deixar de lado todo o filme em si, que é tudo que o filme é, ou seja, justamente o que vai ser curtido intensamente por alguém que ama o Godard e tem fé nele, que acredita nele, que o ouve. Que o filme é delicioso, é necessário, e ele ser delicioso e necessário é essencial para o que ele tem a dizer ou fazer, ou seja, ser um filme sobre como não há filme para dizer, não há o que dizer, apenas fazer, já que é essa toda a questão central do tal filósofo Karl Marx, conforme sabemos, que a História material, por ser produto da existência material e inevitavelmente ativa, só pode acontecer, aliás talvez para nosso lamento, para nosso drama de meros humanos, no campo da ação material.
Não há como conquistar mais do que Godard o direito a ser ouvido nesse caso, um artista cuja obra foi colocada por dez anos nesse lugar de crise quanto ao que um artista como Godard pode fazer, isso se sabendo tão definido como alguém que está fazendo, o que? Arte, no fim das contas, se formos encarar com honestidade. Jane Fonda é uma atriz, etc. “A vedete”, conforme, irritantemente, João César Monteiro chama Ingrid Bergman ao falar dos filmes dela com Rossellini. O filme, como tanto na obra de Godard, por ser uma meditação cinematográfica e não a revolução, fica ali vibrando na eletricidade desse entre-movimento, marcando, com certa alegria, no formato de bom humor, no formato de uma leveza de espírito, o seu lugar. Coisas ditas como “One more thing, so you won’t be attacked personally” são tão engraçadas justamente por serem tão cândidas, carinhosas, cordiais, leves, que deixam rastro do mais fino humor, que me faz rir sempre que retorno, o que diz também, justamente, à sua forma, à nossa forma, possível, que podemos rir em pleno genocídio, pela mera razão de que alguém fala para nós assim tão sinceramente, tão abertamente, tão criticamente, tão cinicamente, tão inocentemente, tão malandramente quanto uma criança, deve merecer um sorriso.
A ação de Godard, o Godard vedete, Godard Joker, é justamente querer ensinar uma atriz a atuar, falando sobre como atuar é atuar politicamente, assim como Brando fez com Nixon. Imagina se as oficinas de atuação de Nova Iorque passassem esse filme em vez de qualquer bobagem que eles passem, imagine se a Jane Fonda tivesse visto esse filme, imagina se todos os atores em Hollywood tivessem aprendido essa lição básica de atuação com o maior cineasta de todos os tempos. O Godard menciona no filme um pequeno detalhe que teria sido o início da revolução, caso tivesse sido praticado na revista L’Express, mas não foi. Essa não é a máxima esperança que Godard tem na revolução: se esse nível de discurso acontecesse num espaço de grande circulação, seria o início da revolução, mas os veículos de grande circulação, por sua natureza, não falam essa língua. Para não se dizer um completo niilista, Godard testa sua teoria na prática, ou seja, ele fala diretamente com Hollywood, e bastava que Hollywood parasse por meros quarenta minutinhos para ouvir o maior cineasta de todos os tempos, e a revolução aconteceria. Nós, aqui da Fuller, que também achamos divertido nos dirigir a quem não tem ouvidos só pra testar se os ouvidos existem, constatamos que a revolução não aconteceu ainda.
Villar da Cruz
