Luta de Classes, de Spike Lee
(Highest 2 Lowest, EUA/Japão, 2025)

“Pack out the trunk from the front to the back” ou os horizontes nublados do agora
Concordamos que a simples comparação pode ser uma lente de alcance limitado quando o assunto é diferentes adaptações cinematográficas que bebem de uma mesma fonte e partem aparentemente de um mesmo lugar. Porém, com o objetivo de defender um dos filmes mais interessantes do ano, observamos alguns contrastes entre Highest 2 Lowest e High and Low (Entre o Céu e o Inferno, 1963), de Akira Kurosawa, que suscitaram algum interesse. Além do mais, é evidente que a rearticulação dos muitos ladrilhos que compõem o mosaico do filme original (e o livro King’s Ransom, de Evan Hunter, progenitor dos dois filmes) foi parte importante do processo de construção de Highest 2 Lowest. Spike Lee escolheu um caminho definitivamente contemporâneo, que aproveita a trama original para responder a diferentes questões – não por acaso, o filme é pouquíssimo saudosista e não se deixa limitar por acenos institucionais às outras obras.
Em High and Low, Kurosawa opta por uma solenidade grave comum a todos os personagens – o drama humano e moral tem um peso que Spike Lee faz questão de enxergar de outra maneira, por vezes beirando o satírico. Enquanto o poderoso Kingo de Toshiro Mifune pondera com severidade o impacto do sequestro de seu filho (e depois, do colega de seu filho) em seus planos financeiros arriscados, a impressão que temos do divertido Mr. King de Denzel Washington é quase oposta. Somos induzidos a detestá-lo, quase a torcer contra ou, pelo menos, a não simpatizarmos com ele sem inúmeras ressalvas.
Mr. King é a exceção, o capitalista sensível que chegou ao topo e não sente mais no seu espírito a inquietação dos tempos passados – esse é seu drama. O Kingo de High and Low acredita puramente na integridade de seu empreendimento na indústria de sapatos – o problema financeiro que surge com o sequestro é, além de tudo, uma ameaça a essa própria integridade que o Mr. King de Highest 2 Lowest já deixou para trás e tenta recuperar. Há uma honestidade notável nessa escolha de caracterização, uma descrença absolutamente contemporânea na possibilidade (ou no sentido) de construir a imagem de um herói – que em High and Low existe quase como recompensa que Kingo acaba recebendo em decorrência de suas boas escolhas. Não há como olhar com generosidade para Mr. King sem algum grau de ilusão.
Jeffrey Wright interpreta o faz-tudo Paul, que passa o filme todo em um não-lugar: amigo e funcionário de Mr. King, se mostra extremamente servil o tempo todo. Quando seu filho é acidentalmente sequestrado no lugar do filho de Mr. King, ele depende totalmente do patrão para realizar o resgate e é constantemente hostilizado pela polícia por conta de seu histórico criminal. Se há algo que justifica, ainda que com alguma ironia, a tradução do título em português para “Luta de Classes”, é a presença de Paul, que está preso numa espécie de dívida moral eterna com King e que participa, até certo ponto, dos mais íntimos assuntos familiares até as contradições inevitáveis começarem a aparecer.
Peça central, Paul interessa a Spike Lee muito mais do que seu equivalente em High and Low interessou Kurosawa, ainda que a solução do filme original, em termos de mise en scène, seja notável. O pai de Shinichi, chofer de Kingo, é colocado por Kurosawa como a imagem definitiva da impotência (e é uma das mais memoráveis do filme) – o personagem é reduzido a um corpo mirrado, muitas vezes virado quase de costas para a câmera com a cabeça baixa, os ombros caídos em prostração eterna a Kingo, que chega a se irritar com a reverência servil do homem destruído pelo sequestro do filho.
