Madonna – Confessions II

A Madonna anunciou a bíblia volume dois, e quem abriu o Grindr certo belo dia encontrou uma mensagem da mamãe dizendo que tem um presente para você. Quem é gay sabe o que significa imaginar abrir o Grindr e ver uma mensagem da mãe, quiçá ainda, imagine, se for sua mãe aprovando de você estar no Grindr. O presente era um vídeo da Madonna falando putaria, detalhes de suas preferências sexuais que fariam todos os maiores jornalistas do mundo convulsionar de raiva que ela está dando esse furo para um aplicativo de putaria. Mas, veja só, não estamos em tempos em que as coisas tenham significado: você abria o Instagram da Madonna naquele momento, e estava lá anunciado que estava rolando o lançamento do álbum exclusivo do Grindr. A brincadeira ficou a nível estético, não foi aplicada na prática, a produção de Madonna não quis abrir mão do público que estivesse fora do Grindr para dar sabor e significado à intervenção. E,  no fim das contas, ela só estava usando o Grindr para se promover. Mamães, não é, minha gente?

Eu acho ótimo que a Madonna se refira a si mesma como mamãe para nós gays, porque ela é uma liberal doida que a gente ama por obrigação. Ela se orgulha muito de ser uma grande desafiadora da moral, uma ativista do sexo, mas já negou convite de Bruce LaBruce, pois não pode ser associada à pornografia. Aparentemente, Bruce LaBruce, um dos artistas mais importantes do universo queer, ao qual ela deve tanto, é, ele sim, os limites do que ela pode chamar de arte. Só esse desserviço custa boa parte de seus méritos. Mas suponhamos que tentemos compreender a mamãe, para não parar o texto por aqui.

Madonna parece, de fato, alguém traumatizada por tanta luta que é preciso travar para ocupar um lugar como o dela. De fato, oremos para que seus 800 milhões de dólares sirvam para consolá-la, pois sua batalha por espaço na cultura custou muito suor e lágrimas. Madonna é a tragédia do século XX, em uma de suas faces: seu desespero por expressar o quão difícil é ter sua voz ouvida está presente nas próprias agruras de sua mensagem. Ativista do sexo, Madonna precisa elevar sua voz à santidade, pois sua concepção do sagrado é uma afronta honesta às instituições da religião. Ela deixa clara a natureza do mistério, o encena, o explora, o guarda, ela é uma das últimas grandes guardiãs do mistério. Mamãe, querida. Perdoo todas as concessões que fizeste? Perdoo teu cansaço, tua indolência, tua cara de pau?

A amizade acontece num outro nível. Por isso eu acho interessante a Madonna se associar à fascista imagem da família: você não pode fechar com ela completamente. É você aqui, ela ali. A Madonna não vai te dar colo, ela pode, no máximo, te dar força. Ela é uma memória, uma imagem, o poder de um sentimento irracional. Junta um impulso de morte e acalento de mãe. Ela vai te confortar no meio da ilusão e da aceitação incondicional, e são vícios que você vai ter de encarar, como ela. O Confessions II parece a Madonna do seu lado na balada, sussurrando no seu ouvido para te dar força, se você não se sentisse tão legal quanto ela, se você estiver se perdendo. Ela apela para as suas seguranças e para o seu segredo, como alguém que quer despertar ali sua potência. É muito aconchegante, e é revigorante alguém importante lançar um disco pop todo etéreo, dream-y e de canções. É uma obra de amor, meio cafona, meio à moda antiga.

Uma potência política essencial da arte da Madonna que ela não perdeu e a coloca no patamar dos grandes artistas está no fato de que salvar a sua vida é o mais político dos atos. Em Like a prayer, ela estava fazendo música sobre gozar como algo sagrado, não estão errados os religiosos que a perseguiam. Sua concepção de religião, pela raiz, é incompatível com a religião corrente, ela só pode substituí-la, e por meio do corpo e da alma. Está certo quem diz que sua arte é perigosa. O interessante do perigo é seu caráter amoral, e, portanto, não é algo de esquerda nem de direita, do bem nem do mal, é muito pior. É veneno, tudo depende da dose e da pessoa.

Madonna faz a manutenção cuidadosa de um lugar que fale com todo mundo, pois sua mensagem é mais simples e essencial: é o amor e o corpo. Claro, simples demais para que ela fale contra Israel, mas importante o suficiente para que ela fale pelos palestinos. A Madonna, aliás, tão ativista de si mesma como é, já tentou sabotar a pirataria de um álbum seu, tendo ele merecidamente vazado. Sua luta pela importância da vida individual de cada ser humano, sua dignidade humana e direito a gozar, precisa, e, conforme precisa, tem palco e potência, estar num lugar, em última instância, adaptado à grande exigência moral da norma. Não vamos ver a Madonna associada com pornografia, pois pornográfico mesmo é o que a santa faz no mundo dos negócios.

Villar da Cruz