Lilian M.: Relatório confidencial, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 1975)

M, a marca da maldade

“… eu não quero morrer, ai, ai minha jugular, eu sou um homem de sucesso, eu
plantei um filho, eu tive uma árvore, ai minha veia…”, o primeiro amante de Lilian M segura o pescoço ensanguentado antes de cair morto após um acidente de carro, um homem que ela conhece para escapar do campo e do marido. À frente da cena, uma estrada iluminada é o único caminho a ser seguido pela protagonista que é título do filme, Lilian M, um nome roubado de outra mulher, adicionado “M” por distinção ou por presságio. Ao longo da duração da fita de um gravador, que também é a duração do filme, Lilian M relata sua sucessão de amantes e as diferentes maneiras que os homens ao seu redor encontraram a morte. Mas o que faz o encontro com Lilian preceder a morte?

O filme chama-se Lilian M, mas poderia chamar-se A mulher de todos ou Os homens que eu tive. Também poderia chamar Liliam, a suja, com o M já incorporado ao Lilian. É possível ver em Lilian M a discernibilidade característica do que viria a ser a filmografia do Reichenbach? De Corrida em Busca do Amor (1970) para Lilian M (1975), um cosmo associativo e libertário de ideias cinematográficas é perceptível na execução de suas estruturas narrativas formadas por esquetes. Não são como os filmes de esquetes cariocas do Carlo Mossy, ou como os longa-metragens formados por uma coleção de episódios. O esquema de gracinhas e caretas desses primeiros filmes do Reichenbach, baseado na exaustão rápida e explosiva de pequenas situações em premissas de repetição, demonstram uma fixação pelo modelo desconjuntado de plasticidade popularesca em encenações cômicas e violentas, fugazes, seja nos mecânicos atrapalhados, encontrando diferentes maneiras de ganhar uma corrida, como no primeiro longa, ou uma série de encontros variavelmente fatais entre uma mulher e vários homens, como visto nesse segundo.

Lilian M, interpretada por Célia Olga, não tem intenções assassinas sobre seus amantes. Na verdade, Lilian não parece ter grandes intenções, vive despropositada, acatando em sua jornada torta diferentes concepções de vida impostas por diferentes homens. Seu rosto é severo, mas não expressa muitas sensações. Acomete impulsos de abandono e atração, dependendo da modulação dos planos para determinar seu nível de acepção às cenas que performa.

Nos planos deslizantes, com a câmera flutuando sobre os trilhos para se aproximar ou se afastar de um posicionamento de atores, às vezes atravessando horizontalmente o panorama de suas determinações cênicas, a transição de um amante para o outro está estabelecida por esse ritmo da câmera apreensiva, em movimento corrente. Em quadros fixos, Lilian costuma virar estátua no plano, servindo de modelo à paisagem de uma cama ou ouvinte silenciosa de personagens que discorrem sobre suas concepções de mundo. Entre o deslizamento e a fixação, Lilian não diz muito, testemunha os problemas e as excentricidades dos outros: um bailarino suicida, um detetive obcecado por bonecas, um homem viciado em pedir prostitutas em casamento, conflitos em que serve de acompanhante mais do que figura ativa, determina a ocorrência da sucessão de cenas por sua presença e seu abandono dos espaços. Então, qual a culpa de Lilian M nos percalços desses personagens tenebrosos que coleciona?

Incorporação apática de diferentes direcionamentos de cotidiano e diversos propósitos de vida, sempre disposta à exaustão e ao abandono para continuidade de uma busca pela própria caracterização, Lilian M é uma personagem sem propósito, engendrada pelos homens que utiliza, incluso o entrevistador no extraplano que serve de interlocutor invisível ao longo do filme. O próprio gravador e a premissa do relatório também se associam às determinações de cena que colocam Lilian como receptáculo de acepções externas, Lilian está contando a história pelas medidas de uma série de perguntas investigativas. Na estrutura de sua jornada, percebemos intenções dissociativas de cinema.

Lilian M é uma sequência de sucessivas situações desconexas, não mais do que algumas ideias de cinema, às vezes nem ideias de cena, apenas ideias de cinema montadas em conjunto livre, intercaladas e descruzadas. Prevalece a vontade de apreender com a câmera algum gesto ou careta, um objeto ou movimento, alguns tiros de revólver acionados gratuitamente contra o pôr do sol, um movimento de despir a roupa, um homem pelado na cama, uma mulher pelada na cama, um grito solto com as mãos hasteadas, uma perseguição de carro ou alguns descambos ocasionais para números de dança, balé, mambo, maxixe. Associam-se pela aproximação do desconexo, nem sempre em esquetes ou episódios completos, histórias ou piadas bem contadas ou contadas até o final, mas em possibilidades de compor um enquadramento que esteja recheado por uma proposição de absurdo ou de atração, sem necessidade de ligamento com os planos anteriores ou posteriores, uma série de figurinhas em movimento que também poderiam ser descritas como tiras cômicas de jornal em três quadros que se resolvem cinematograficamente em poucos enquadramentos.

Um exemplo, em três planos conexos que não servem para grande coisa além de si mesmos: uma cena começa com Lilian entrando pela porta do apartamento e oferecendo chucrute ao seu amante alemão. Ele está sentado em silêncio no escuro, não responde Lilian, faz sinal para que ela sente em seu colo, os dois enquadrados, ele com o rosto próximo à câmera, ela se aproximando da porta ao colo. Ela senta no colo dele, estamos em outro enquadramento no plano seguinte, próximo dos dois amantes. Ele tira dois fios soltos debaixo da cadeira e espeta Lilian, que dá um grito com o choque. Ele ri. A cena seguinte se resolve em um quadro só, uma vista superior que enquadra toda a cama. Lilian está nua, coberta por fios, tomando choques controlados pelo alemão. Ao fim da tortura consentida, ela pede um dinheiro para ele, ainda amarrada pelos fios elétricos. Ele tira um talão de cheques do bolso e estende sobre o peitoral de Lilian, assinando o valor pedido. Pelo resto do filme, não levamos mais nenhum choque elétrico.

De tantos exemplos de um despropósito contínuo impulsionado pelo humor e pelo plástico, seria essa falta de propósito maior (ou propósito duradouro) a causa da aproximação de Lilian com a morte? Seria essa sua maldade? Ao se esgotarem os recursos cômicos e cênicos de algum de seus homens, seus personagens de cinema, a via do assassinato, do suicídio ou do abandono é imposta ao tabuleiro do jogo.

Esse jogo de cena é contaminado por algo infantil, direcionamentos decisivos de diferentes brincadeiras que se justificam apenas por suas variações. Ou seja, mais do que cada uma das situações de Lilian M faz por uma graça ou uma pirueta cinematográfica particular, o jogo se justifica pela coleção dos causos, pela capacidade do filme de saltar de uma imagem despropositada para outra, carregando em seu sequenciamento diferentes passos de uma coreografia desajeitada e assimétrica. Lilian M, personagem de cinema, rosto fechado e impessoal, não vive grandes mudanças emotivas ou dramáticas, é uma mulher- fantasia de diferentes articulações, esposa e prostituta, aventureira e entediada, disposta aos contextos de amantes irregulares e inconstantes, atravessando o sexo e a cidade sem garantir lição ou herança.

João Pedro Faro