O filme cresce de fato com o confronto direto entre Mr. King e Yung Felon, o rapper independente e desconhecido interpretado por A$AP Rocky. É quando os temas de fato cristalizam e a dramaturgia parece seguir rumos completamente opostos aos de High and Low, em um desvio consciente em direção a alguns fenômenos bem contemporâneos. Takeuchi, o sequestrador de High and Low, vive na pobreza e é forçado a ver, através de sua janela, a imponente casa de Kingo no alto da montanha. A desigualdade intransponível é revelada em todo o seu peso avassalador, que não poderia senão moldar a identidade ressentida de Takeuchi, pela imagem mais sintética e verdadeira possível – a mansão vista de baixo, enquadrada eternamente ali entre cortinas velhas e madeira precária. Trata-se de uma imagem que sozinha sintetiza didática e afetivamente a “luta de classes” dentro do filme de Kurosawa. Em Highest 2 Lowest, é notável que o elemento de classe não se faz tão presente nem como imagem, nem como motivação narrativa. Spike Lee decide abordar a classe pelo negativo – o filme retrata uma impossibilidade de um confronto de classes, que não se dá por conta de uma cultura (no sentido godardiano) que impede que a polarização entre rico e pobre de fato se concretize e deságue em violência.
Enquanto Takeuchi quer destruir Kingo financeira e simbolicamente – e falha, por questões materiais e culturais que favorecem Kingo -, e toda a gravidade de seu ressentimento é vista como força destruidora que o aprisiona, mas que é também dotada de certa potência quando usada contra o mundo, Yung Felon aparece como figura assumidamente patética. Ele é ressentido, de fato, mas o que ele busca é, acima de tudo, prestígio na música e o sucesso comercial. A escolha do alvo da chantagem não é parecida com a de Takeuchi, afinal, trata-se do executivo da indústria musical por quem ele se sentiu ignorado, não do símbolo eterno de uma danação imposta definitivamente pelo capital. Quando o sequestrador conversa com David King na prisão, a atmosfera é completamente diferente da cena equivalente em High and Low: Yung Felon não faz um desabafo perturbador e doído como Takeuchi, mas uma proposta de negócios – afinal, parece uma ótima estratégia de marketing juntar o rapper sequestrador com o executivo que foi vítima de seu crime, em uma inusitada parceria feita para viralizar e beneficiar os dois. Yung Felon não está interessado em uma luta de classes, nem pela chave de Takeuchi, ele está interessado em de fato ter o prestígio de David King, em aderir completamente à Cultura – e essa é parte da razão pela qual ele falha.
Acredito que, apesar do gosto evidente de Spike Lee pelas canções de A$AP Rocky, o realizador tem plena consciência da ideologia hegemônica no gênero do rap americano atualmente – que é a mesma do próprio mundo capitalista, onde as letras revelam uma adesão nua, crua e honesta ao desejo da obtenção do status e dinheiro como propósito de vida. Lembramos que, nos álbuns da maior parte dos artistas de rap mainstream, mesmo as faixas aparentemente conscientes desse problema parecem ter suas mensagens ignoradas nas músicas que as seguem.
Em High and Low, Kingo termina afetado emocionalmente pelo que aconteceu, mas o público (ou talvez a mídia) o reconhece como herói e rejeita Takeuchi. Em mais uma camada de comentário ácido sobre a cultura americana, Spike Lee escolhe uma saída mais complicada – tanto Yung Felon quanto Mr. King obtêm reconhecimento e sucesso na mídia, King consegue a solução para seus problemas com a gravadora e Yung Felon vira o artista mais tocado das plataformas de streaming, mas isso acaba reforçando ainda mais o patético dos dois personagens para nós, espectadores. Afinal, os dois conseguem em certa medida o que desejam, não há possibilidade de qualquer drama duradouro (novamente, como há em High and Low), apenas a intervenção amortecedora da cultura midiática dos nossos tempos. Nada é exatamente resolvido porque não há nada para resolver, e o único horizonte possível é a manutenção do status quo, passando inevitavelmente pela reação da mídia e das redes sociais. Em Highest 2 Lowest, o realizador continua de certa forma sua análise sobre como se forma a imagem no meio da indústria cultural, ponto no qual já acertou no sensacional Bamboozled (1999), agora munido do mal-estar do tecno-feudalismo e de uma desconfiança profunda da alienação abrangente da ideologia do capital no meio da arte.
Há outros pontos de interesse que podemos citar – a polícia, por exemplo, destaque absoluto em High and Low e de alguma maneira protagonista da segunda metade do filme, aqui remete aos giallos na sua incompetência, outra mudança reveladora. Há ainda duas das mais divertidas sequências de ação, além das performances muito boas de grande parte do elenco, e me arriscando a frisar o óbvio, grande atuação de Denzel Washington. Dos grandes filmes do ano.
Lucas Bueno
